Dalai Lama confirma que terá um sucessor, mas tibetanos temem interferência da China na escolha
Perto de completar 90 anos, o Dalai Lama confirmou nesta quarta-feira (2) que um sucessor será nomeado após sua morte para garantir a continuidade de seu papel como líder espiritual do Tibete. No entanto, o governo chinês, que contesta a autonomia do território, afirmou que o novo líder deve ser aprovado por Pequim.
Perto de completar 90 anos, o Dalai Lama confirmou nesta quarta-feira (2) que um sucessor será nomeado após sua morte para garantir a continuidade de seu papel como líder espiritual do Tibete. No entanto, o governo chinês, que contesta a autonomia do território, afirmou que o novo líder deve ser aprovado por Pequim.
Em um comunicado divulgado por ocasião de seu 90º aniversário, o Dalai Lama afirmou que "a instituição do Dalai Lama continuará". A mensagem foi lida no mosteiro de McLeod Ganj, a cidade indiana onde o líder espiritual da comunidade tibetana vive exilado desde 1959, quando deixou o Tibete, sob o controle de Pequim.
Sua idade avançada vem levantando questões sobre o futuro da liderança tibetana e uma possível tentativa da China de influenciar sua sucessão. Afinal, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1989 também simboliza a luta contra o domínio chinês e pela liberdade do território.
Os tibetanos temem que a China queira nomear um sucessor, como indicaram as primeiras reações de Pequim, que considera o líder espiritual um rebelde separatista. Segundo Mao Ning, porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores. "A reencarnação do Dalai Lama, do Panchen Lama e de outras grandes figuras budistas deve ser escolhida por sorteio em uma urna de ouro e aprovada pelo governo central".
Demanda popular
O líder espiritual nasceu em 6 de julho de 1935. Tenzin Gyatzo - seu verdadeiro nome - é, segundo a crença tibetana, a 14ª reencarnação do Dalai Lama. Em sua mensagem como parte das celebrações de seu aniversário, ele explicou que, nos últimos anos, recebeu inúmeros telefonemas da diáspora tibetana, de budistas da região do Himalaia, da Mongólia e de partes da Rússia e da China "pedindo a continuação da instituição do Dalai Lama". O carismático líder budista havia afirmado que a instituição do Dalai Lama só continuaria se houvesse demanda popular.
Ele e outros tibetanos vivem exilados na Índia desde que as forças chinesas reprimiram uma revolta na capital tibetana, Lhasa, em 1959. Agora, a diáspora teme que a China nomeie um sucessor para fortalecer seu controle sobre o vasto território invadido por Pequim em 1951.
Mas seu líder espiritual afirmou nesta quarta-feira que a responsabilidade pela nomeação de seu sucessor caberá ao escritório do Dalai Lama na Índia. "Reitero aqui que o Gaden Phodrang Trust tem autoridade exclusiva para reconhecer futuras reencarnações; ninguém mais tem autoridade para interferir neste assunto", afirmou.
O chefe do governo tibetano no exílio, Penpa Tsering, também reagiu às declarações de Pequim. "Nós condenamos a instrumentalização política pela China do tema da reincarnação [do Dalai Lama] e não aceitaremos nunca", disse ele.
Autônomo e não independente
O Dalai Lama tinha apenas 23 anos quando, temendo por sua vida, fugiu de "sua" capital, Lhasa, para escapar da sangrenta repressão dos soldados chineses a uma revolta que havia começado sete dias antes, em 10 de março de 1959. Desde então, ele nunca mais pôs os pés no Tibete.
Em junho de 1988, ele causou surpresa ao anunciar que estava desistindo de sua demanda pela independência do Tibete, preferindo exigir maior autonomia para seu povo dentro da República Popular da China. Essa estratégia intermediária adotada pelo Dalai Lama chegou a ser vista por muitos tibetanos como uma traição, dividiu a diáspora e foi rejeitada pelo governo chinês.
Embora tenha suavizado suas reivindicações, o líder espiritual, que renunciou ao poder político em 2011, mas mantém sua influência e é ouvido pela comunidade tibetana, sempre se recusou a reconhecer que seu território era historicamente parte da China. Uma posição na qual Pequim ainda baseia sua recusa em dialogar com seus representantes.
(Com AFP)