Psiquiatria europeia reconhece benefícios da 'terapia psicodélica' com cogumelos alucinógenos
A psilocibina, composto ativo dos cogumelos alucinógenos, começa a ganhar espaço na psiquiatria tradicional em diversas partes da Europa — com a Suíça já tratando pacientes e a República Tcheca abrindo terapias sob supervisão rigorosa. A França, porém, segue cautelosa, restringindo o uso a ensaios clínicos enquanto médicos aguardam provas mais robustas de sua eficácia.
Aurore Lartigue, da RFI
Quando Marie Mallevialle chegou ao Hospital Universitário de Genebra, em 2023, temia estar "perdendo a sanidade". Dois anos antes, a franco-suíça havia perdido o filho para um tumor cerebral. "Eu dormia talvez uma hora por noite. Tinha dissociação, muitos flashbacks e revivia constantemente os acontecimentos", contou.
Os médicos diagnosticaram transtorno de estresse pós-traumático. A terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR) ajudou a trabalhar as memórias traumáticas, mas, apesar da medicação, a insônia persistia e a tristeza continuava esmagadora.
"Eu estava presa ao passado", disse Mallevialle.
Ao pesquisar sobre sua condição, ela se deparou com a psicoterapia assistida por psicodélicos, na qual pacientes recebem substâncias como LSD ou psilocibina sob estrita supervisão médica — tratamentos em que a Suíça é frequentemente citada como pioneira.
"Antidepressivos, LSD e psilocibina nasceram todos na Suíça. E, ao contrário do que muita gente pensa, a pesquisa nunca realmente parou", afirmou Daniele Zullino, chefe do departamento de medicina das adições e do programa de psicoterapia assistida por psicodélicos do Hospital Universitário de Genebra.
Há cerca de uma década, pacientes cuidadosamente selecionados vêm sendo tratados com essas substâncias em ambientes altamente controlados.
Uso em expansão pelo mundo
Em outras partes da Europa, o cenário também começa a mudar. Desde janeiro, a República Tcheca se tornou o primeiro país da União Europeia a autorizar o uso da psilocibina em psicoterapia supervisionada.
A decisão é resultado de anos de trabalho de instituições como o Instituto Nacional de Saúde Mental tcheco, em um país que foi pioneiro na pesquisa com psicodélicos nas décadas de 1950 e 1960, antes de a proibição internacional interromper esse campo nos anos 1970.
Assim como na Suíça, o uso recreativo continua ilegal e a psilocibina segue classificada como entorpecente. Os tratamentos são rigidamente regulamentados.
Na Austrália, psiquiatras autorizados podem prescrever psilocibina para depressão resistente ao tratamento desde julho de 2023. No Canadá, o acesso existe de forma excepcional, sob condições estritas.
No estado norte-americano do Oregon, serviços supervisionados com psilocibina estão disponíveis para adultos desde 2023, fora do sistema médico tradicional. Na Nova Zelândia, a autoridade reguladora de medicamentos deu sinal verde altamente restrito em junho de 2025 para que psiquiatras autorizados prescrevam psilocibina para depressão resistente.
No Hospital Universitário de Genebra, cerca de 600 pacientes já passaram por psicoterapia assistida por psicodélicos, e a demanda segue elevada.
"Chegamos a ter até 800 pessoas na lista de espera", disse Zullino. Cada caso precisa de aprovação do Escritório Federal de Saúde Pública da Suíça. "Eles exigem acompanhamento psicoterapêutico antes e depois."
Protocolo de tratamento
Após um ano e meio na lista de espera, Mallevialle recebeu autorização em abril de 2025 e acaba de concluir seu tratamento. "Não é milagroso. É preciso muito trabalho terapêutico antes, mas é bastante promissor", afirmou. O protocolo padrão prevê três sessões, espaçadas por três meses, mas Mallevialle fez quatro.
No dia da sessão, os pacientes chegam cedo pela manhã. O ambiente é adaptado "para suavizar a sensação hospitalar", contou ela. Um psiquiatra e um enfermeiro avaliam o estado mental do paciente e confirmam o consentimento.
A psilocibina — 25 miligramas, dose habitual — é administrada em cápsula. O paciente se deita, usando máscara para os olhos e fones de ouvido.
A música é um elemento central da terapia. "Alguns escolhem Bach, outros AC/DC", disse Zullino.
A sessão dura de seis a oito horas. "A molécula leva cerca de 30 minutos para começar a agir, e então você inicia a sua jornada", explicou Mallevialle. "Você é acompanhado o dia inteiro, mas quem faz o trabalho é você".
"Não é uma festa"
Descrever o que acontece depois é difícil, segundo Mallevialle. "É como uma série de curtas-metragens. Há música, cores, símbolos, conceitos. Você passa de um filme sobre a infância para outro sobre a doença, depois maternidade, morte. Você recebe mensagens, informações", relatou.
Ela descreveu momentos de êxtase e outros profundamente difíceis. "Eu estava em um ringue de boxe lutando contra a injustiça, a doença", disse. No dia seguinte a cada sessão, uma consulta de psicoterapia ajuda a colocar a experiência em palavras, com outro acompanhamento um mês depois.
O relato dela ecoa o de outros pacientes. Bernard, que pediu para não ter o sobrenome divulgado, faz terapia assistida por psicodélicos em um consultório privado na Suíça para tratar transtornos de ansiedade. Em seu segundo ano de tratamento, participa de quatro ou cinco sessões por ano.
"Antidepressivos são… uma muleta para atravessar períodos difíceis, mas são como um curativo. Você não trata a ferida", disse. "Com a psilocibina, você volta e limpa a ferida profundamente."
As sessões acontecem em uma casa no campo, em pequenos grupos. Bernard enfatizou que a experiência não tem nada a ver com o uso recreativo de drogas. "Não é uma festa. Pode ser assustador, até aterrador, mas para mim vale a pena", afirmou.
A cautela francesa
Por muito tempo associadas à contracultura e aos chamados "bad trips", os cogumelos alucinógenos ficaram excluídos da pesquisa médica durante décadas. Nos últimos 15 anos, o interesse científico voltou, com estudos explorando seu potencial no tratamento da depressão, da dependência química, da ansiedade e do transtorno de estresse pós-traumático.
Na França, a psilocibina permanece restrita a ensaios clínicos. Em Paris, a psiquiatra Lucie Berkovitch participa de um estudo internacional sobre depressão resistente ao tratamento no Hospital Sainte-Anne. "Existe uma diferença profunda de mentalidade entre a França e a Suíça", disse.
"Na Suíça, eles não esperaram uma autorização completa para tratar casos individuais. Na França, aguardamos a confirmação dos resultados antes de integrar os psicodélicos ao cuidado de rotina." Um dos atrativos da psilocibina, segundo ela, é a rapidez e a durabilidade de seus efeitos. "É um cronograma incomum na psiquiatria", afirmou, em um campo no qual antidepressivos podem levar semanas para fazer efeito.
Ela explicou que a psilocibina atua em um receptor de serotonina conhecido como 5-HT2A. "A substância se liga a esse receptor e o ativa de forma muito intensa, o que desencadeia a experiência psicodélica", disse.
Além da experiência em si, a psilocibina também parece ter efeitos mais duradouros sobre a conectividade cerebral e a neuroplasticidade, que ficam alteradas na depressão e no estresse crônico.
"A psilocibina parece restaurar, ao menos em parte, essas conexões perdidas", afirmou. "O cérebro se torna mais flexível, mais receptivo à mudança."
Resultados duradouros contra a depressão
Estudos publicados nos Estados Unidos em 2025 relataram resultados expressivos. Um deles envolveu veteranos militares com depressão resistente ao tratamento que receberam uma dose de psilocibina. Metade dos 10 voluntários estava em remissão seis meses depois.
Embora esse percentual tenha caído para 30% um ano após o tratamento, os resultados foram considerados encorajadores.
Outro estudo acompanhou 18 pacientes com depressão grave que receberam duas doses de psilocibina como parte da terapia. Cinco anos depois, 67% estavam em remissão.
Dependência a drogas e fim de vida
Além da depressão, a dependência química é uma das áreas mais estudadas. Um estudo publicado na revista Addiction e conduzido no Hospital de Nîmes envolveu pacientes com transtorno por uso de álcool e sintomas depressivos. Após 12 semanas, as taxas de abstinência foram mais altas no grupo que recebeu uma dose elevada de psilocibina, de 25 miligramas, do que no grupo que recebeu uma dose muito baixa: 55% contra 11%.
O estudo envolveu 30 pacientes, mas os resultados reforçam os achados de uma pesquisa maior realizada nos Estados Unidos.
Os cuidados de fim de vida são outra área em debate. Nos Hospitais Públicos de Paris, o médico Benjamin Wyplosz quer lançar um ensaio sobre o uso da psilocibina para aliviar o sofrimento psicológico de pacientes em fase terminal, mas enfrenta forte resistência.
O sofrimento vivido por pessoas diante de uma doença incurável não é depressão no sentido psiquiátrico clássico, mas uma forma de desmoralização reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças e pouco tratada pelos medicamentos existentes. "E isso responde mal a antidepressivos ou ansiolíticos", afirmou. A ação rápida da psilocibina é, portanto, crucial quando "o tempo é limitado", disse Wyplosz. Especialistas, no entanto, pedem cautela.
"Uma substância que altera de forma tão intensa a percepção de si mesmo e do mundo por várias horas naturalmente preocupa", explicou Berkovitch, do Hospital Sainte-Anne. "Mas não deveríamos perder oportunidades de cuidado por causa de clichês."
Zullino também defende humildade diante de resultados por vezes impressionantes. "Para a depressão, vemos milagres, é preciso dizer", afirmou. Mas os desfechos variam. "Um terço fica realmente bem após dois meses. Um terço melhora. Um terço poderia estar melhor."
Ainda é cedo para saber se os efeitos do tratamento serão duradouros, mas Marie consegue medir o caminho percorrido nos últimos meses. Ela dorme melhor, não toma mais nenhum medicamento psiquiátrico, recuperou peso e voltou a fazer planos. "Acho que isso vai ter mudado a minha vida e a minha maneira de estar no mundo."