Em visita à China, Macron busca reequilibrar comércio com UE e apoio de Xi para pressionar Moscou
O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou nesta quarta-feira (3) a Pequim para uma estadia de quase três dias no país, dois deles em visita de Estado, em um contexto de crescentes disputas comerciais com a segunda maior economia do mundo. Além de tratar da influência chinesa na ofensiva russa na Ucrânia, um dos objetivos de Macron é "atrair mais investimentos chineses na França" em setores que permitam acelerar a transição ecológica, segundo o Palácio do Eliseu.
Nathanaël Vittrant, enviado especial da RFI a Pequim, e agências
"Não podemos ser apenas consumidores de produtos chineses", resumiu a Presidência antes da visita, a quarta do presidente francês à China desde que chegou ao Palácio do Eliseu, em 2017. A França tem um déficit comercial de cerca de € 47 bilhões com Pequim, o dobro do que era há dez anos.
O chefe de Estado francês viaja acompanhado de sua esposa Brigitte, de vários ministros, uma delegação de cerca de 40 dirigentes de empresas e ainda representantes do setor agrícola.
Emmanuel Macron se reunirá com o presidente Xi Jinping para uma série de conversas políticas na quinta-feira (4) em Pequim, antes de uma sequência mais pessoal entre os dois líderes e suas esposas na sexta-feira (5) em Chengdu, na província de Sichuan (sudoeste).
O líder francês espera aproveitar este momento para convencer Xi Jinping da necessidade de reequilibrar as relações comerciais entre a China e a Europa e atrair investimentos chineses para a França.
O Palácio do Eliseu destaca que a França presidirá o G7 no próximo ano — grupo das sete maiores economias avançadas —, enquanto a China comandará a Cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e a Índia a dos Brics. São três plataformas nas quais Paris pretende se apoiar para evitar a "fragmentação da economia mundial" e o fechamento dos mercados, "inclusive o europeu".
Assim como em sua última viagem a Pequim, em abril de 2023, quando pediu ao presidente Xi Jinping para "trazer a Rússia à razão", Macron também vai solicitar o apoio chinês para "influenciar e orientar Moscou o mais rápido possível rumo a um cessar-fogo" na Ucrânia.
Interesses divergentes
As discussões sobre o conflito russo-ucraniano ganham importância num momento em que se intensificam as negociações, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, para buscar uma saída da crise na Ucrânia, enquanto a aliança entre China e Rússia tende a favorecer Pequim. "Precisamos alinhar melhor nossas posições sobre a questão ucraniana e trabalhar juntos por uma paz duradoura e sólida", afirma a nota do Palácio do Eliseu.
As capitais ocidentais acusam a China de oferecer à Rússia um apoio econômico essencial para seu esforço de guerra. Pequim "fornece componentes militares e coopera com a indústria de defesa" russa, declarou, em meados de novembro, o ministro da Defesa da Finlândia, Antti Hakkanen.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou em abril que chineses estavam sendo recrutados pela Rússia para combater na Ucrânia, e que Pequim tinha conhecimento disso. A China deve "abster-se de dar qualquer meio à Rússia para continuar a guerra", insistirá Macron, segundo o Eliseu.
"Contamos com a China, membro permanente como nós do Conselho de Segurança, para pressionar a Rússia, para que a Rússia e Vladimir Putin, em particular, possam finalmente aceitar um cessar-fogo", declarou na segunda-feira Jean-Noël Barrot, chefe da diplomacia francesa.
Um "reequilíbrio" do comércio entre França e China
Macron pretende promover um "reequilíbrio dos fluxos" entre os dois países. "Os investidores chineses são bem-vindos na França, especialmente em setores que nos permitam garantir a transição ecológica e energética francesa, como mobilidade sustentável, baterias, energia fotovoltaica", detalhou um conselheiro do presidente, citando a cooperação entre a chinesa XTC e a francesa Orano para a construção de três fábricas de baterias em Dunquerque (norte).
A China é um "mercado de exportação importante para muitas empresas francesas", e Macron viaja acompanhado por dirigentes de empresas de setores diversos, como energia, alimentação, luxo, vinhos e destilados. Há também representantes de PMEs e grandes grupos, entre eles Veolia, Suez, EDF, Andros e Airbus.
Sobre o caso da marca Shein e a venda de bonecas com caráter pedopornográfico, a presidência destacou que Nicolas Forissier, ministro encarregado do Comércio Exterior, esteve na China no início de novembro e que "as mensagens já foram transmitidas às autoridades chinesas" sobre o respeito às legislações europeia e francesa. Segundo o Eliseu, elas "se empenharam para que a plataforma se adeque".
Melhoria nas relações com a União Europeia
Embora a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não participe desta viagem, ao contrário do que aconteceu em abril de 2023, esta visita de Estado será "muito rica em matéria bilateral e ambiciosa no plano europeu", afirma a presidência francesa. "O enfoque é bilateral, mas também europeu, pois isso faz parte da nossa identidade e do nosso DNA", ressalta o Eliseu. O objetivo: reduzir o enorme déficit comercial de € 307 bilhões desfavorável à União Europeia. "É necessário que a China consuma mais e exporte menos (...) e que os europeus poupem menos e produzam mais", insiste um assessor de Macron.
No setor industrial, a União Europeia denuncia uma "concorrência desleal" da China, das baterias aos carros elétricos e ao aço. Também acusa o gigante asiático de exercer uma forma de "extorsão" na oferta de terras raras, setor no qual o país domina a produção mundial. É preciso "recriar as condições de uma concorrência justa para todos e de uma cooperação econômica benéfica para cada parte", afirmou o chanceler Jean-Noël Barrot em entrevista ao jornal La Tribune, alertando para "consequências industriais" potencialmente "devastadoras e irreversíveis" na Europa. Em resposta, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, disse esperar que o presidente francês incentive um "desenvolvimento saudável das relações entre a China e a UE".
Macron vai convidar Pequim a investir de forma maciça na Europa. "Após 30 anos de globalização que permitiram à China crescer e inovar (...), os chineses hoje têm tecnologias particularmente avançadas que podem ser compartilhadas com seus parceiros de confiança, especialmente europeus", argumenta o Eliseu.