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Estados Unidos

Aventureiro deixa carreira em NY para atravessar EUA a pé

27 mai 2010 - 15h32
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Martha Irvine

Em momentos de incerteza como os atuais, a maioria das pessoas se apega àquilo que nos faz sentir seguros. Aqueles de nós que conseguiram manter seus empregos agradecem. Abraçamos nossos filhos com mais carinho. E aguardamos - e torcemos - por tempos melhores.

O aventureiro Matt Green cruza rodovia nas proximidades de Darien, no Estado de Wisconsin
O aventureiro Matt Green cruza rodovia nas proximidades de Darien, no Estado de Wisconsin
Foto: AP

Por isso, quando surge alguém como Matt Green, tendemos a contemplá-lo com certo espanto. Quem é esse jovem barbado e de aparência fatigada que percorre quilômetro após quilômetro de estradas rurais, empurrando um carrinho? E por que ele abandonaria uma carreira sólida como engenheiro civil - projetista de estradas, ironicamente - a fim de atravessar a pé os Estados Unidos?

"Boa pergunta", ele reconhece, quando as pessoas a que encontra a fazem - o que acontece com frequência.

Ao contrário de outros americanos que atravessaram o país a pé, Green não pretende quebrar qualquer tipo de recorde. E tampouco deseja atrair atenção para qualquer causa específica. Na verdade, não tem quaisquer causas, e carrega apenas uma lista manuscrita de orientação geográfica que compila regularmente com a ajuda do Google Maps, para o caso de seu celular não conseguir conexão nas regiões remotas que ele está percorrendo.

Não, para Green o que importa está no simples ato de caminhar, que o faz feliz, muito mais feliz do que poderia ser no cubículo que ocupava em um escritório em Manhattan, onde costumava sonhar com fazer alguma coisa de épico, como essa viagem.

"Na estrada, cada dia tem um propósito simples", diz. Há a camaradagem com as pessoas que encontra ao longo do caminho. Há a excitação de descobrir o que a estrada reserva depois da próxima curva.

"Tentar levar uma vida segura não é tão seguro assim", ele concluiu. "Se você tenta agir dessa forma, termina por perder muitas das coisas excelentes que a vida tem a oferecer". Para ele, realizar essa jornada é viver a liberdade.

Green, 30 anos, natural da Virgínia, começou sua caminhada no final de março, em Rockaway Beach, um bairro à beira-mar perto do aeroporto Kennedy, em Nova York. O objetivo é chegar a uma outra Rockaway Beach, no Estado do Oregon, percorrendo uma distância superior a 4,8 mil km, rumo ao oeste.

De avião, a viagem demora pouco mais de seis horas, Green calcula que para ele a jornada venha a requerer seis meses. Começou a planejá-la mais de um ano atrás, economizando por meio de uma vida frugal, e projetou um carrinho que permitiria que transportasse sua barraca, seu saco de dormir e o menor volume possível de suprimentos.

Nos dias de folga em seu trabalho, ele se preparava liderando grupos em longas expedições de caminhada pela cidade de Nova York, onde morou por cinco anos. As rotas que escolhia permitiam que os participantes vissem a cidade de maneiras novas. As primeiras caminhadas eram de 10 km ou 12 km, e com o tempo Green passou a aumentar as distâncias percorridas. Os grupos que o acompanhavam não paravam de crescer. Pessoas pediam que planejasse mais caminhadas pelos seus bairros. E o amor dele pela caminhada, e pelas conexões que podem ser realizadas em uma viagem conduzida em ritmo lento, quase meditativo, se aprofundou.

Por isso, quando Green contou aos seus amigos de caminhada que planejava uma viagem através do país, eles estavam entre as poucas pessoas que "achavam que aquela era uma das coisas mais bacanas que já tinham ouvido".

Já outras pessoas, entre as quais os pais dele, não se deixaram convencer. Estavam preocupadas com sua segurança, com a possibilidade de que ele fosse atropelado ou agredido. Também se preocupavam por achar que talvez seu filho mais velho devesse buscar uma vida mais estável.

"Para a minha geração, estabilidade tinha outro significado", diz seu pai, Barry Green, que vive em Ashland, Virgínia, em companhia de Miriam, a mãe de Green.

Na época dele, o mais importante era manter o emprego e se deslocar o mínimo possível.

Não que Barry nunca tenha sentido vontade de viajar, pelo menos por algum tempo. Ele se recorda como, quando jovem, em idade até mais nova que o filho, juntou dinheiro, comprou um carro e realizou suas viagens. A mãe dele costumava esperar ansiosamente por seus telefonemas.

Agora, ele e Miriam se veem esperando a cada noite por um e-mail que chega quando o filho aperta o botão de "estou bem" em um aparelho de emergência que transmite sua localização exata via satélite. Green também leva um spray de pimenta e uma bengala para afastar possíveis ataques de cachorros. Até agora, não precisou recorrer a eles.

O viajante compreende as hesitações de seus pais e faz o que pode para acalmar seus temores, mas sem abandonar a aventura.

Por enquanto, porém, ele está menos preocupado com a estabilidade, ou com se preparar para algum acontecimento distante, como a aposentadoria - especialmente em um momento no qual número tão grande de pessoas estão se vendo forçadas a adiar os planos de aposentadoria, querendo ou não.

"Qual é a vantagem de viver a maior parte de sua vida se preparando para aquela última porção?", ele diz.

E por isso, ele decidiu caminhar - em alguns dias batendo seu recorde pessoal de 43 km diários -, e reabastecer seus estoques de mantimentos - a principal despesa da viagem- quando passa por pequenas cidades no caminho.

No oeste, ele calcula que pode ter de caminhar por até cinco dias, em determinados momentos, sem avistar muitos sinais de civilização. Mas mesmo agora, no centro-oeste, o caminho que está seguindo ocasionalmente o conduz a estradinhas pouco conhecidas, que a maioria das pessoas nem imaginam existir.

Em um trecho isolado de estrada perto de Avalon, Wisconsin, ele encontrou uma grande fazenda de pecuária e laticínios com um lindo jardim, do outro lado da estrada. Uma placa pintada a mão dizia "bem-vindos, visitantes - podem vir ao jardim de Gloria sempre que desejarem".

Ele bateu à porta. A dona da fazenda era Gloria Ransom, 84 anos, e exibiu com alegria ao visitante o jardim que ela mesma plantou e do qual cuida há anos.

"Meus filhos me dizem que não devo conversar com desconhecidos, mas não ligo para isso. Gosto de imaginar que as pessoas são boas", ela disse a Green, enquanto lhe mostrava papoulas vermelhas brilhantes e outras plantas e flores.

"Pelo amor de Deus", acrescentou. "Uma pessoa que deseja visitar o seu jardim certamente não planeja um roubo".

Ela convidou Green a visitar a casa da fazenda e mostrou seus bordados, pinturas e as fotos de seus muitos netos e bisnetos.

Chegou até a encontrar em seus guardados uma velha foto de uma viagem que fez ao oeste com sua família, em 1937; Ransom tinha 11 anos. O meio de transporte escolhido foi um Ford Modelo A, que rebocava um trailer de acampamento - pesado a ponto de requerer que os adultos da família ajudassem o carro empurrando o reboque, nas subidas mais íngremes.

Quer tenha sido por conta dessa viagem quer por outro motivo, Ransom compreendia os atrativos de uma jornada como a que Green decidiu empreender. E, quando ele partiu, parecia genuinamente triste na despedida.

É esse o tipo de conexão que Green vem encontrando repetidamente ao longo da viagem - uma lição a mais, diz o viajante, que se descreve como introvertido, de que vale a pena correr riscos e fazer coisas que não lhe parecem confortáveis.

"As pessoas que conheci e não ficaram com medo ao me ver pareciam todas ser pessoas genuinamente felizes", diz. "Espero que um dia eu possa retribuir a outros as gentilezas que estou recebendo".

Jason Epping, 28 anos, curador assistente de um museu e que fez amizade com Green nas caminhadas que este conduzia por Nova York, diz que a jornada de Green "é claramente um projeto pessoal, mas não creio que seja uma rua de mão única".

Green, diz Epping, "tem a capacidade de se conectar com as pessoas". A cada noite, antes que o sol se ponha, Green emprega essa capacidade, e bate nas portas de casas de fazenda em busca de um local no qual montar sua pequena barraca.

A resposta nem sempre é positiva. Mas a cada noite, sempre surge alguém que se interessa pelo jovem forasteiro e sua jornada; entre eles estão Liz e Ron Struzynski, ela bancária, ele trabalhador rural, que vivem perto da cidade de Milton, Wisconsin.

"Você talvez não tenha assistido a 'Forrest Gump'", diz Struzynski, rindo ao comparar Green ao personagem cinematográfico conhecido por seu apego pelas corridas - uma comparação que muita gente costuma fazer.

Green sorri e concorda, enquanto monta a barraca perto da horta que o casal acabou de plantar.

Os Struzynski permitiram que ele carregasse seu telefone e enchesse suas garrafas de água. Ele tomou um banho em seu celeiro, e foi convidado para jantar.

"Nossa, ele é mais que bem vindo", diz Liz Struzynski. "Fazer o que ele está fazendo requer muita coragem".

Na Virgínia os pais dele contemplam as fotos enviadas regularmente por Green, pelo celular, ao site que ele mantém para atualizar amigos, parentes e conhecidos sobre seu paradeiro.

Green pondera quando pergunto se a viagem vai ajudá-lo a descobrir o que deseja fazer em seguida.

"Não quer ser ambicioso demais quanto ao que a viagem me ajudará a compreender", diz. "Não quero dizer a mim mesmo que, ao final da viagem, saberei o que desejo fazer pelo resto da vida. Mas talvez eu venha a pelo menos fazer uma ideia geral. Minha esperança é essa".

Os pais dele têm a mesma esperança, ainda que também estejam aprendendo a não esperar demais.

"Há momentos em que você simplesmente precisa ter fé em alguém", diz o pai de Green. "Por isso, decidimos ter fé nele".

Fonte: AP AP - The Associated Press. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser copiado, transmitido, reformado o redistribuido.
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