Ataques russos deixam centenas de milhares de ucranianos sem luz antes de retomada de negociações
Ataques russos noturnos à infraestrutura energética ucraniana durante a última noite deixaram centenas de milhares de consumidores sem luz em cinco regiões, sobretudo Dnipropetrovsk e Kharkiv, anunciaram neste domingo (8) as autoridades e a empresa de energia ucraniana. Os bombardeios ocorrem a poucos dias de uma possível retomada das negociações entre Ucrânia e Rússia, em Abu Dhabi.
A Rússia intensificou os bombardeios contra a infraestrutura energética da Ucrânia, deixando quase um milhão de pessoas sem luz e aquecimento às vésperas do inverno. O presidente Volodymyr Zelensky vê a ofensiva como pressão de Moscou antes da retomada das negociações mediadas pelos EUA em Abu Dhabi. O encontro busca saídas para o conflito, enquanto Kiev e líderes europeus exigem participação ativa nas decisões, temendo que Washington imponha um acordo desfavorável que atenda aos interesses russos.
A Ucrânia se prepara para enfrentar mais um inverno em meio à guerra, enquanto a Rússia intensifica seus bombardeios aéreos diários, lançando drones e mísseis contra a rede elétrica ucraniana. Na região de Dnipropetrovsk, no centro-leste do país (no centro), "mais de 600 mil habitantes ficaram sem luz", informou a operadora ucraniana DTEK no Telegram, após "ataques noturnos que danificaram importantes instalações energéticas".
Os esforços para restabelecer o fornecimento de energia foram "complicados pelos ataques repetidos", acrescentou a empresa.
Em outro ataque, um drone russo atingiu "uma instalação crítica" na região de Kharkiv, no nordeste, anunciou o prefeito da cidade de Zlatopil, Mykola Baksheyev, nas redes sociais.
"Cerca de 250 mil consumidores na região de Kharkiv ficaram sem energia", declarou ele. Os reparos estão em andamento.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ressaltou que os ataques noturnos provocaram "extensos cortes de energia em todo o país". "Somente na região de Zhytomyr, 140 edifícios residenciais estão sem aquecimento após um ataque russo", relatou ele nas redes sociais, quando as temperaturas na Ucrânia já se aproximam de 0 °C.
Ataque em Komyshuvakha
Zelensky informou que a Rússia lançou um drone contra Komyshuvakha, um vilarejo na região de Zaporizíjia onde Moscou havia atingido um centro de distribuição de ajuda humanitária, em um dos ataques mais letais da guerra.
O número de mortos subiu para 55, informou Zelensky no domingo. "Os russos atacaram justamente quando as operações de resgate de emergência já duram sete dias. Infelizmente, é possível que ainda haja pessoas sob os escombros", afirmou o presidente.
Zelensky acrescentou que as operações russas são uma forma de "pressão" de Moscou antes da retomada das negociações trilaterais, prevista para a próxima semana.
Conversas previstas em Abu Dhabi
A volta do diálogo está prevista para ocorrer nos dias 10 e 11 de novembro em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, sob mediação dos Estados Unidos.
A França e outros países europeus estarão "representados" nas conversas, indicou o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, neste domingo.
"Ainda não posso dizer quem representará a França na ocasião, mas o país estará presente", acrescentou o chanceler, em entrevista à RTL/Public Sénat.
"Houve discussões que ocorreram, por vezes, sem a presença dos europeus, e outras com a participação deles. Desta vez, eles participarão", completou.
Europa reivindica participação nas decisões
As declarações surgem depois que, nesta semana, a chefe do governo italiano, Giorgia Meloni, criticou a abordagem "desordenada" dos países europeus nas negociações sobre a Ucrânia, cobrando que a União Europeia esclareça quem fala em seu nome.
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, enfatizou na sexta-feira que a Europa deve participar de qualquer solução para o conflito. Paris vem promovendo, no contexto das grandes crises internacionais, a atuação do grupo E3 (França, Alemanha e Reino Unido), em conjunto com a chefe da diplomacia europeia.
"Nas últimas semanas, os europeus fizeram ouvir a sua voz, deixando claro aos mediadores americanos que nenhuma discussão sobre o futuro deste continente pode ignorar as nossas expectativas e exigências", afirmou Jean-Noël Barrot.
Temor de um acordo sem Kiev e os europeus
As negociações em Abu Dhabi visam esboçar uma saída para o conflito, mais de quatro anos após a invasão russa da Ucrânia. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu um futuro acordo "muito grande" com a Rússia sobre a Ucrânia, acrescentando que ele "poderia abranger toda a Europa".
Na sexta-feira, contudo, os europeus e Kiev alertaram contra qualquer proposta de uma "arquitetura de segurança" que pudesse ser articulada à revelia deles). A Ucrânia e diversos países europeus temem que Washington tente pressionar por um acordo que atenda, em grande medida, às reivindicações russas.
Jared Kushner, enviado de Trump e seu genro, indicou na quinta-feira que os Estados Unidos "consultariam estreitamente nossos parceiros europeus" à margem das negociações em Abu Dhabi e que, "se forem feitos progressos, o objetivo será avançar para um formato multilateral mais amplo, com a participação direta deles".
Com AFP
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