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'Ele gostava de ver o medo nos nossos olhos': os relatos de mulheres aliciadas por Epstein à BBC

Em entrevista ao BBC Newsnight, cinco mulheres abusadas pelo financista descrevem o impacto de sua experiência compartilhada

25 mar 2026 - 16h27
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Cinco sobreviventes de Epstein sentadas com Victoria Derbyshire no estúdio do programa BBC Newsnight. Da esquerda para a direita: Jena-Lisa Jones, Wendy Pesante, Victoria Derbyshire, Joanna Harrison, Chauntae Davies e Lisa Phillips
Cinco sobreviventes de Epstein sentadas com Victoria Derbyshire no estúdio do programa BBC Newsnight. Da esquerda para a direita: Jena-Lisa Jones, Wendy Pesante, Victoria Derbyshire, Joanna Harrison, Chauntae Davies e Lisa Phillips
Foto: BBC News Brasil

Aviso: esta reportagem contém descrições sexuais explícitas.

Joanna Harrison nunca quis falar sobre os abusos que sofreu nas mãos de Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais.

Como muitas das vítimas, Harrison diz que os ataques de Epstein a deixaram com vergonha e constrangimento. Mas, depois que seu nome foi divulgado sem autorização na liberação de milhões de documentos pelo governo americano, Harrison disse ao Newsnight, programa da BBC apresentado por Victoria Derbyshire, que sentiu que precisava se manifestar.

"Chega um ponto em que você está sendo sufocada e precisa respirar, e sinto que esta é a minha forma de tentar respirar", afirmou Harrison.

O programa Newsnight reuniu Harrison e outras quatro vítimas de Epstein pela primeira vez na mesma sala. Durante a conversa, que durou horas, houve gestos de apoio e, enquanto observavam fotos de si mesmas da época em que conheceram Epstein, houve lágrimas.

Na ampla entrevista, as vítimas relataram histórias de dor e raiva. Algumas lembraram o período que passaram na ilha privada de Epstein, Little St James, enquanto outras relembraram momentos "perturbadores" em seu rancho no Novo México.

Elas disseram acreditar que as figuras poderosas com quem ele se associava provavelmente sabiam o que estava acontecendo.

A identidade exposta ao público

Milhões de documentos relacionados às diversas investigações sobre Epstein foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, mas parte do material sem tarjas (cobrindo imagens ou informações sensíveis) não ocultou a identidade de suas vítimas.

Harrison foi uma das pessoas cujo nome foi tornado público.

'Esta é a minha forma de tentar respirar', diz Joanna Harrison ao falar sobre Epstein pela primeira vez
'Esta é a minha forma de tentar respirar', diz Joanna Harrison ao falar sobre Epstein pela primeira vez
Foto: BBC News Brasil

Ela disse ao Newsnight que nunca quis que os arquivos fossem divulgados, temendo perder o anonimato.

"Não é normal ver o rosto do seu agressor todos os dias por seis anos na TV", afirmou Harrison.

Ela relatou ter conhecido Epstein na Flórida quando tinha 18 anos e, como outras sobreviventes, disse que tudo começou com uma massagem.

"Tudo parecia normal", disse Harrison. "Quando ele começou a se masturbar, eu simplesmente congelei. Acho que não disse duas palavras no carro durante o trajeto de volta para casa."

Ela contou depois que Epstein a estuprou no dia do aniversário dele.

Falando publicamente pela primeira vez, Harrison disse duvidar que ela e outras vítimas algum dia obterão justiça agora que Epstein está morto. "Tenho perguntas para as quais nunca terei resposta."

Cinco países em cinco dias com Clinton, Spacey e Maxwell

Chauntae Davies compartilhou com o Newsnight imagens inéditas de quando viajou com Epstein em seu avião particular para a África.

As fotos incluíam Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, além do ator Kevin Spacey e do ex-presidente americano Bill Clinton. Spacey e Clinton participavam de uma viagem humanitária para promover a prevenção da Aids.

"Na época, descrevi em meu diário como o grupo mais eclético de pessoas que você poderia reunir... era quase como um clima de acampamento, porque estávamos viajando para cinco países diferentes em cinco dias", disse. "No avião, eles comiam petiscos, jogavam cartas e contavam histórias", contou Davies.

"Foi uma viagem única na vida e, infelizmente, teve de ser manchada pelo que estava acontecendo a portas fechadas", afirmou.

Davies disse que foi estuprada por Epstein em sua ilha particular depois de ser contratada para lhe fazer massagens.

Ghislaine Maxwell com o ator Kevin Spacey, que pediu publicamente a divulgação de todos os arquivos de Epstein
Ghislaine Maxwell com o ator Kevin Spacey, que pediu publicamente a divulgação de todos os arquivos de Epstein
Foto: Chauntae Davies / BBC News Brasil

Davies, que é massoterapeuta qualificada, recordou, durante a conversa no Newsnight, que fez uma massagem no pescoço e nas costas de Clinton em um aeroporto em Portugal, enquanto o avião reabastecia. Na época, ela disse ter escrito em seu diário que o ex-presidente era humilde, gentil e carismático.

Chauntae Davies com o ex-presidente dos Estados Unidos em um avião
Chauntae Davies com o ex-presidente dos Estados Unidos em um avião
Foto: Chauntae Davies / BBC News Brasil

O ex-presidente foi questionado sobre essa interação com Davies quando prestou depoimento perante o Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA, em fevereiro. Ele disse ao comitê que gostaria que Davies tivesse lhe contado sobre as irregularidades de Epstein.

Mas Davies afirmou que nunca considerou contar a Clinton: "Eu nunca falaria sobre isso com ninguém."

"O que ele teria feito, de verdade? Será que [Clinton] poderia ter impedido isso?", questionou Davies sobre as ações de Epstein. "Acho que nunca vamos saber."

Em determinado momento, enquanto estava em Portugal com Clinton, Davies lembrou ter ajudado o ex-presidente a comprar joias para sua filha, Chelsea.

Chauntae Davies afirmou que foi estuprada por Epstein em sua ilha particular após ser contratada para lhe fazer massagens
Chauntae Davies afirmou que foi estuprada por Epstein em sua ilha particular após ser contratada para lhe fazer massagens
Foto: Thierry Humeau / BBC News Brasil

Clinton afirmou repetidamente que não testemunhou os abusos cometidos por Epstein. Seu nome aparece centenas de vezes nos arquivos relacionados ao caso. Figurar em documentos ligados a Epstein não implica qualquer irregularidade.

Spacey defendeu publicamente a divulgação de todos os arquivos de Epstein, dizendo: "Para aqueles de nós que não têm nada a temer, a verdade não pode demorar a vir."

O 'perturbador' rancho de Epstein no Novo México

No início deste ano, surgiram alegações em documentos do Departamento de Justiça sobre Epstein que levaram o Estado do Novo México, nos EUA, a reabrir uma investigação criminal sobre seu rancho chamado Zorro.

O Estado do Novo México havia arquivado sua investigação inicial sobre o local em 2019, após um pedido de promotores federais no Estado de Nova York.

"Foi lá que ocorreu a maioria dos abusos. Tenho minhas lembranças mais sombrias do rancho Zorro", disse Davies.

Ao relembrar como era estar no local, ela disse ao programa Newsnight que se sentia "presa".

"Tinha uma sensação fria, escura, perturbadora ali dentro", afirmou Davies.

Lisa Phillips, outra sobrevivente que falou ao Newsnight, ecoou essa percepção sobre o rancho. "Lembro de pensar: 'este lugar é realmente assustador', simplesmente tinha essa sensação", disse.

Davies afirmou acreditar que há muito mais a ser descoberto sobre o que aconteceu no rancho Zorro.

'Gosto de ter coisas contra as pessoas', disse Epstein à sobrevivente

Epstein gostava de se gabar de seus amigos bem relacionados e influentes, afirmou Davies.

Ela disse que ele se gabava de ter emprestado dinheiro a Sarah Ferguson, ex-duquesa de York. "Não era segredo", disse Davies ao Newsnight.

Davies disse que havia fotos emolduradas de Ferguson com o ex-marido, Andrew Mountbatten-Windsor, e suas filhas na propriedade de Epstein.

Phillips, que trabalhava como modelo na época, também falou sobre as conexões de Epstein com Mountbatten-Windsor e relatou a história de uma amiga — que não falou publicamente e quer permanecer anônima — que teria sido instruída a manter relações sexuais com Mountbatten-Windsor.

Ela disse que sua amiga foi ao apartamento de Epstein no Upper East Side, em Nova York, em 2003, onde foi orientada a entrar em um quarto e manter relações sexuais com um homem que, segundo ela, era Mountbatten-Windsor.

Mountbatten-Windsor tem negado consistentemente qualquer irregularidade.

'Acho que ele [Epstein] gostava de ver que estávamos paralisadas e com medo, sem saber o que fazer', disse Lisa Phillips
'Acho que ele [Epstein] gostava de ver que estávamos paralisadas e com medo, sem saber o que fazer', disse Lisa Phillips
Foto: Thierry Humeau / BBC News Brasil

Phillips disse ao Newsnight que depois perguntou a Epstein por que ele havia feito sua amiga manter relações sexuais com Mountbatten-Windsor. Ela afirmou que Epstein sorriu de forma irônica e respondeu: "Gosto de ter coisas contra as pessoas".

"Ele gostava do medo em nossos olhos", disse ela sobre os abusos de Epstein. "Acho que ele gostava do fato de estarmos paralisadas e assustadas, sem saber o que fazer, e acho que ele sentia prazer com isso."

Na entrevista ao Newsnight, Phillips pediu à polícia do Reino Unido que fale com ela sobre o que sabe a respeito da suposta agressão de sua amiga e do envolvimento de Mountbatten-Windsor.

Mountbatten-Windsor foi preso em fevereiro (19/2) sob suspeita de má conduta em cargo público. A investigação se concentra em acusações de que ele teria compartilhado informações confidenciais e sensíveis com Epstein enquanto atuava como enviado comercial do Reino Unido.

'Nós o conhecíamos': sobreviventes afirmam que Epstein nunca teria se matado
'Nós o conhecíamos': sobreviventes afirmam que Epstein nunca teria se matado
Foto: BBC News Brasil

As sobreviventes que falaram à BBC Newsnight disseram não acreditar que Epstein tenha cometido suicídio.

"Nós o conhecíamos, sabíamos que tipo de pessoa ele era", afirmou Phillips.

Epstein foi encontrado morto em sua cela no dia 10/08/2019, enquanto estava detido no Metropolitan Correctional Center, em Nova York, sob acusações de tráfico sexual e conspiração, antes do julgamento.

A morte foi classificada como suicídio pelo médico legista.

'Eu não sorrio mais da mesma forma' — o impacto duradouro de Epstein

Jena-Lisa Jones e Wendy Pesante conheceram Epstein quando tinham 14 anos. As duas eram amigas na época e, anos depois, após sobreviverem aos abusos de Epstein, continuam sendo até hoje.

"Quando você passa por algo assim tão jovem, isso meio que distorce a sua realidade por muito tempo", disse Pesante. "Você não deveria ter a mentalidade de uma profissional do sexo aos 14 anos."

Em determinado momento da entrevista, as cinco sobreviventes receberam fotos de si mesmas na idade em que conheceram Epstein.

"Eu não sorrio mais da mesma forma", disse Harrison, ao olhar para a imagem de si mesma aos 18 anos.

Phillips olhou para uma foto sua vestindo um conjunto rosa-claro, em um barco, e percebeu que a ilha de Epstein aparecia ao fundo.

"Eu estava curtindo a minha vida e não fazia ideia do que estava prestes a acontecer comigo", disse sobre si mesma na imagem. "Eu não estava assim quando saí da ilha."

Lisa Phillips em um barco, com a ilha de Epstein ao fundo
Lisa Phillips em um barco, com a ilha de Epstein ao fundo
Foto: BBC Newsnight / BBC News Brasil

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