Escalada da repressão no Irã aprofunda crise interna e aumenta a pressão internacional
Milhares de iranianos se reuniram nesta segunda‑feira (12) na Praça Enghelab, no centro de Teerã, em um ato organizado pelo regime para demonstrar apoio à República Islâmica e homenagear integrantes das forças de segurança mortos durante os protestos antigovernamentais. A imprensa francesa destaca que a atual onda de protestos marca um ponto de inflexão para a República Islâmica.
Imagens exibidas pela televisão estatal mostraram manifestantes agitando bandeiras nacionais e participando de orações em memória das vítimas do que o governo classifica como "tumultos".
As mobilizações anti e pró-regime ocorrem em meio à intensificação da repressão aos opositores, que se espalharam pelo país desde o fim de dezembro e já deixaram centenas de mortos, segundo organizações de direitos humanos. No plano diplomático, a crise ganha novos contornos: a União Europeia informou que avalia a imposição de novas sanções contra o Irã, em resposta à violência empregada pelo regime.
Os Estados Unidos também endureceram o tom. No domingo (11), o presidente Donald Trump ameaçou uma intervenção militar caso a repressão continue. Nesta segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que o país está "preparado tanto para a guerra quanto para negociações", sinalizando uma estratégia de dissuasão diante da pressão internacional.
Ponto de inflexão?
Na França, o jornal Les Échos questiona até onde o regime conseguirá resistir à contestação social, quase 47 anos após a Revolução Islâmica de 1979. Os protestos tiveram início em Teerã, em 28 de dezembro, liderados por comerciantes afetados pela alta do custo de vida e pela forte desvalorização da moeda, mas rapidamente se espalharam por todo o país, ampliando seu caráter político.
Em entrevista ao Le Parisien, o historiador Clément Therme, especialista em Irã e professor da Universidade Paul‑Valéry de Montpellier, afirma que a contestação é política desde sua origem. Segundo ele, há dois fatores centrais: o uso massivo dos recursos nacionais para sustentar a ideologia do regime - por meio de investimentos em propaganda, forças de segurança, instituições religiosas e uma política regional dispendiosa, com envolvimento em Gaza e no Líbano - em detrimento das necessidades econômicas da população. Além disso, o isolamento internacional e as sanções impostas ao país aprofundam a crise econômica e alimentam a revolta social.
Le Monde chama atenção para o que descreve como uma "repressão sangrenta e a portas fechadas", agravada pelo bloqueio quase total da internet, que isolou o Irã do resto do mundo. A escalada da violência se intensificou a partir de sexta‑feira (9), quando o líder supremo, Ali Khamenei, deu sinal verde às forças de segurança para endurecer a repressão. No mesmo dia, autoridades e a mídia estatal passaram a rotular os manifestantes como "agentes terroristas" a serviço dos Estados Unidos e de Israel, uma mudança radical em relação ao discurso anterior, que reconhecia uma "insatisfação legítima" ligada à crise econômica. Essa alteração semântica abriu caminho para ações ainda mais violentas.
O Libération, por sua vez, contextualiza os protestos em um país já fragilizado pela chamada "guerra de doze dias" contra Israel, ocorrida em junho, quando os Estados Unidos, em apoio a Tel Aviv, bombardearam instalações nucleares iranianas. Nesse cenário de tensão regional, as ameaças de Donald Trump de "golpear muito forte" o regime iraniano reforçam o clima de instabilidade.