Estudantes, trabalhadores, militantes: qual o perfil dos autores dos distúrbios na França?
Cenas de jovens atacando lojas, veículos e prédios públicos no último fim de semana na França, à margem das manifestações contra o alto custo de vida, chocaram o mundo. Enquanto o governo implementa uma resposta judicial rápida e rigorosa, o perfil dos envolvidos nos distúrbios se tornou um tema central do debate público, alimentando controvérsias e suscitando o risco de conclusões precipitadas.
Após os recentes tumultos na França, o Judiciário acelerou os julgamentos de centenas de detidos sob forte rigor penal. Embora o governo aponte a influência de grupos da extrema esquerda, autoridades e investigadores revelam que não há um perfil único ou motivação estritamente política. A maioria dos réus é composta por homens jovens, entre estudantes e trabalhadores, muitos sem antecedentes criminais, gerando protestos de advogados que denunciam a excessiva repressão estatal.
Poucos dias após os tumultos, os julgamentos se multiplicam nos tribunais franceses. Segundo o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, 800 pessoas já foram apresentadas à Justiça e 150 foram presas, várias delas em regime fechado. Em visita a Lille, no norte da França, na terça-feira (20), o ministro defendeu uma resposta judicial rápida e rigorosa, afirmando que, sem uma ação penal "extremamente firme", a população poderia ser levada "a fazer justiça com as próprias mãos".
Justiça contra quem? Até o momento, não há uma definição de quem seriam os responsáveis pelos atos de violência. A exemplo de vários membros da alta cúpula do governo, Darmanin alega que organizações da ultraesquerda e da extrema esquerda teriam se organizado "para atacar a autoridade do Estado".
Já o ministro francês do Interior, Laurent Nuñez, acusou o partido França Insubmissa, da esquerda radical, de ser responsável por incitar as violências urbanas. Ao mesmo tempo, o site de jornalismo investigativo Mediapart, indica, em uma reportagem publicada na segunda-feira (19), que os serviços de inteligência teriam recebido a instrução para acusar a legenda de estar por trás dos tumultos.
Até o momento, há apenas um caso que reforça as suspeitas das autoridades: o de um homem detido pela unidade de elite da polícia, suspeito de ter participado do incêndio da prefeitura de Limoges, no centro-oeste da França. Informações obtidas pela agência AFP junto a fontes policiais indicam que ele teria vínculos com grupos da ultraesquerda.
Ainda assim, especialistas e investigadores ressaltam que é difícil traçar um perfil único dos participantes dos tumultos, que parecem reunir indivíduos com origens e motivações diversas. De acordo com a promotora de Paris, Laure Beccuau, entre as pessoas que permaneciam detidas após a onda de violência na capital francesa, nenhuma "alegou uma motivação de natureza política".
O Ministério da Justiça informa que cerca de 70% dos detidos são maiores de idade, sendo 95% deles homens. "Há de tudo: pessoas originárias da imigração, estrangeiros, mas também há pessoas perfeitamente integradas, que são francesas", ressaltou Gérald Darmanin, na terça-feira.
Julgamentos em ritmo acelerado
Nas maiores cidades a França, juízes analisam em ritmo acelerado os processos dos suspeitos de participação nos tumultos. À medida que os julgamentos avançam, perfis bastante diversos passam pelos tribunais: estudantes, jovens trabalhadores, manifestantes ocasionais e também pessoas suspeitas de terem se aproveitado dos distúrbios para saquear estabelecimentos comerciais, muitas delas sem antecedentes criminais. No banco dos réus, alguns afirmam ter sido influenciados pelo efeito de grupo.
Entre eles, está Edmond'son G., de 21 anos, ex-bombeiro voluntário, detido no último sábado em Paris, carregando oito garrafas de vidro, combustível, pedaços de tecido e três isqueiros. O acusado afirmou que nunca teve a intenção de usar o material contra policiais. No entanto, os investigadores encontraram em seu celular vídeos que mostrariam testes de coquetéis molotov realizados antes de sua chegada à capital francesa.
Em outro processo, dois jovens sem antecedentes criminais respondem por suspeita de terem planejado ações violentas contra as forças de segurança. Mathilde V., de 19 anos, e François D., de 20, trocaram mensagens nas quais mencionavam a ideia de "agredir policiais da tropa de choque" e promover uma espécie de "guerrilha". Ambos afirmaram ao tribunal que jamais pretendiam colocar esses planos em prática.
"Não pensei nas consequências. Eu só queria me manifestar por causa do meu salário", declarou a jovem, condenada a cinco meses de prisão com sursis. Seu amigo François, com quem os policiais encontraram uma soqueira e um canivete recebeu uma pena de oito meses, dois em regime fechado, com encarceramento imediato.
A firmeza da Justiça francesa também se reflete nos processos adiados. É o caso de Younes, um estudante tunisiano de 20 anos que admitiu ter lançado balões cheios de fezes e tinta na direção de policiais durante os protestos. O jovem pediu desculpas e afirmou que participou da manifestação para protestar contra a plataforma de acesso ao ensino superior Parcoursup, que os estudantes do ensino médio consideram falha e injusta. O julgamento foi adiado para 19 de novembro, mas o tribunal decidiu mantê-lo em prisão preventiva, citando, o fato de seu visto de residência estar próxima do vencimento.
Advogados protestam contra a repressão
Na terça-feira, um clima de contestação tomou conta do Tribunal Judicial de Paris. Na sala de audiências 6.01, membros do coletivo Colère Noire, do Sindicato dos Advogados da França e do Coletivo de Ação Judicial promoveram uma intervenção conjunta para denunciar o tratamento atribuído ao movimento estudantil.
"Desde 7 de setembro, milhares de estudantes do ensino médio têm se mobilizado e apresentado reivindicações concretas. Em resposta, não vemos nada além de repressão contra eles", declaram. E alertam: "Como advogados, estaremos sempre atentos à atuação da Justiça e ao que lhe é solicitado fazer".
Em outros julgamentos, os debates se concentram nas circunstâncias das detenções. É o caso de Ilyes A., de 24 anos, detido nas proximidades de uma loja saqueada em Paris, carregando várias caixas de sapatos. Diante do tribunal, o jovem nega ter roubado mercadorias. "Havia sapatos espalhados por toda a rua. Eu apenas os recolhi", afirmou em sua defesa.
Nos corredores do tribunal, há ainda numerosas famílias, que se aglomeram no aguardo dos vereditos. A mãe de Ilyas B., de 21 anos, suspeito de ter participado de atos de vandalismo nas Galerias Lafayette, em Paris, conta que só foi informada da detenção do filho na manhã de terça-feira. "Ele não costuma fazer besteiras", defende ela, em entrevista à rádio France Info.
O jovem, que não possui antecedentes criminais, pediu mais tempo para preparar sua defesa. O julgamento foi marcado para 9 de dezembro, mas ele permanecerá preso até lá.
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