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Um em cada três franceses tem vínculo direto ou indireto com imigração, mas desigualdades persistem

Estudo divulgado nesta quarta-feira (20) pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined) mostra que a França é cada vez mais misturada, mas segue marcada por fortes desigualdades ligadas à origem migratória. A pesquisa, feita com mais de 27 mil pessoas, revela que um terço da população tem vínculo com a imigração e que muitos imigrantes enfrentam trajetórias caóticas, com períodos sem documentos ou moradia. A crise habitacional agrava a segregação e amplia disparidades duráveis no país.

20 mai 2026 - 11h57
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A nova edição do estudo "Trajetórias e Origens 2", conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined), redesenha o retrato da sociedade francesa e revela a profundidade das desigualdades ligadas à origem migratória. A pesquisa descreve um país "cada vez mais misturado", mas ainda marcado por disparidades étnico-raciais persistentes, em um contexto político no qual a imigração é tratada como ruptura, e não como componente estrutural.

O levantamento, realizado entre 2019 e 2020 com mais de 27 mil pessoas de 18 a 59 anos, é o mais amplo do tipo em mais de uma década e se tornou referência para compreender transformações sociais e demográficas.

Os dados mostram que a imigração está enraizada na vida social francesa. Uma em cada três pessoas tem algum vínculo direto ou indireto com a imigração: 13% da população é imigrante, 11% é filha de imigrantes e 10% é neta de imigrantes. Quando se incluem pessoas que vivem com parceiros de origem migratória, o percentual sobe para 41%.

Para o Ined, isso desmonta a ideia de que a imigração seria fenômeno externo à identidade nacional. Ao contrário, trata-se de uma dimensão ordinária da sociedade, presente em famílias de diferentes regiões, classes e gerações.

A pesquisa detalha ainda a diversidade das origens migratórias. Entre os imigrantes, 32% vêm do Magreb, 20% da África subsaariana, 16% da Ásia e 28% da Europa. Entre os netos de imigrantes, a predominância europeia é esmagadora, reflexo das ondas migratórias mais antigas.

O estudo destaca que, ao longo das gerações, as fronteiras entre origens se diluem: casamentos mistos se tornam mais frequentes e a composição familiar se torna mais heterogênea. Para o pesquisador Mathieu Ichou, essa convergência mostra que identidades migratórias não se organizam em "blocos estanques", mas se transformam continuamente.

Além disso, o estudo revela que a situação administrativa pode mudar profundamente ao longo dos anos: pessoas inicialmente consideradas inelegíveis para visto ou autorização de residência podem, mais tarde, obter um título de residente ou até a nacionalidade francesa. Quase um quarto dos que já estiveram sem documentos conseguiu regularizar sua situação com uma autorização de longa duração, e proporção semelhante foi naturalizada.

Escolaridade

Outro ponto relevante é o nível de escolaridade dos imigrantes. Mais da metade dos que chegaram ao país a partir de 2009 já possuíam diploma de ensino superior antes da migração, proporção superior à observada entre franceses sem ascendência migratória.

O dado contraria estereótipos frequentemente mobilizados no debate público e reforça a diversidade de perfis presentes nas migrações contemporâneas. A proporção de pessoas com diploma equivalente a Bac+3 (equivalente à graduação completa no Brasil) é, em média, mais alta entre imigrantes do que entre franceses sem histórico migratório.

A pesquisa também aborda a experiência da irregularidade administrativa. Um em cada cinco imigrantes que chegaram após os 16 anos já viveu algum período sem documentos, e proporção semelhante afirma ter passado por momentos sem domicílio fixo. Esses episódios ajudam a explicar desigualdades persistentes no acesso à moradia e na estabilidade de vida.

Moradia precária e segregação agravam desigualdades

O Ined observa que a proporção de imigrantes em situação irregular não aumentou ao longo das décadas, ao contrário do que sugerem discursos políticos, mas as condições de moradia se deterioraram desde o início dos anos 2000.

A irregularidade costuma surgir após os primeiros meses no país, quando a pessoa já havia iniciado seu processo de instalação com visto válido ou moradia própria. Apenas 9% dos imigrantes sem documentos entraram na França sem visto, o que contraria a imagem de chegadas clandestinas generalizadas.

As dificuldades de moradia aparecem como um dos pontos mais críticos. Entre os imigrantes que chegaram após 2010, cerca de 5% viveram algum período sem abrigo, mais que o dobro da proporção registrada entre os que chegaram antes de 2000. O Ined ressalta que as condições de moradia nos primeiros meses são determinantes para o restante da trajetória, influenciando acesso ao emprego, estabilidade familiar e mobilidade social. A crise habitacional e o aumento dos preços imobiliários reduziram ainda mais as margens de manobra das populações mais vulneráveis.

Mesmo quando conseguem acessar o sistema de habitação social, muitos imigrantes acabam concentrados nos segmentos mais precarizados do parque público. Segundo o estudo, 40% das pessoas que já viveram na rua ou em ocupações irregulares hoje residem em conjuntos habitacionais localizados em áreas urbanas mais pobres. Para o Ined, processos de segregação e relocalização sempre existiram, mas foram agravados pela crise habitacional recente.

O instituto afirma que melhorar as condições de moradia das populações mais fragilizadas é essencial para combater desigualdades sociais ligadas à origem migratória. As desigualdades habitacionais, lembra o estudo, produzem outras desigualdades — econômicas, escolares e territoriais — e podem transformar a precariedade inicial em desvantagem permanente. 

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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