OSCE alerta para 'assimilação forçada' de crianças ucranianas em territórios ocupados pela Rússia
Um relatório publicado na quinta-feira (9) pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) faz um alerta sobre a situação de cerca de 1,6 milhão de crianças ucranianas que vivem em territórios ilegalmente ocupados pela Rússia. Segundo o documento, os menores, expostos a um sistema organizado para forçar uma assimilação cultural, são submetidos a pressões que poderiam ser consideradas crimes contra a humanidade.
Emmanuelle Chaze, correspondente da RFI em Kiev
O relatório elaborado por especialistas independentes da OSCE destaca a política de "reeducação" conduzida pela Rússia em relação à juventude ucraniana nos territórios ocupados. Ela propõe a reformulação do ensino e dos livros didáticos, além do recrutamento ideológico de crianças desde pequenas em grupos paramilitares e patrióticos. O projeto também inclui o rompimento com a identidade cultural e linguística dos menores.
Segundo o documento, as crianças desde cedo seriam alvo de um condicionamento ideológico e militar contra o próprio país. Muitos jovens, ao atingirem a maioridade, são pressionados a ingressar em brigadas russas e lutar na guerra contra a Ucrânia, que começou em 2022.
De acordo com a especialista letã Elina Steinerte, vários jovens ucranianos deixaram os território ocupados "sem avisar suas famílias" para escapar do serviço militar obrigatório. O documento, que relata aulas de manejo de armas e campos de treinamento, menciona vários casos de jovens adultos que foram incorporados às forças armadas e enviados para o front na Ucrânia.
O relatório recomenda que a situação das crianças seja incluída em qualquer processo de cessar-fogo ou negociação de paz e propõe a criação de corredores humanitários para facilitar a reunificação familiar. De acordo com Steinerte, a Ucrânia já implementou alguns "programas de reintegração", mas o trabalho que ainda precisa ser realizado é "imenso".
Crime contra a humanidade
Para a organização, essa política russa constitui um sistema que viola o direito internacional, a Convenção sobre os Direitos da Criança e as Convenções de Genebra. "Consideramos que esse sistema pode configurar o crime contra a humanidade de perseguição", afirmou o especialista francês Hervé Ascensio durante a apresentação do relatório em Viena. O representante da organização acrescentou que as crianças e seus pais tornam-se alvos quando tentam preservar sua identidade ucraniana.
Mais de de 20.600 crianças ucraninas já foram deportadas ou transferidas à força para outras regiões, segundo as autoridades do país. Kiev afirma ter conseguido recuperar cerca de 2.300 delas. Diante dessas acusações e apesar dos vários depoimentos de vítimas, Moscou rejeita qualquer responsabilidade e sustenta que age "no interesse menores."
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