Casal de mágicos brasileiros transforma sonho de infância em carreira em Portugal
Por mais de 30 anos, o ilusionismo tem sido não apenas uma paixão, mas a profissão de André Corrêa, conhecido artisticamente como Andrély, e sua esposa, Flávia Molina. Nascidos no Rio de Janeiro, o casal encontrou em Portugal o cenário perfeito para transformar o encanto em carreira, conquistando plateias de todas as idades e mantendo viva a tradição de uma arte milenar.
Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa
Desde a infância, André Corrêa se encanta pelo impossível. "Eu tinha nove anos, vi um mágico na televisão, num programa americano chamado The Magic Castle, e pensei: 'poxa, mágico é legal'", lembra.
A curiosidade se tornou paixão quando, ao passar em frente a uma loja, viu a primeira "caixa de mágica". "Fui picado pelo vírus da mágica. É um vírus que te pica e não sai mais do corpo", diz Andrély. A partir de então, começou a estudar sozinho, economizando para comprar livros, frequentando bibliotecas e aprendendo truques cada vez mais complexos.
Aos 12 anos, Andrély fez seu primeiro show profissional em uma festa infantil no Rio de Janeiro, acompanhado pelo pai. "Foi a primeira vez que falei em público. Eu era tímido, mas tive coragem e foi muito legal", recorda. Entre bibliotecas, festivais e encontros com outros mágicos, ele se aprofundou na arte, descobrindo os diversos ramos do ilusionismo: close-up, manipulação, grandes ilusões, mentalismo e até hipnose de palco.
A trajetória de Andrély se entrelaça com a de Flávia Molina, também ilusionista, que conheceu ainda no Brasil. "A magia nos une muito. Às vezes queremos brigar, mas vemos um truque e esquecemos a discussão", conta Flávia filha do dono do Circo Molina.
O casal compartilha não apenas a vida, mas o palco, criando números que combinam técnicas clássicas e inovações modernas, muitas vezes com elementos digitais, luzes e interação com o público. Entre shows, viagens e preparação para festivais internacionais, encontram tempo para a família e para o constante desenvolvimento da arte.
"A magia é quase um vício para nós, mas é o que nos realiza, nos desafia e nos conecta com o público", afirma Andrély. "É uma arte que te pica, como a música ou a pintura. Você se apaixona e nunca mais larga."
Portugal: um novo começo
Chegar a Portugal, há mais de 20 anos, significou um novo começo. "Quando viemos, minha filha tinha apenas dois anos. Trabalhei alguns meses em uma loja de mágica até começar a receber convites para shows", lembra Andrély. A adaptação ao mercado português foi rápida: os portugueses, acostumados a programas de televisão com mágica e hoje à presença digital de mágicos na internet, demonstram grande interesse e entusiasmo.
"Os espetáculos de magia esgotam com facilidade, seja com shows de comédia, grandes ilusões ou close-up. Há público para todas as categorias", explica Andrély.
O público brasileiro, porém, apresenta diferenças sutis. Em cidades brasileiras, há grande demanda por shows teatrais ou festas infantis, enquanto o público português aprecia o entretenimento corporativo, festas privadas e espetáculos familiares. "No Brasil, o close-up é mais difícil de fazer porque o público quer descobrir o segredo, compete com o ilusionista tentando descobrir a magia. Em Portugal, as pessoas se encantam, aproveitam o momento, prestam atenção, sem se preocupar em decifrar os truques", comenta Andrély.
O encantamento que proporcionam ao público é, para ele e Flávia, a maior recompensa: "O sorriso das crianças, os aplausos dos adultos, isso faz a gente querer evoluir cada vez mais", completa Flávia.
Festivais internacionais
Em fevereiro, o casal estará em Blackpool, na Inglaterra, para participar do maior congresso de mágica do mundo, onde 4 mil mágicos se reúnem para workshops, conferências e apresentações. "É essencial se reciclar, conhecer novas técnicas e produtos, e aprender com outros profissionais", diz Andrély.
A carreira também é marcada pela versatilidade: da grande ilusão em teatros a números de comédia interativos, ele adapta seus shows ao público. O ilusionista leva a magia a lugares inusitados, como centros de Alzheimer, onde a plateia, mesmo com dificuldades cognitivas, conecta-se profundamente com o espetáculo. O retorno da plateia transforma cada apresentação em um momento único para ambos, salienta ele.
Quando questionado sobre a essência de sua arte, Andrély resume: "O que encanta é ver o impossível acontecer ao vivo, como efeitos especiais de um filme, mas diante dos seus olhos. As pessoas sabem que é truque, mas o impossível parece real".
Dicas para os novos ilusionistas
As tecnologias podem representar uma oportunidade para a profissão, nota ele. "A magia vai continuar sendo necessária, especialmente em tempos de tecnologia e inteligência artificial. As pessoas querem ver a experiência ao vivo, sentir o encantamento", aposta. "É uma profissão com futuro, mesmo em um mundo cada vez mais digital. Começar em pequenos eventos e crescer paralelamente aos estudos garante segurança e experiência."
Após mais de três décadas de carreira, Andrély segue inspirado por grandes mestres da ilusão, como Lance Burton e David Copperfield, e deixa a dica para a nova geração de mágicos: "Aprendam os clássicos, desenvolvam seu estilo, assistam shows ao vivo e nunca deixem de estudar. Há espaço e mercado para quem se dedica de verdade".
Andrély sabe o valor de começar desde cedo e garante que assistir apresentações ao vivo faz toda a diferença. "A experiência de ver a mágica acontecer diante dos olhos é totalmente diferente de assistir a vídeos ou na internet. O sentimento é único e o aprendizado é mais profundo."
Em Portugal, Andrély e Flávia Molina transformaram o sonho infantil de um menino do Rio de Janeiro em profissão e paixão, levando a magia para plateias pela Europa e provando que o impossível pode, sim, se tornar realidade.