Forças israelenses e Hamas cometeram crimes atrozes em Gaza, afirma relatório da ONU
As forças israelenses, o Hamas e outros grupos armados palestinos cometeram graves violações do direito internacional humanitário em Gaza e perpetraram crimes atrozes, segundo um relatório da ONU publicado na quinta-feira.
Os ataques intensificados de Israel e a transferência forçada de palestinos parecem ter como objetivo uma mudança demográfica permanente em Gaza, "levantando preocupações sobre limpeza étnica", disse o relatório do escritório de direitos humanos da ONU.
A detenção e os maus-tratos de reféns pelo grupo militante islâmico Hamas podem constituir crimes de guerra, afirmou.
A missão permanente de Israel em Genebra rejeitou as conclusões do relatório sobre as ações de Israel e afirmou em comunicado que o escritório de direitos humanos da ONU perdeu sua credibilidade.
"O Escritório do Alto Comissariado está envolvido em uma campanha cruel de demonização e desinformação contra o Estado de Israel", disse.
O Hamas não respondeu imediatamente a pedidos de comentários.
PREOCUPAÇÕES COM LIMPEZA ÉTNICA
O relatório de 17 páginas investigou os eventos em Gaza de novembro de 2024 a 31 de outubro de 2025.
O Hamas atacou o sul de Israel em outubro de 2023, matando mais de 1.200 pessoas e fazendo cerca de 250 reféns, de acordo com dados israelenses. A ofensiva militar de Israel em Gaza matou mais de 72.000 pessoas, segundo o Ministério da Saúde palestino.
Um cessar-fogo mediado pelos EUA entrou em vigor em outubro passado, após dois anos de guerra que danificaram edifícios em toda a Faixa de Gaza, deslocaram a maioria de seus residentes e levaram a uma crise humanitária. Israel ainda controla mais da metade do enclave.
As ações de Israel impuseram "condições de vida cada vez mais incompatíveis com a continuidade da existência dos palestinos como um grupo em Gaza", afirmou o relatório.
A fome encontrada em algumas partes de Gaza em agosto passado por um monitor global da fome e a desnutrição resultaram diretamente das ações de Israel, segundo o relatório.
Os centros de distribuição militarizados administrados pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada por Israel e pelos Estados Unidos, "falharam completamente" em fornecer ajuda humanitária na escala necessária, violando as obrigações de Israel sob o direito internacional humanitário, afirmou o relatório.
As práticas israelenses em Gaza e na Cisjordânia ocupada indicaram um esforço acelerado para consolidar a anexação de grandes partes do território palestino ocupado, com o uso ilegal da força pelas forças de segurança israelenses, acrescentou o relatório.
"Durante o período coberto pelo relatório, os ataques intensificados, a destruição metódica de bairros inteiros e a negação de assistência humanitária pareciam ter como objetivo uma mudança demográfica permanente em Gaza", afirmou.
"Isso, juntamente com as transferências forçadas, que parecem ter como objetivo um deslocamento permanente, levanta preocupações sobre a limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia."
PREOCUPAÇÕES COM AS AÇÕES DO HAMAS
O relatório concluiu que o assassinato, em junho passado, de 12 funcionários palestinos associados à GHF por homens armados, incluindo possíveis execuções sumárias, pode constituir um crime de guerra por parte do Hamas. O Hamas se recusou a comentar os tiroteios.
O relatório levantou preocupações sobre o uso de civis como escudos humanos para impedir ataques israelenses, algo que o Hamas negou ter feito, e destacou o uso desnecessário ou desproporcional da força pela Autoridade Palestina na Cisjordânia.
A detenção e os maus-tratos de reféns capturados no ataque do Hamas a Israel em 2023 podem constituir crimes de guerra e, potencialmente, outros crimes atrozes, afirmou o relatório, citando alegações de tortura, espancamento e privação de alimentos.
"Também deve haver responsabilização por violações graves do direito internacional, incluindo possíveis crimes internacionais, pelo Hamas e seu braço armado, as Brigadas Al Qassam, bem como outros grupos armados palestinos", disse.