Crans-Montana: Justiça decreta prisão preventiva de dono do bar que pegou fogo e matou 40 pessoas
Jacques Moretti, coproprietário e gerente do bar Le Constellation, que pegou fogo na noite do Ano‑Novo na estação de esqui suíça de Crans‑Montana, foi colocado em prisão preventiva nesta sexta‑feira (9), anunciou a Justiça do país. Ele é principal suspeito no inquérito aberto após a tragédia que deixou 40 mortos e 116 feridos.
Jacques e sua esposa, Jessica, foram ouvidos pelo Ministério Público em Sion, no cantão do Valais, durante mais de seis horas nesta sexta-feira, dia de homenagens às vítimas em toda a Suíça. "Uma nova análise do risco de fuga foi realizada de maneira detalhada durante a audiência. Com base nisso, o Ministério Público decidiu solicitar ao Tribunal de Medidas Coercitivas a prisão preventiva do gerente", anunciou o Ministério Público do cantão do Valais (sudoeste) em comunicado.
"Considerando suas declarações, seu histórico de vida e sua situação na Suíça e no exterior, o Ministério Público estimou que o risco de fuga era concreto", acrescentou o MP.
Jacques Moretti é proprietário de ao menos três estabelecimentos na região e foi condenado por um caso de prostituição em 2008.
A prisão era solicitada há uma semana pelos advogados das famílias das vítimas, que criticavam a forma como o processo vinha sendo conduzido pelas autoridades da região, que libertaram o casal.
Quanto a Jessica Moretti, o Ministério Público considerou que "dado seu histórico e seus vínculos pessoais (...), uma solicitação de medidas alternativas permitiria compensar o risco de fuga".
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Meus pensamentos vão constantemente às vítimas e às pessoas que hoje lutam por suas vidas", disse Jessica brevemente, com o rosto abatido e a respiração curta. "Foi uma tragédia inimaginável. Jamais, jamais poderíamos ter imaginado isso. Isso aconteceu em nosso estabelecimento e eu quero pedir desculpas", acrescentou antes de se retirar.
As decisões do MP devem ser confirmadas no prazo de 48 horas pelo Tribunal de Medidas Coercitivas, afirmou à imprensa um dos advogados dos franceses, Patrick Michod.
O casal é oficialmente suspeito de "homicídio culposo (sem intenção), lesões corporais e incêndio culposo".
"A principal preocupação das famílias continua sendo o risco de desaparecimento de provas ou de influência indevida sobre os depoimentos que ainda precisam ser colhidos, tanto dos acusados quanto das autoridades que já reconheceram falhas", reagiu, após a audiência, um dos advogados das vítimas, Romain Jordan.
Após a conclusão do inquérito, o Ministério Público do Valais decidirá se arquiva o caso ou procede ao indiciamento, que levará a um possível julgamento. Por enquanto, segundo a Justiça suíça, prevalece a presunção de inocência.
Luto nacional
A população suíça prestou homenagem nesta sexta, dia de luto nacional, às vítimas do incêndio no bar e observou, antes das 14h, no horário local, um minuto de silêncio, seguido pelo toque dos sinos de todas as igrejas da Suíça.
Em todo país, o silêncio foi respeitado em empresas, repartições públicas, escolas e até nas ruas, onde pedestres frequentemente paravam quando os sinos soavam.
Uma cerimônia oficial ocorreu em Martigny, no Valais, diante de cerca de mil pessoas, com a presença do presidente francês Emmanuel Macron e do presidente italiano Sergio Mattarella. Nove franceses e seis italianos morreram no incêndio.
Em seu discurso, o presidente suíço, Guy Parmelin, declarou que o país segue "consternado" pela tragédia e pediu que as autoridades judiciais tornem "as falhas públicas e as punam". A "noite de horror" transformou "toda a Suíça em uma única família em luto", disse.
Em Crans‑Montana, coberta por uma espessa camada de neve nesta sexta, centenas de moradores, turistas e socorristas acompanharam a cerimônia ao vivo.
Em frente ao bar Le Constellation, um altar decorado com flores, velas, pelúcias e fotos das vítimas estava coberto por uma lona branca para protegê‑lo da neve. "Um luto, um grande luto nacional para sempre gravado em nossas mentes. Paz à sua alma", dizia uma das mensagens.
No total, pessoas de 19 nacionalidades foram atingidas pela tragédia. Segundo o balanço mais recente, 83 feridos continuam hospitalizados na Suíça, além de pacientes internados em unidades de queimaduras graves na França, Itália, Alemanha e Bélgica.
A primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, declarou em Roma que o incêndio "não foi um simples acidente", mas o resultado de "muita negligência" e da busca por "dinheiro fácil", prometendo justiça às famílias.
Falta de inspeção
O bar não passou por nenhuma inspeção de segurança e de incêndio desde 2019 — o que gerou consternação entre os familiares das vítimas.
Segundo os primeiros elementos do inquérito, o drama teria sido provocado por velas vulcão que entraram em contato com espuma acústica que revestia o teto do subsolo do bar.
Os clientes, em sua maioria adolescentes e jovens adultos, acabaram ficando presos no local, onde o fogo se alastrou muito rapidamemte.
Na noite de Ano‑Novo, o estabelecimento estava lotado, e vídeos divulgados nas redes sociais mostraram empurrões e correria enquanto as pessoas tentavam desesperadamente sair.
Com agências