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Ebola: fake news prejudicam combate à epidemia na República Democrática do Congo

A República Democrática do Congo (RDC) e países da região adotaram, no último fim de semana, 23 e 24 de maio, medidas mais restritivas para tentar conter a propagação do ebola. Segundo uma especialista ouvida pela RFI, a desinformação agrava ainda mais a situação já crítica e prejudica o combate ao vírus.

25 mai 2026 - 15h42
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Uganda, onde dois novos casos de ebola foram confirmados, suspendeu os voos para Kinshasa, e os trajetos entre a capital da RDC e Bunia, no nordeste do país, também foram interrompidos. Nesta cidade, reuniões com mais de 50 pessoas foram proibidas. A República Centro-Africana anunciou ainda o reforço da vigilância epidemiológica e da segurança nos pontos de entrada do seu território, e o grupo político-militar AFC/M23 indicou um isolamento de 21 dias para pessoas provenientes de Ituri, também na região nordeste.

Profissionais da Cruz Vermelha desinfetam hospital em Rwampara, na cidade de Ituri, na RDC, em 21 de maio de 2026.
Profissionais da Cruz Vermelha desinfetam hospital em Rwampara, na cidade de Ituri, na RDC, em 21 de maio de 2026.
Foto: REUTERS - Gradel Muyisa Mumbere / RFI

Os números mais recentes na RDC indicam 904 casos suspeitos e 220 mortes suspeitas, incluindo 101 casos confirmados e 10 mortes confirmadas no leste do país, no Kivu do Norte, no Kivu do Sul e em Ituri, considerada o epicentro da 17ª epidemia de ebola no país.

O governo afirma querer reduzir os riscos de propagação e reforçar a segurança sanitária dos viajantes. Mas a decisão gera críticas, no momento em que a epidemia também começa a perturbar o tráfego aéreo regional, já que a companhia aérea nacional de Uganda suspendeu, desde domingo, todos os seus voos para Kinshasa. Alguns consideram que isolar Bunia por via aérea, enquanto cidades como Beni (na província do Kivu do Norte) ou Kisangani (província de Tshopo) continuam acessíveis por estrada e mantêm ligações com Kinshasa, corre o risco de ter eficácia limitada.

Teorias conspiratórias

Em Ituri, a situação estava tensa na noite de domingo (24): um grupo de jovens atacou o hospital de Mongbwalu para recuperar o corpo de uma pessoa que havia morrido de ebola. A situação gerou forte tensão, obrigando o Exército e a polícia a intervir. Na sexta-feira, um ataque semelhante já havia ocorrido, também em Mongbwalu, onde uma tenda que abrigava 18 casos suspeitos de ebola foi atacada; essas pessoas, desde então, desapareceram. Ouvida pela RFI, a especialista e militante Annie Modi explica que muitas dessas atitudes estão ligadas a crenças socioculturais e religiosas, mas outras à desinformação.

"Muitas pessoas acreditam que a doença não existe, que ela foi fabricada. E há também a crença de que as comunidades estão sendo isoladas para o controle de suas terras ou para o extermínio. Nos rituais fúnebres, existe ainda a crença de que é preciso haver contato entre a comunidade e o seu ente querido antes do enterro, uma cerimônia de despedida. São crenças reforçadas pelas fake news, que impactam os gestos de proteção para evitar o contágio", explica.

Modi afirma ainda que há muitas teorias conspiratórias circulando, o que torna a forma como as pessoas se comportam diante dessa crise sanitária um perigo real, ainda que esta não seja a primeira epidemia de ebola na RDC.

"Nós temos que situar as coisas dentro do contexto: as zonas impactadas pela epidemia são desestabilizadas pelo conflito armado, por conflitos intercomunitários, mas principalmente pela forma como a epidemia foi tratada em 2018 e 2019. Houve muitos casos de exploração e abusos sexuais, às vezes cometidos por agentes de serviços contra membros das comunidades, enquanto uma das mensagens sempre transmitidas é que os gestos de distanciamento para conter a propagação da doença devem ser respeitados", relembra. "Algumas comunidades contestam, dizendo que, se essa doença realmente existe, como é que alguns agentes externos de saúde puderam ser capazes desse tipo de ato? E isso contribui para esse tipo de desinformação ou para a recusa em acreditar nas informações que são compartilhadas", destacou.

A especialista acredita que, desta vez, nesta epidemia, todos os atores estão em estado de alerta tanto no compartilhamento das informações quanto na organização das estruturas, para que casos de abuso não aconteçam, e, se acontecerem, que sejam tratados com o maior rigor possível.

"Há também outro elemento: é preciso que a comunidade seja consultada, que ela esteja implicada na concepção da mensagem a ser compartilhada e na elaboração das ferramentas necessárias para sensibilizar a população. Só dessa maneira é possível reduzir ao máximo o risco de rejeição e fazer as comunidades aderirem", explicou Modi.

Diretor da OMS aguardado na RDC

O diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), esperado nesta terça-feira na República Democrática do Congo, alertou que a epidemia de ebola que atinge o país é "extremamente grave e difícil" de gerir, pedindo aos Estados vizinhos que ajam "imediatamente".

A detecção tardia dos primeiros casos, a insegurança nas regiões afetadas, a desconfiança de parte da população e a ausência de vacina complicam consideravelmente a gestão da epidemia, explicou Tedros Adhanom Ghebreyesus durante uma reunião ministerial online organizada pela Agência de Saúde da União Africana (Africa CDC).

"O atraso na detecção da epidemia significa que agora estamos tentando alcançar uma epidemia que avança muito rapidamente. Estamos intensificando urgentemente as operações, mas, por enquanto, a epidemia está progredindo mais rápido do que nós", acrescentou o diretor da OMS, que deve visitar a República Democrática do Congo nesta terça-feira (26). 

Com RFI e AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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