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Educação digital de jovens é desafio de lei que proíbe redes sociais para menores de 15 anos na França

Não basta proibir: é preciso educar os adolescentes para o uso das ferramentas digitais. Nesta semana, a restrição do acesso às redes sociais para menores de 15 anos na França foi aprovada em primeira leitura pela Assembleia Nacional. Mas, mais cedo ou mais tarde, os jovens terão acesso aos dispositivos, salienta a imprensa do país.

31 jan 2026 - 07h55
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As revistas Le Nouvel Obs e Le Point destacam, em suas edições desta semana, que a medida do governo francês é apresentada como resposta a uma "catástrofe sanitária e de segurança", que impacta a educação e a saúde física e mental dos jovens. Em alguns casos mais graves, influenciados pelos algoritmos de recomendação das plataformas e expostos a conteúdos violentos, eles podem ser induzidos ao suicídio.

Há consenso entre muitos especialistas de que as grandes plataformas devem repensar seus algoritmos e que o tempo médio diário de tela — cerca de cinco horas entre jovens de 11 a 24 anos apenas com vídeos — deve ser reduzido.
Há consenso entre muitos especialistas de que as grandes plataformas devem repensar seus algoritmos e que o tempo médio diário de tela — cerca de cinco horas entre jovens de 11 a 24 anos apenas com vídeos — deve ser reduzido.
Foto: AFP - LOIC VENANCE / RFI

A Le Nouvel Obs, que entrevistou diversos especialistas, questiona como seria possível verificar a idade dos usuários, já que, do ponto de vista tecnológico, sempre é possível driblar a regra. Por essa e outras razões, a questão da exposição precoce às redes envolve, além de nova legislação, o comprometimento das escolas e das famílias.

Em 2024, o governo francês criou uma comissão de especialistas para analisar a questão. Na opinião de muitos deles, é impossível opor proibição e educação. O psiquiatra Serge Tisseron, que participou do grupo e é referência no tema na França, costuma dizer que "dar um celular a uma criança de 10 anos" equivale a "abandoná-la na selva".

Entre as recomendações está a criação de uma consulta médica obrigatória durante a gravidez para sensibilizar os futuros pais aos riscos das telas. Outra sugestão foi a implementação de "uma equipe de adultos nas escolas para ajudar as crianças em suas dúvidas digitais".

O grupo também propôs instalar jogos sem telas em espaços públicos - como praças, pontos de ônibus e centros comerciais. No entanto, "de todas as nossas propostas, essas foram as menos adotadas e, ainda hoje, parecem ser as que menos interessam", lamenta o psicólogo Grégoire Borst, especialista em neurociências cognitivas, que também integrou a comissão.

"A política de apoio à parentalidade, infelizmente, é quase inexistente neste país", afirma, lembrando que os pais acabam carregando a maior parte do fardo da educação digital.

Há consenso entre muitos especialistas de que as grandes plataformas devem repensar seus algoritmos e que o tempo médio diário de tela - cerca de cinco horas entre jovens de 11 a 24 anos, apenas com vídeos - deve ser reduzido.

Mas também é inegável, escreve o Le Nouvel Obs, que as redes sociais se tornaram um dos poucos espaços de socialização para adolescentes. "Questionar os efeitos do virtual é ótimo, mas o que dizer dessas gerações que não têm mais como adquirir autonomia?", diz Grégoire Borst.

"Vivemos na ilusão do risco zero. O espaço público está se esvaziando de suas crianças e adolescentes… Isso também é uma catástrofe, e ninguém tem coragem de enfrentar o problema", alerta.

A educação digital na escola também é insuficiente. Embora existam iniciativas pontuais e sem coordenação, os temas são pouco explorados com alunos e pais. "Raramente uma escola explica como está desenvolvendo sua reflexão sobre a relação com as telas, o que alimenta a ansiedade das famílias", observa Marie-Caroline Missir, ex-diretora do Canopé, organismo de formação a distância para professores na França.

"Com a chegada das IAs generativas, as práticas vão ter de mudar. Os riscos de dependência que conhecemos serão multiplicados. Há apenas uma opção: a educação", diz.

Em um texto de análise que acompanha a reportagem, Le Nouvel Obs escreve que, jovens ou adultos, o scrolling preenche um vazio existencial. "Ele preenche o tempo que antes era de divagação ou usado para ler jornal, conversar com alguém ou ouvir música. Ou, simplesmente, nos deixar levar pelo tédio."

Saúde Mental

Le Point também aborda o assunto e foca na saúde mental dos adolescentes. Na reportagem intitulada "Isso deixa a gente louco: quando as redes sociais afetam a saúde mental de nossos adolescentes", a revista cita o relatório da Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Meio Ambiente e do Trabalho).

Após cinco anos analisando mais de mil estudos, a agência identificou uma associação entre uso de redes e transtornos do sono, ansiedade, depressão, distorção da imagem corporal, condutas de risco e cyberbullying.

As meninas são as mais afetadas, e 46% delas consideram que as redes prejudicam sua autoestima. De modo geral, quanto maior a vulnerabilidade, mais adolescentes e jovens tendem a se refugiar nas plataformas: os algoritmos detectam e amplificam essa fragilidade, e os conteúdos intensificam o mal-estar, com o único objetivo de manter o usuário conectado.

A revista ilustra a reportagem com o depoimento do pai de um estudante, Maxime, que relata ter "perdido" o filho aos 14 anos depois de presenteá-lo com um celular. Apesar do controle parental e do limite de horário, o menino se tornou dependente das redes e de outros aplicativos, perdendo aos poucos o interesse por outras atividades.

O pai, desamparado, conta que retirar o telefone do filho provocava nele acessos de raiva - o que ilustra como os pais estão, muitas vezes, solitários na guerra contra as plataformas.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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