'ICE em Milão? Não, obrigada': italianos protestam contra agentes dos EUA nos Jogos de Inverno
Com o lema "Agentes do ICE em Milão? Não, obrigada", a manifestação deste sábado (31) contará com a participação de políticos de centro-esquerda, sindicatos e movimentos civis. O governo italiano afirma que a atuação dos policiais americanos será restrita à área de inteligência, sem presença deles nas ruas.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
O protesto foi organizado por políticos de centro-esquerda, com apoio de centrais sindicais e outras organizações civis, entre elas a Associação Nacional dos Partigianos Italianos (Anpi), entidade histórica da resistência contra o fascismo. Os organizadores pedem que os participantes levem apitos — o mesmo instrumento que vem sendo usado por cidadãos americanos nos atos contra a presença do ICE na cidade de Minneapolis.
"Uma grande mobilização democrática e pacífica [ocorrerá] para dizer que não queremos as patrulhas do ICE na nossa cidade, para dizer que queremos as Olimpíadas dos direitos humanos e para dizer que estamos do lado de quem luta pelos direitos humanos, de Minneapolis ao resto do mundo", afirmou o secretário metropolitano do Partido Democrático, Alessandro Capelli, um dos organizadores do protesto.
Na última terça-feira (27), os Estados Unidos confirmaram a presença de agentes da divisão investigativa do ICE, anunciando que eles estarão na Itália para auxiliar na segurança da delegação americana e na mitigação de riscos provenientes de organizações criminosas transnacionais. A atuação do órgão, responsável pelo controle de fronteiras nos Estados Unidos e pela deportação de imigrantes em situação irregular, é um dos temas de maior controvérsia no momento, após a morte de dois cidadãos em operações recentes na cidade de Minneapolis.
Partidos italianos de centro-esquerda defendem que os agentes americanos não devem atuar no país. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, classificou o ICE como uma "milícia que mata" e afirmou que seus integrantes não são bem-vindos na cidade. Houve ainda um protesto no Conselho Regional da Lombardia, no norte, onde políticos progressistas exibiram cartazes com a frase "Fora ICE".
Embora as críticas venham majoritariamente da esquerda italiana, alguns representantes de centro-direita também se manifestaram contra a vinda dos agentes americanos. "Cada delegação estrangeira decide de forma autônoma a quais forças confiar a escolta de seus representantes, mas, neste momento, a presença de agentes do ICE na Itália seria inoportuna", escreveu nas redes sociais o líder do partido Noi Moderati, Maurizio Lupi.
Governo italiano tenta evitar crise diplomática
O governo da primeira-ministra Giorgia Meloni vem tratando o tema com cautela, em uma tentativa de evitar uma crise diplomática com os Estados Unidos. Considerada a principal aliada de Donald Trump entre os países da União Europeia, a premiê não se pronunciou diretamente sobre o caso. Já seus ministros têm buscado minimizar a relevância o assunto, afirmando que a segurança durante os Jogos Olímpicos será responsabilidade exclusiva das forças de ordem italianas.
O ministro do Interior, Matteo Piantedosi, publicou uma nota informando que analistas do ICE atuarão apenas em escritórios diplomáticos, como o consulado americano em Milão, e não nas ruas. "Os investigadores do Homeland Security Investigations não serão representados por pessoal operacional, como os envolvidos no controle migratório em território dos Estados Unidos, mas por profissionais exclusivamente especializados em investigações", diz o texto. Piantedosi fará uma declaração formal no Parlamento italiano sobre o assunto na próxima quarta-feira (4).
Na quinta-feira (29), o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou que apenas três agentes do ICE irão à Itália e que a função será colaborar com a polícia italiana, fornecendo eventuais informações. "Não há motivo para alarmismo. Quando há eventos desse porte, é natural que os países enviem suas próprias forças para colaborar na segurança. Eles não sairão pelas ruas em trajes de combate. Três funcionários que vão ao consulado não me parece um perigo para a democracia ou para a segurança dos cidadãos italianos", afirmou Tajani.
O embaixador dos Estados Unidos na Itália, Tilman Fertitta, também ressaltou, em nota, que a atuação do ICE será estritamente de assessoramento, com fornecimento de inteligência voltada principalmente ao combate a crimes cibernéticos e a ameaças à segurança nacional.
Deputados europeus pedem que UE impeça entrada do ICE no continente
Os líderes do grupo "A Esquerda", no Parlamento Europeu, enviaram uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e à chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, pedindo que os membros do ICE sejam impedidos de entrar em território europeu.
"Diante das informações de que agentes do ICE serão encarregados de fornecer segurança durante os Jogos Olímpicos de Inverno na Itália, ainda neste mês de fevereiro, o aumento da violência e da repressão associadas ao ICE terão impacto direto sobre os cidadãos europeus. A União Europeia deve tomar medidas para impedir a entrada dessas forças em seu território", afirma o documento.
Outro grupo que se manifestou foi o "Renovar a Europa", que classificou a presença do ICE de inaceitável. "Na Europa, não queremos pessoas que ignoram os direitos humanos e evitam o controle democrático", diz uma publicação do grupo nas redes sociais.
Até o momento, a Comissão Europeia não se pronunciou oficialmente sobre o assunto.