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Entre Moscou e Pyongyang, ponte marca a nova fase da amizade de Rússia e Coreia do Norte

Desde 2023, Coreia do Norte e Rússia estreitaram rapidamente suas relações. Kim Jong-un e Vladimir Putin multiplicaram os encontros, enquanto os contatos entre Moscou e Pyongyang se intensificaram. Um dos símbolos dessa aproximação é a construção de uma ponte rodoviária ligando os dois países, embora a estrutura ainda não tenha entrado em operação.

10 jul 2026 - 13h43
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Nicolas Rocca e Nicolas Feldmann, da RFI

Pont entre la Russie et la Corée du Nord
Pont entre la Russie et la Corée du Nord
Foto: © Satellite image 2026 Vantor / RFI

A primeira visita de Vladimir Putin a Pyongyang em 24 anos culminou na assinatura de um histórico acordo de defesa mútua, em 19 de junho de 2024. O pacto marcou o relançamento da cooperação entre Rússia e Coreia do Norte em um nível inédito desde a era soviética, beneficiando ambos os lados.

Desde então, Kim Jong-un enviou mais de 15 mil soldados norte-coreanos e milhões de projéteis de artilharia para reforçar o equipamento de guerra russo na Ucrânia. Em troca, recebeu um importante apoio econômico, fundamental para uma Coreia do Norte que permanece mais isolada do que nunca desde o fim da pandemia de Covid-19.

Dois anos depois, essa aproximação ganhou uma expressão concreta. Uma ponte rodoviária agora cruza o rio Tumen, que acompanha o estreito corredor de 17 quilômetros que separa os dois países.

Obras ainda não foram concluídas do lado russo

A construção representa uma mudança significativa. "Pela primeira vez, caminhões poderão atravessar a fronteira", explica Martyn Williams, pesquisador do projeto 38 North, do Stimson Center. Até agora, o transporte terrestre entre os dois países dependia exclusivamente de uma ferrovia construída na década de 1950.

"Essa nova ponte é especialmente importante para a Coreia do Norte, porque há poucas alternativas de ligação terrestre. Provavelmente foi por isso que eles concluíram sua parte da obra tão rapidamente", afirma.

Embora a estrutura tenha sido oficialmente inaugurada durante uma cerimônia realizada em 26 de abril, imagens de satélite mostram que ela ainda está longe de estar pronta para operar.

"Do lado russo, ainda restam vários meses de obras até a conclusão. Acredito que a ponte possa entrar em funcionamento no fim do verão ou no início do outono (no Hemisfério Norte)", estima Williams.

Imagens de satélite registradas em 25 de junho e divulgadas pelo 38 North mostram essa diferença no andamento das obras. Enquanto do lado norte-coreano um grande armazém e um posto alfandegário já estão concluídos, a infraestrutura do lado russo, embora seja consideravelmente maior, ainda não está conectada à rede rodoviária e parece longe de estar pronta para receber os cerca de 300 veículos que, segundo especialistas, devem atravessar a ponte diariamente.

"A Rússia investiu US$ 110 milhões em recursos públicos nessa ponte", afirma Anton Sokolin, do site especializado NK News. "E Putin está pessoalmente envolvido no projeto. As empresas de construção contratadas estão ligadas aos setores mais influentes do governo russo. Portanto, a obra será concluída, isso é certo".

Oportunidade única para Pyongyang

O ritmo diferente das obras também reflete a importância distinta do projeto para cada país. Para a Rússia, o comércio com Pyongyang não é uma prioridade, além das remessas de armamentos. Já para a Coreia do Norte, o país mais sancionado do mundo, a dependência econômica da China continua enorme, e a aproximação com Moscou abriu uma oportunidade rara.

Segundo Théo Clément, pesquisador associado da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), a parceria representou uma "excelente oportunidade" para o regime norte-coreano.

Kim Jong-un colocou à disposição da Rússia um estoque praticamente inesgotável de munições, sobretudo projéteis de artilharia compatíveis com os equipamentos utilizados pelas Forças Armadas russas.

A isso se somam os mais de 15 mil soldados enviados para lutar ao lado das tropas de Vladimir Putin. Durante muito tempo negada por ambos os governos, essa participação passou a ser assumida publicamente tanto em Pyongyang quanto em Moscou.

Em maio, pela primeira vez, militares norte-coreanos desfilaram na Praça Vermelha durante as celebrações do Dia da Vitória, que marca a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Segundo Martyn Williams, esse reconhecimento simbólico precisa agora ser acompanhado de compensações concretas.

"Há norte-coreanos morrendo na guerra da Ucrânia. O governo reconhece isso publicamente e já existe até um cemitério em Pyongyang para esses soldados. Mas isso pode se tornar muito impopular entre a população. Mais comércio, produtos de melhor qualidade e uma economia mais próspera podem ajudar Kim Jong-un a reduzir as críticas", afirma.

Mais circulação de mercadorias e pessoas

Como muitos consumidores norte-coreanos criticam a qualidade dos produtos importados da China, a possibilidade de ampliar a oferta de mercadorias russas é vista com interesse. Segundo Anton Sokolin, a nova ponte deverá facilitar tanto o transporte de cargas quanto o deslocamento de pessoas.

"É claro que não se pode descartar o transporte de equipamentos militares, mas a ponte também deve estimular o turismo. Empresas russas demonstraram crescente interesse pelos setores de alimentos, indústria farmacêutica e fornecimento de combustíveis. Além disso, acredito que veremos um aumento expressivo no fluxo de trabalhadores norte-coreanos para a Rússia", diz.

Segundo a ONG Global Rights Compliance, sediada em Haia, cerca de 100 mil norte-coreanos são submetidos a trabalho forçado no exterior, em condições extremamente precárias, para gerar receitas para o regime. Grande parte deles está na Rússia, mas muitos também trabalham na China.

Essa aproximação entre Moscou e Pyongyang é acompanhada com atenção por Pequim, principal parceiro econômico da Coreia do Norte e seu único aliado militar formal.

A nova ponte, batizada de Khasan-Tumangang, referência à cidade russa de Khasan e ao rio Tumen, fica a apenas um quilômetro da fronteira chinesa.

China observa sem perder posição dominante

A nova ligação rodoviária dificilmente ameaça a predominância econômica chinesa sobre a Coreia do Norte. Pequim já dispõe de cinco grandes pontes e diversos outros pontos de passagem para o país vizinho.

Ainda assim, chama a atenção a rapidez com que Pyongyang concluiu a infraestrutura voltada para sua primeira ligação rodoviária com a Rússia, em contraste com a situação na fronteira chinesa, às margens do rio Yalu.

"Há dez anos existe uma ponte completamente pronta, com as instalações alfandegárias chinesas concluídas e prontas para uso. Os norte-coreanos só agora começaram a construir seu lado da alfândega", observa Martyn Williams.

As recentes visitas do chanceler chinês Wang Yi e, principalmente, do presidente Xi Jinping a Pyongyang mostram, contudo, que Pequim pretende fortalecer novamente sua relação com o regime norte-coreano após anos de incertezas, especialmente diante da crescente aproximação entre Rússia e Coreia do Norte.

Outro efeito da construção da ponte preocupa os chineses. Segundo Anton Sokolin, ela dificulta um antigo projeto de Pequim de ampliar seu acesso ao Mar do Japão.

"Hoje, o potencial acesso da China ao Oceano Pacífico pelo rio Tumen está bloqueado por duas pontes com altura insuficiente para a passagem de navios de grande porte. Seria necessária uma ampla modernização da infraestrutura para permitir esse tráfego."

Trata-se de uma ambição histórica da China, cuja concretização dependeria da concordância tanto de Moscou quanto de Pyongyang, algo que, por enquanto, parece distante.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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