Deputados franceses negros da esquerda radical recebem mensagens racistas
Vários deputados negros do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) receberam uma carta anônima de conteúdo racista, que retrata "pessoas negras de maneira desumanizada e primitiva", denunciou a legenda em um comunicado nesta quinta-feira (2).
A carta foi enviada aos parlamentares Nadège Abomangoli, Danièle Obono, Aly Diouara e Carlos Martens Bilongo. O texto menciona, além de seus nomes, os do novo prefeito de Saint-Denis, na região parisiense, Bally Bagayoko, e o do líder do partido, Jean-Luc Mélenchon, e traz a frase "fugitivos do zoológico de Beauval", segundo um comunicado.
A carta ainda traz uma imagem deturpada de uma página da história em quadrinhos Tintin au Congo (Tintin no Congo em tradução livre).
As tirinhas foram publicadas no início dos anos 1930 no jornal belga Le Petit Vingtième, e o álbum foi lançado nos anos 1940. A obra de Hergé, que vendeu cerca de 10 milhões de exemplares no mundo, reproduz estereótipos colonialistas, ilustrando personagens africanos como infantilizados, submissos ou caricaturados fisicamente, e já foi alvo de ações judiciais na Bélgica.
"Um ataque racista desse tipo é absolutamente inaceitável e exige uma condenação unânime de toda a classe política", afirma o LFI, que denuncia um contexto de "campanha racista persistente desde a eleição de Bally Bagayoko à prefeitura de Saint-Denis".
Bally Bagayoko, 52, nascido na região parisiense e filho de malineses, é alvo de uma campanha de ódio propagada pela extrema direita na rede social X, além de comentários polêmicos no canal CNews, denunciados por vários parlamentares e associações antirracistas à Arcom, órgão regulador do audiovisual e do digital.
Em entrevista à agência AFP nesta quarta-feira (1°), Bagayoko denunciou "uma sociedade cada vez mais racista" e pediu o fechamento do canal CNews. Diante de um "racismo que está mais afirmado e praticamente sem freios", o prefeito da segunda maior cidade da Île-de-France (região metropolitana de Paris) considera que "a Arcom deve ser muito mais severa" em relação e que a Justiça deve ser "muito mais firme". Ele registrou queixa, convocou uma grande "mobilização cidadã" contra o racismo e a discriminação para sábado (4), na esplanada da prefeitura de Saint-Denis, ao norte da capital.
'Clichês colonialistas'
"Os clichês coloniais difundidos por alguns meios de comunicação e responsáveis políticos, que replicam de forma complacente as informações falsas divulgadas pela extrema direita, contribuem diretamente para o clima de ódio e para o assédio do qual nossos eleitos são vítimas", afirma a LFI, que denuncia a "omissão do governo".
🔴📄 Les député·es de La France insoumise expriment leur profonde indignation et condamnent avec la plus grande fermeté les injures racistes visant leurs collègues Nadège Abomangoli, Danièle Obono, Aly Diouara et Carlos Martens Bilongo.
➡️ Rendez-vous le 4 avril 2026, devant la… pic.twitter.com/6IymwN9MVI
— La France Insoumise à l'Assemblée nationale (@FiAssemblee) April 2, 2026
Para o partido de esquerda radical, essas mensagens não são "atos isolados", mas "fazem parte de um conjunto de agressões (simbólicas e físicas) e discriminações das quais pessoas negras e racializadas são vítimas diariamente - algo que o governo se recusa a reconhecer e combater".
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou na terça-feira, na Assembleia Nacional, que o governo "estuda" a possibilidade de abrir "processos criminais" contra os autores dos comentários polêmicos na CNews dirigidos a Bagayoko, classificando-os de "ignóbeis" e "absolutamente inaceitáveis".
Com agências