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Estados Unidos

Genealogia de Obama e Michelle mostra diferenças dos EUA

24 jan 2009 - 13h49
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Jodi Kantor


A velha avó do presidente veio do Quênia, trazendo como presente um mata-moscas feito de rabo de vaca. Primos vieram da cidade da Carolina do Sul onde o tataravô da nova primeira dama nasceu ainda como escravo, enquanto o rabino que faz parte da família chegou vindo da sinagoga onde estava celebrando o dia de Martin Luther King. Os irmãos e irmãs do presidente e da primeira dama também estavam presentes, claro: a meia-irmã de Barack Obama, filha de um indonésio, acompanhada por seu marido, um descendente de chineses que nasceu no Canadá; e o irmão de Michelle Obama, um negro que se casou com uma branca.

Michelle Obama (dir.) é vista no colo de seus pais, Fraser Robinson III e Marian, e seu irmão, Craig
Michelle Obama (dir.) é vista no colo de seus pais, Fraser Robinson III e Marian, e seu irmão, Craig
Foto: The New York Times

Quando o presidente Barack Obama tomou posse, em 20 de janeiro, ele estava cercado por familiares de uma diversidade que poderia chocar passadas gerações de norte-americanos, e essa imagem da nova primeira família parece ter estabelecido um paradigma diferente para os futuros ocupantes da Casa Branca. Reunidos para o passo final da família em sua jornada da África e da escravidão para a Casa Branca, ela mesma construída por escravos, os integrantes do grupo pareciam ter saído diretamente das páginas do livro de memórias de Obama ¿mas não como os excêntricos parentes de um jovem que não sabia bem como se encaixar no mundo, e sim como personificação da promessa de mudança que levou o novo presidente ao poder.

Por bem mais de dois séculos, os Estados Unidos foram muito mais diversificados que as famílias de seus governantes. Agora, a família Obama inverteu esse quadro, com um elenco multicolorido que pouco se parece com seus predecessores, quase todos brancos e quase todos protestantes. A família que gerou Obama e sua mulher Michelle é negra, branca e asiática, cristã, muçulmana e judia. Seus integrantes falam inglês, indonésio, cantonês, alemão, hebraico, idiomas africanos como o swahili, o luo e o igbo, e até mesmo algumas frases em gullah, o dialeto dos escravos da Carolina do Sul. Poucos deles são ricos, e alguns - como Sarah Obama, a avó postiça queniana que apenas recentemente passou a contar com eletricidade em seu barraco de teto metálico, - são bastante pobres.

"Nossa família pode ser novidade na Casa Branca, mas não creio que seja novidade no país", disse Maya Soetoro, a meia-irmã do presidente, em entrevista. "Não creio que a Casa Branca tenha sempre refletido fielmente as texturas e os sabores da nação". Ainda que o mundo esteja saudando a posse do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a história dele é uma narrativa mais complexa que envolve imigração, mobilidade social e o fim da segregação em uma das últimas instituições divididas dos Estados Unidos: a família. É uma história de determinação pessoal, repleta de recusas de seguir os caminhos ditados pela História, pela religião ou pelos parentescos.

Obama sucedeu ao segundo presidente Bush, que, como filho de um presidente, tomou as rédeas do poder com muita confiança. Excetuada uma educação de primeira qualidade, o novo presidente chegou à política sem qualquer das vantagens de seu predecessor: sem sobrenome famoso, sem fortuna familiar para financiar incursões iniciais na política e, na verdade, sem uma figura paterna muito presente. Por isso, Obama construiu sua carreira política do zero, com livros de sucesso e candidaturas que inicialmente eram vistas como incapazes de vitória, e isso deixa seus parentes atônitos por se verem na posição que agora ocupam. "Termos um presidente negro é espantoso¿, diz Craig Robinson, irmão de Michelle Obama. "E além disso ele é meu parente? Aliás, meu cunhado? É completamente assustador. Mal consigo pensar a respeito".

Ainda que Obama seja filho de um pai queniano negro, ele tem algumas raízes mais convencionalmente presidenciais pelo lado de sua mãe branca: antepassados abolicionistas que, de acordo com as lendas familiares, foram expulsos do Missouri, um Estado escravocrata; moradores do meio-oeste que enfrentaram a recessão dos anos 30; e até mesmo alguns ancestrais distantes que combateram na guerra de independência dos Estados Unidos. Mas muito menos é conhecido sobre as raízes da primeira dama - e nem ela mesma sabe muito a respeito. Criada no South Side de Chicago, "o folclore familiar era de que éramos parentes de tal e qual figura, e que o pai ou mãe dessa ou daquela pessoa havia sido escravo", diz Robinson.

Com base em dados antigos de recenseamento, no histórico familiar e em entrevistas, fica claro que Michelle Obama de fato descende de escravos e de participantes da Grande Migração, o movimento que levou uma massa de negros norte-americanos a se transferirem do sul para o norte do país na primeira metade do século 20, em busca de oportunidades econômicas. A família dela encontrou essas oportunidades, mas não sem que antes tivesse de enfrentar grandes adversidades e decepções.

Há apenas cinco gerações, o tataravô da primeira dama, Jim Robinson, nasceu escravo na Friendfield Plantation, em Georgetown, Carolina do Sul, onde ele quase certamente trabalhou drenando pântanos, colhendo arroz, e foi sepultado em cova anônima quando morreu. Na sua infância, Michelle Obama costumava visitar seus parentes em Georgetown, mas foi só durante a campanha que ela descobriu que seus ancestrais haviam sido escravos na mesma cidade em que costumava brincar com seus primos. Os empregos que os parentes dela conseguiam no começo do século XX - empregada doméstico, separador de carvão, costureira - sugerem uma fuga à agricultura como meeiros, um sistema que aprisionou muitos antigos escravos e seus filhos na penúria por muitas gerações.

Ainda assim, os avanços da família não se realizaram sem revezes. Jim Robinson nasceu escravo, mas seu filho Fraser se tornou mascate em Georgetown. O filho deste, também chamado Fraser, se mudou para Chicago em busca de uma vida melhor. Mas não conseguiu encontrar emprego e deixou sua mulher e filhos por 14 anos, de acordo com Nomenee Robinson, um desses filhos. Como resultado, o pai de Michelle Obama teve de viver com ajuda do Estado quando menino e começou a trabalhar em um caminhão de leite aos 11 anos de idade.

Depois de servir o exército na Segunda Guerra Mundial e por fim garantir um emprego duradouro no correio, Fraser Robinson voltou à sua família. Tinha tanto medo de dívidas que não permitiu que seu filho, o terceiro Fraser Robinson, pai de Michelle, fizesse um empréstimo para pagar pela faculdade. Por isso, o rapaz deixou os estudos depois de apenas um ano e começou a trabalhar para a prefeitura, um emprego que manteve pelo resto da vida e com o qual ajudou a pagar pelos estudos de seus quatro irmãos mais novos e depois de seus dois filhos, Michelle e Craig, que estudaram na Universidade de Princeton.

Apesar das grandes diferenças entre as histórias dos Robinson e dos Obama, há alguns traços comuns entre as famílias. O apreço pela educação é um deles. O pai de Obama foi pastor de cabras na juventude, e depois conquistou uma bolsa de estudos para um colégio na capital do Quênia. Quando Obama vivia na Indonésia, ainda menino, a mãe o acordava às quatro da manhã para suas aulas de inglês. Em Chicago, a mãe de Michelle levava livros de matemática e leitura escolares para casa, para que seus filhos se adiantassem nos estudos.

Apenas o estudo, a família Robinson ensinou a geração após geração de crianças, permitiria que elas encontrassem o sucesso em uma sociedade racista, dizem diversos parentes da família. As duas famílias também tinham em comum um espírito determinado e aventureiro. A história que se tornou mais conhecida mostra que o lado de Obama é que decidiu ignorar as regras da geografia e as normas étnicas.

Mas a família da primeira dama, supostamente um baluarte de tradicionalismo negro do South Side, inclui muita gente que arriscou a sorte bem longe de casa, literal e figurativamente. Nominee Robinson foi um dos primeiros inscritos no Peace Corps, e serviu na Índia por dois anos; mais tarde, se instalou na Nigéria, onde conheceu sua mulher ¿o casal agora vive em Chicago. Capers Funnye Jr., primo da primeira dama e rabino, foi criado seguindo as doutrinas do cristianismo negro, mas conta que ainda jovem sentiu que o apelo do judaísmo era forte demais para que pudesse resistir.

Em termos de saltos audaciosos entre as culturas, pouca gente excede a Stanley Ann Dunham Soetoro, a mãe de Obama. Quando aluna da Universidade de Honolulu, ela costumava frequentar o East-West Center, um centro de intercâmbio cultural, e foi lá que conheceu seus dois maridos: primeiro Barack Obama pai, estudante de Economia vindo do Quênia, e posteriormente o indonésio Lolo Soetoro.

As comemorações familiares abarcam uma alegre mistura de tradições e histórias. O casamento dos Obama, em 1992, serve como exemplo: havia convidados usando trajes quenianos tradicionais, uma cerimônia negra em que as mãos do noivo e da noiva são amarradas juntas, e uma mistura de blues, jazz e música clássica na recepção (realizada em um centro cultural que, no passado, foi um clube de campo que negava admissão a negros e judeus).

Os eventos da Casa Branca talvez venham a ganhar ar semelhante, de agora em diante. Quatro anos atrás, quando a família chegou a Washington para a posse de Obama no Senado, Konrad Ng, o canadense de ascendência chinesa que é cunhado de Obama, caminhou até a Casa Branca e fotografou sua filha ainda pequena , Suhaila - o nome significa "gentil", em swahili dormindo em seu carrinho de bebê diante dos portões. Poucos dias antes de partir do Havaí para a cerimônia de posse, Ng estava contemplando a foto e tudo que havia mudado desde aquele dia. Depois da cerimônia, ele comentou que "agora, pessoas como eu terão a chance de estar do outro lado das grades".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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