Data de início do jejum do Ramadã divide muçulmanos na França
Entre a tradição de observar o céu e a precisão dos cálculos astronômicos, comunidades muçulmanas na França se veem divididas sobre quando exatamente começa e termina o Ramadã. Na Arábia Saudita, a corte real anunciou que o jejum tem início nesta quarta-feira (18), orientação seguida pela Grande Mesquita de Paris. Já o Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) sustenta que o mês dedicado ao jejum, às orações e ao compartilhamento deve começar na quinta-feira (19). A França abriga a maior população muçulmana da União Europeia.
O mês sagrado, durante o qual centenas de milhões de muçulmanos no mundo jejuam do nascer ao pôr do sol, inicia-se tradicionalmente com a observação do crescente lunar. Muitos países de maioria muçulmana seguem a Arábia Saudita para determinar a data, o que confere maior peso ao seu anúncio. Mas, neste ano, há divergências.
Para entender o debate, é preciso saber que o mês sagrado do Islã começa com o aparecimento do primeiro crescente lunar, já que o calendário muçulmano é lunar. A data varia a cada ano, pois esse calendário tem, em média, 354 dias - onze a menos que o calendário gregoriano, seguido pelo ocidente.
Segundo a tradição, uma dezena de observadores se reúne no deserto, cerca de 100 quilômetros ao noroeste da capital saudita, para examinar o céu ao pôr do sol, a olho nu e com a ajuda de telescópios potentes voltados ao horizonte, em busca do novo crescente lunar. Minutos após o crepúsculo, eles se retiram para redigir um relatório enviado à Suprema Corte da Arábia Saudita, única autoridade habilitada a anunciar oficialmente o início do Ramadã. Neste ano, especialistas estabeleceram que o jejum começaria nesta quarta-feira (18).
Duas visões, no entanto, se opõem na definição da data no calendário gregoriano: a tradição, que privilegia a observação direta, e a modernidade, que defende o cálculo astronômico. A primeira é mais simbólica e espiritual; a segunda, mais previsível e precisa.
A Grande Mesquita de Paris se apoia em um método que combina cálculos científicos e observações lunares. Segundo comunicado, essa prática ancestral, mantida desde a época do profeta Maomé, contribui para "a unidade dos muçulmanos da França e facilita a organização do jejum do Ramadã". A Arábia Saudita faz o mesmo, sendo tradicionalmente seguida pela comunidade sunita global na definição da data oficial.
Mas, neste ano, o Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) - instância que durante muito tempo representou o Islã junto aos poderes públicos - fixou o início do jejum para esta quinta-feira, 19 de fevereiro. Assim como Turquia, Egito e Estados Unidos, o CFCM baseou sua decisão apenas em "dados científicos", conforme comunicado.
A mesma divergência ocorrerá quanto ao Aid al-Fitr, a festa que marca o fim do jejum. O CFCM e os defensores do cálculo astronômico já anunciaram que ela será celebrada na sexta-feira, 20 de março. As instâncias favoráveis ao método tradicional, por sua vez, aguardarão as observações lunares.
Ramadã é um dos cinco pilares do Islã
A divergência sobre a data de início do Ramadã tem importância prática e simbólica para milhões de fiéis. O alinhamento da data é visto como um sinal de unidade religiosa, especialmente em países com grande diversidade interna, como a França.
Quando comunidades seguem dias diferentes, isso impacta diretamente a organização familiar, as rotinas de trabalho e estudo, além da programação das orações e atividades comunitárias durante o mês sagrado. Essas diferenças também refletem um debate mais amplo sobre qual método deve prevalecer no calendário islâmico.
A falta de consenso ainda reforça tensões relacionadas à legitimidade das instituições religiosas e à representatividade do Islã na França, país que abriga a maior comunidade muçulmana da União Europeia.
Mesquitas, associações e centros culturais dependem de uma data unificada para organizar o jejum coletivo, ações de caridade e a celebração do Aid al-Fitr, o que se torna mais complexo quando há calendários divergentes. Em um contexto em que a vida comunitária tem peso central no Ramadã, a definição da data não é apenas um gesto ritual, mas um elemento estruturante de convivência, coordenação e identidade religiosa.
Realizar o jejum do Ramadã é um dos cinco pilares do Islã e exige que os fiéis se abstenham de comer, beber, fumar e manter relações sexuais durante as horas de luz. Os muçulmanos praticantes também são incentivados a fazer doações aos pobres.
Apesar dos avanços dos cálculos astronômicos, que permitem determinar o início dos meses islâmicos com anos de antecedência, autoridades religiosas continuam a confiar na observação direta como método oficial para confirmar o início do crescente lunar, prática seguida desde a época do profeta Maomé, que vinculou o começo do jejum à aparição do fenômeno astronômico.
Com agências