Corrupção: ministra francesa será julgada em caso que envolve Carlos Ghosn, ex-CEO da Renault
A ministra da Cultura da França, Rachida Dati, enfrentará um julgamento por acusações de corrupção, em um processo que também envolve o ex-executivo franco-libanês-brasileiro Carlos Ghosn, conhecido mundialmente por seu papel à frente da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e por sua fuga cinematográfica da Justiça japonesa em 2019.
A ministra da Cultura da França, Rachida Dati, enfrentará um julgamento por acusações de corrupção, em um processo que também envolve o ex-executivo franco-libanês-brasileiro Carlos Ghosn, conhecido mundialmente por seu papel à frente da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e por sua fuga cinematográfica da Justiça japonesa em 2019.
Dati é acusada de ter recebido cerca de € 900 mil (aproximadamente R$ 6 milhões) entre 2010 e 2012, período em que ocupava o cargo de deputada no Parlamento Europeu. A suspeita é de que ela tenha atuado como lobista em favor do grupo Renault-Nissan, então comandado por Ghosn, prática proibida para parlamentares da União Europeia.
O Ministério Público francês aponta que os pagamentos teriam sido disfarçados como contratos de consultoria, mas com finalidades políticas e de influência perante autoridades europeias. A audiência preliminar está marcada para o dia 29 de setembro, em Paris. Ainda não há data para o início do julgamento, mas a convocação da ministra poderá impactar a candidatura de Dati à prefeitura de Paris em 2026. O Palácio do Eliseu declarou que respeita a presunção de inocência e que Dati permanecerá no cargo por enquanto.
O caso tem forte repercussão na imprensa. Segundo o jornal Le Figaro, a Justiça rejeitou recentemente um recurso da defesa de Rachida Dati, que alegava irregularidades na coleta de provas e tentava anular o processo.
O jornal Libération publicou nesta quarta-feira (23) uma foto de Dati e do empresário franco-líbano-brasileiro sorridentes, lado a lado, no Salão do Automóvel de Paris, em 2010. Libé enumera a lista de crimes pelos quais a ministra da Cultura é suspeita: apropriação indébita, receptação e corrupção passiva. Já Ghosn, embora viva atualmente no Líbano e esteja fora do alcance da Justiça francesa, é processado por abuso de poder, corrupção, tráfico de influência e apropriação indébita. Ambos foram convocados a comparecer à audiência preliminar no final de setembro.
Já o diário Le Parisien afirma que "Dati não desistirá". Em entrevista à emissora LCI na terça-feira (22), a ministra negou todas as acusações e não poupou críticas à Justiça francesa, denunciando investigações "incompletas" e "ilegais", segundo ela. Por enquanto, o processo não terá incidência sobre seu mandato no Ministério da Cultura.
Implicações políticas
Membro do partido conservador Os Republicanos, Rachida Dati também acumula o cargo de subprefeita do 7º distrito de Paris e já se lançou como pré-candidata à prefeitura da capital nas eleições municipais previstas para março de 2026. Esta será sua segunda tentativa de conquistar o cargo; na eleição de 2020, ela foi derrotada pela atual prefeita socialista, Anne Hidalgo.
Analistas políticos franceses consideram que, embora o julgamento possa não começar antes da campanha eleitoral, o processo funcionará como pano de fundo incômodo para sua candidatura, com potencial para desgastar sua imagem diante do eleitorado parisiense.
Dati mantém uma relação próxima com o presidente Emmanuel Macron. Segundo fontes do governo, o chefe de Estado "não pretende pressioná-la" por enquanto. Ela própria, em entrevista recente, classificou as investigações como "ilegais" e "incompletas", negando veementemente qualquer irregularidade.
Carlos Ghosn, o personagem-chave
O caso também reacende o interesse internacional sobre Carlos Ghosn, figura central de um dos maiores escândalos corporativos da última década. Nascido no Brasil, filho de libaneses, Ghosn se destacou como um dos executivos mais poderosos do setor automobilístico global até sua prisão no Japão, em 2018, sob acusação de fraude financeira. Em 2019, protagonizou uma fuga espetacular para o Líbano, onde permanece desde então, fora do alcance da Justiça japonesa e agora também da francesa.
Embora esteja ausente fisicamente, Ghosn segue como figura-chave no julgamento e poderá ser julgado à revelia na França, onde é alvo de múltiplas investigações por práticas ilícitas envolvendo milhões de euros.