Bancos franceses voltam a ser acusados por ONGs de financiar o desmatamento na Amazônia
Quatro bancos franceses estão sendo novamente acusados por duas associações de proteção ambiental de financiar o desmatamento na Amazônia. Os alvos são os grupos BNP Paribas, BPCE, Crédit Agricole e Société Générale, por empréstimos às empresas Bunge e Cargill, gigantes americanas do agronegócio acusadas de comprar produtos de agricultores que desmataram no Brasil.
As acusações foram divulgadas nesta quinta-feira (20) pelas ONGs Reclaim Finance e Canopée, que atuam no monitoramento e análise das atividades de atores financeiros relacionadas aos impactos no meio ambiente.
Para realizar o estudo, as ONGs compararam a localização de áreas desmatadas na Amazônia, mapeadas pela rede brasileira MapBiomas, que monitora o uso da terra por satélite, com a localização dos armazéns da Bunge e da Cargill, registrada pelos cadastros de imóveis no Brasil.
As ONGs observaram que, em 273 ocasiões, esses silos estavam localizados a menos de 50 km de fazendas estabelecidas em terras desmatadas, sugerindo que as duas empresas obtêm seus suprimentos dessas áreas.
O levantamento da Reclaim Finance destaca ainda que, entre janeiro de 2024 e agosto de 2025, o BNP Paribas, o Crédit Agricole e o Grupo BPCE estiveram envolvidos conjuntamente em três transações (empréstimos ou títulos) com a Bunge, totalizando US$ 4,3 bilhões.
Outra análise das ONGs aponta que o BNP Paribas também emprestou US$ 1,5 bilhão à Cargill em outubro de 2024, e o Société Générale participou de um empréstimo de US$ 3,2 bilhões à Bunge em março de 2024.
No ano passado, Bunge e Cargill tiveram uma receita combinada de US$ 200 bilhões, segundo as associações.
Compromissos de "desmatamento zero"
O BNP Paribas informou à AFP que seus clientes deverão ter implementado a meta de "desmatamento zero" até o final de 2025. "A conformidade dos clientes com essa política será avaliada (...) ao longo de 2026", informou o banco.
Já o Société Générale declarou que sua política de combate ao desflorestamento "inclui critérios específicos de exclusão para clientes que operam em cadeias de valor da soja na América do Sul".
O Crédit Agricole também indicou que assumiu compromissos de "desmatamento zero" e está monitorando sua implementação junto aos clientes.
O grupo BPCE criticou fortemente o trabalho das duas ONGs, condenando "números não verificáveis, sem metodologia explícita" ou "evidências comprovadas", e acrescentou que "publicará sua abordagem em relação ao desmatamento até o final de 2025".
Acusações repetidas
Esta não é a primeira vez que instituições financeiras francesas são acusadas de financiar o desmatamento no Brasil. Em 2022, os mesmos bancos apareceram em um relatório sobre o assunto feito em conjunto entre duas plataformas de mídia e três ONGs.
Já em 2023 o BNP Paribas voltou a ser alvo de outra queixa de mesma natureza feita pela ONG brasileira Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pela Notre Affaire à tous. O cenário contrasta com mecanismos e leis de proteção ambiental em vigor nos dois países atualmente.
Vigente desde 2017, a lei francesa sobre o dever de vigilância, por exemplo, obriga multinacionais com sede no país a buscar "medidas de monitoramento razoáveis para identificar os riscos e prevenir violações graves dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, à saúde e à segurança das pessoas, bem como ao meio ambiente, resultantes das atividades da empresa e das empresas que ela controla", seja no território francês ou no exterior.
Além disso, no Brasil, uma moratória assinada em 2006 entre empresas do setor proíbe a venda de soja cultivada em terras desmatadas na Amazônia após 2008. O objetivo é proteger a floresta, que desempenha um papel fundamental no combate às mudanças climáticas por meio da absorção de carbono. Este, inclusive, é um dos principais temas da COP30 em Belém, Brasil, que termina nesta sexta-feira (21).
(Com AFP)