Equipe 'sem franceses': seleção da França é novamente alvo de racismo antes de jogo contra Espanha
Em um artigo de opinião publicado pelo jornal El Debate, o ex-primeiro-ministro conservador da Espanha descreve a seleção francesa como uma equipe "sem franceses". A provocação acontece dois dias antes da semifinal da Copa do Mundo, que colocará Kylian Mbappé e seus companheiros de equipe diante dos espanhois.
Após os ataques racistas da senadora paraguaia Celeste Amarilla contra Kylian Mbappé, em 6 de julho, dois dias depois da classificação da França sobre o Paraguai nas oitavas de final da Copa do Mundo, foi a vez do ex-primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, fazer declarações dirigidas à seleção francesa.
Em um artigo de opinião publicado na madrugada de sexta-feira, 10 de julho, para sábado, 11 de julho, no site do jornal espanhol El Debate, o ex-primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, comentou a semifinal da Copa do Mundo entre França e Espanha, marcada para 14 de julho.
Embora tenha reconhecido a qualidade da equipe francesa, classificando seu elenco como "de altíssimo nível" e afirmando que a seleção "pratica um excelente futebol", Rajoy acrescentou uma observação que provocou indignação: "Dito isso, ela não tem nenhum jogador francês."
Sánchez denuncia 'declarações xenófobas'
Para alguém que admite não entender muito de futebol, a análise de Rajoy sobre a seleção francesa passou longe de ser discreta. Suas declarações incendiaram as redes sociais e os debates na televisão espanhola poucos dias antes do confronto entre França e Espanha.
Neste domingo, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, criticou na rede social X as "declarações xenófobas" de seu antecessor.
Hay quien todavía mide la pertenencia por el apellido, el lugar de nacimiento o el color de piel.
Otros la medimos por el arraigo a un país y la voluntad de contribuir a él. Jugando al fútbol. Cuidando a nuestros mayores. O abriendo negocios.
España es de quien la ama y la…
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) July 12, 2026
"Há quem ainda meça o pertencimento pelo sobrenome, pelo local de nascimento ou pela cor da pele. Outros o medem pelo vínculo com um país e pela vontade de contribuir com ele", escreveu Sánchez.
"A Espanha pertence àqueles que a amam e a constroem. Não àqueles que a desonram com declarações xenófobas. França, nos vemos na semifinal da Copa do Mundo. Que vença o melhor e que o racismo perca", concluiu.
Já o ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, classificou a declaração de Rajoy como uma "imbecilidade pós-franquista".
Na direita espanhola, o silêncio prevaleceu. O Partido Popular, legenda à qual Mariano Rajoy é filiado, não comentou as declarações do ex-primeiro-ministro. Nos últimos anos, os conservadores firmaram alianças políticas em diversas regiões do país com o partido de extrema direita Vox e cogitam formar uma coalizão de governo em nível nacional.
'Racismo grosseiro' e 'ódio banalizado'
Na França, o líder do Partido Socialista, Olivier Faure, respondeu a Mariano Rajoy afirmando que "a seleção francesa é composta apenas por franceses".
"A França não é uma nação étnica. Ela não tem cor de pele nem religião. É uma nação política unida em torno dos valores da República. Ainda que isso desagrade à direita racista", declarou. Na mesma linha, o líder do Partido Comunista francês, Fabien Roussel, afirmou:
"Ontem foi uma senadora do Paraguai; agora, o ex-primeiro-ministro da Espanha. Eles parecem incapazes de deixar de expressar um racismo grosseiro para tentar desestabilizar nossa bela seleção francesa."
Integrantes do governo francês também reagiram. "A cada vitória dos Azuis, as mesmas obsessões e os mesmos insultos racistas ressurgem. Isso não são apenas 'deslizes'. É um ódio sistemático e banalizado contra a França e aquilo que ela representa", criticou a ministra dos Territórios Ultramarinos, Naïma Moutchou, defendendo que a Federação Francesa de Futebol (FFF) tome "medidas judiciais".
Ataques racistas desde o início da Copa do Mundo
Desde o início da competição, a seleção francesa vem sendo alvo de ataques racistas. O caso mais recente envolve uma representante política argentina que foi declarada persona non grata pela Embaixada da França no país.
Hebe Casado, vice-governadora de direita da província argentina de Mendoza, publicou uma mensagem no X após a vitória da França sobre o Paraguai por 1 x 0 na Copa do Mundo. Ela escreveu: "Muito bem, Paraguai. A equipe africana, sem nenhuma classe. Não suporto Mbappé."
Em resposta, a Embaixada da França na Argentina anunciou que considerava Casado indesejada em suas instalações ou em atividades relacionadas à cooperação bilateral. O embaixador francês na Argentina, Romain Nadal, condenou declarações cujo "caráter racista não deixa nenhuma dúvida". Em entrevista à Agência France-Presse (AFP), ele afirmou que essas falas "a desqualificam para trabalhar com a embaixada ou participar de reuniões nas quais a instituição esteja presente".
Ele acrescentou: "Não há espaço para o racismo na cooperação entre França e Argentina."
Com AFP e RFI
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