Falhas na saúde preventiva na Alemanha têm raízes no nazismo
Uma pesquisa do Centro Alemão de Estudos do Câncer traz um diagnóstico alarmante sobre a situação da saúde pública na Alemanha. Embora seja o país que mais gasta com saúde na Europa, a Alemanha tem um dos piores desempenhos em saúde preventiva - ou seja, falta combate ao cigarro, à bebida, à alimentação ruim e ao sedentarismo. A explicação para essa situação, segundo pesquisadores, seria mais cultural e histórica do que científica.
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf (Alemanha)
O Índice de Saúde Pública é o primeiro a medir como os países europeus implementam medidas cientificamente recomendadas para promover estilos de vida saudáveis. Ele mostra que a Alemanha está no penúltimo lugar neste quesito, perdendo apenas para a Suíça, em uma lista de 18 países. O ranking é liderado por Reino Unido, Finlândia, Irlanda, Noruega e França.
O resultado não chega a ser uma surpresa para estrangeiros que vivem na Alemanha. Espanta o fato de que não existem campanhas de saúde contra o uso do álcool e tabaco, tampouco incentivos à prática de exercícios físicos, por exemplo. Nem mesmo os médicos costumam salientar orientações sobre alimentação saudável.
Todo o tratamento médico na Alemanha é focado em combater os problemas depois que eles já surgiram. Esse traço cultural alemão é alarmante principalmente confrontado com outros dois dados científicos: 50% dos europeus em algum momento da vida vão desenvolver um câncer, e quatro em cada 10 casos de câncer podem ser evitados por meio de políticas de prevenção efetivas, justamente o que não acontece na Alemanha.
Saúde e nazismo
Segundo pesquisadores, a explicação é cultural. Em um artigo publicado na renomada revista científica Lancet, o vice-presidente da Associação Alemão de Saúde Pública, o Hajo Zeeb, diz que o desprezo pelas políticas de prevenção surgiu como uma reação ao nazismo.
Na década de 1930, o regime nazista utilizou a higiene racial e a eugenia como políticas para justificar esterilizações involuntárias e assassinatos em massa. A ideia de promoção da saúde pública passou a ser profundamente ligada à ideologia nazista. Essa associação tornou a promoção de políticas de saúde pública um tabu na Alemanha Ocidental durante décadas, no período pós-guerra.
Como consequência, os centros locais de saúde tiveram suas atividades de prevenção e promoção da saúde bastante limitadas e continuam assim até hoje, focados apenas em medicina curativa, e não preventiva.
A história foi diferente na Alemanha Oriental, que estabeleceu um sistema de saúde socialista e deu mais ênfase a medidas preventivas, incluindo amplos programas de vacinação e check-ups regulares. Do outro lado do muro, o problema era que faltavam tratamentos curativos modernos.
Depois da reunificação das duas Alemanhas, em 1989, o sistema de saúde conjunto foi modelado a partir do sistema da Alemanha Ocidental, atribuindo ao Estado apenas um papel reduzido na saúde pública. Foi dada prioridade à autonomia individual e à medicina individualizada praticada por médicos em consultórios privados.
Álcool e tabaco liberados
A situação alemã demonstra que o dinheiro sozinho não garante um bom sistema de saúde preventiva. A Alemanha é o país que mais gasta com saúde pública na Europa, chegando a quase 13% do PIB. A média dos 27 estados membros da União Europeia é de cerca de 10%.
Em relação ao tabaco, o estudo mostra que, na Alemanha, os impostos estão abaixo do nível recomendado pela OMS e a publicidade ainda é permitida nos pontos de venda. A Irlanda e o Reino Unido lideram o ranking de controle do tabaco há anos, seguidos pela França e pelos Países Baixos. Esses países apostam na expansão de zonas livres de fumo, amplas restrições à publicidade e também embalagens neutras para os maços de cigarro.
Já em relação ao álcool, a Alemanha tem problemas em tributação, disponibilidade e publicidade. O álcool está facilmente disponível a quase qualquer hora do dia e é muito barato em relação a outros países. Noruega, Finlândia, Suécia e Lituânia conseguiram reduzir muito o consumo de álcool por meio de restrições para compra e consumo. Na Letônia, por exemplo, não é possível nem comprar cerveja em supermercados a partir das 20h.
Por fim, em relação à nutrição, a Alemanha não tem normas para as refeições escolares nem imposto sobre refrigerantes com muito açúcar, instrumentos que já são usados com sucesso em vários países como o Reino Unido, Finlândia, França, Letônia e Polônia.
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