Deriva autoritária de Israel após anos de conflito ganha destaque na imprensa francesa
Quase três anos após o ataque de 7 de outubro em Israel, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu teria conduzido o país a uma espiral de guerra e endurecimento autoritário. Essa é a avaliação da revista Nouvelle L'Obs, que traz nesta semana na capa o título "A Deriva de Israel". O tema também ganha amplo destaque na Le Point, que dedica várias páginas à situação no Líbano.
Segundo a L'Obs, depois da guerra na Faixa de Gaza — que deixou 72 mil mortos, entre eles 30 mil crianças — Israel abriu seis novas frentes de combate: Líbano, Irã, Cisjordânia, Iêmen, Iraque e Síria. Nem as condenações internacionais nem as investigações internas por corrupção foram capazes de conter os planos de Netanyahu, no poder desde 2009.
Um sinal do endurecimento da estratégia foi a aprovação, em março, no Parlamento israelense, da pena de morte para palestinos acusados de terrorismo. "Estamos convencidos de que somos os bons e eles [os palestinos], os maus", diz um estudante de Tel Aviv, em declaração que ecoa o discurso oficial.
Ao mesmo tempo, jornalistas que poderiam denunciar os massacres praticados no conflito passam a se autocensurar por medo de marginalização, enquanto a oposição de esquerda perde espaço no país. Especialistas ouvidos pela Nouvelle L'Obs descrevem uma "democracia em erosão", cujos ideais foram manchados pela destruição de Gaza, pela colonização da Cisjordânia e por crimes de guerra.
Segundo eles, essa política agressiva "contribuiu para colocar em perigo os judeus do mundo inteiro". Pela primeira vez, ressalta o texto, cidadãos americanos demonstram mais solidariedade aos palestinos do que aos israelenses. Além disso, diversos analistas passam a usar o termo genocídio para descrever a ofensiva.
Conflito no sul do Líbano
Já a revista Le Point analisa a guerra entre Israel e o Hezbollah, a milícia armada libanesa alinhada ao Irã. O conflito já deixou cerca de 2.500 mortos no Líbano. Sob a justificativa de eliminar a ameaça terrorista, Israel abre caminho para a criação de uma zona de segurança ao longo da fronteira, com destruição de casas e retirada forçada de moradores — o que as autoridades libanesas classificam como uma ocupação.
A abertura de conversas diretas entre as diplomacias israelense e libanesa representa uma novidade histórica. Enquanto Tel Aviv afirma mirar a erradicação do Hezbollah, Beirute aposta na consolidação do cessar‑fogo. Em meio às ofensivas israelenses, o Hezbollah rejeita ser desarmado à força — medida que, segundo um deputado eleito pelo grupo, poderia desencadear uma guerra civil no país.
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