O jogo virou? Influenciador próximo de Trump compara ICE à polícia política da Alemanha nazista
O assassinato de Renée Good e suas circunstâncias controversas continuam a provocar forte repercussão na sociedade norte-americana. Um dos mais importantes apoiadores midiáticos de Donald Trump, o influenciador Joe Rogan, famoso junto a grupos masculinistas e homens jovens e apresentador do podcast mais ouvido dos Estados Unidos, comparou os métodos do ICE, a polícia de imigração, aos da polícia política do regime nazista na Alemanha.
A violência atribuída ao ICE tem alimentado a indignação internamente nos Estados Unidos, com manifestações contra agentes federais do ICE em Minneapolis, onde Good morreu, e em outras cidades americanas. Em Hollywood, durante a cerimônia do Globo de Ouro, o ator Mark Ruffalo expressou todo o desconforto que sentia sobre o assunto. Dias depois, nesta quinta-feira (15), outro astro, Matt Damon, apareceu na com um broche "Be Good" na lapela, para "alertar sobre o que está acontecendo e que preocupa milhões de norte-americanos".
Joe Rogan é um dos apresentadores de podcast mais populares dos Estados Unidos - com mais de 14 milhões de assinantes no Spotify e 17 milhões no YouTube. Ele é especialmente ouvido por homens jovens e um público que se identifica com Donald Trump. Ao se recusar a receber Kamala Harris em seu podcast durante a última campanha eleitoral, ele contribuiu de para a eleição de Trump à Casa Branca.
Embora tenha afirmado compreender que o presidente norte-americano esteja colocando em prática o plano de perseguição a imigrantes para o qual foi eleito, Joe Rogan contestou os métodos adotados, comparando-os aos da Alemanha nazista.
"Não queremos militares armados circulando pelas ruas, prendendo pessoas aleatoriamente, muitas das quais acabam sendo cidadãos norte-americanos que simplesmente não estão com seus documentos no momento. Vamos realmente nos transformar na Gestapo? 'Mostre seus documentos'. É isso mesmo que está acontecendo agora?", afirmou o influenciador.
Não é a primeira vez que a política de imigração de Trump gera forte rejeição. Desde o ano passado, vários apresentadores influentes de podcasts humorísticos e programas de entrevistas voltados ao público masculino, que antes apoiavam o presidente, retiraram seu respaldo.
Esse distanciamento de Joe Rogan - frequentemente descrito como "o eleitor indeciso mais famoso da América" - não é um bom sinal para Donald Trump, que continua defendendo o ICE no caso da morte de Renée Good. Pelo menos quatro pessoas morreram sob custódia do ICE desde o início de 2026, e ao menos 30 em 2025, o ano com mais mortes desde a criação dessa polícia, em 2003, segundo dados oficiais.
Na quinta-feira (15) o México solicitou oficialmente explicações sobre a morte de um de seus cidadãos que estava detido pelo ICE no estado da Geórgia.
Área de atuação ampliada e poucas restrições
O orçamento destinado à implementação da política de imigração do governo foi multiplicado por dez. "Desde o mês de julho, o Departamento de Segurança Interna passou a contar com um orçamento de US$ 170 bilhões. Assim, há vários meses, milhões e milhões de dólares vêm sendo gastos em equipamentos, armas, coletes de proteção, roupas e uniformes, além de material letal ou não letal, como tasers e munições de gás", explica a pesquisadora Charlotte Recoquillon, do Instituto Francês de Geopolítica, onde é especialista em violência policial.
Além disso, o ICE recebeu em julho "autorização total" para adotar todas as medidas que considerar necessárias "para se proteger". Essa diretriz ampliou, na prática, a margem de atuação dos agentes durante operações e abordagens.
"Sabia-se quais eram suas missões: combater de forma absoluta a imigração irregular. Mas não havia limites legais claramente definidos nos decretos, para tentar enquadrar minimamente a atuação do ICE", disse à Rádio Canadá Olivier Piton, advogado especializado em direito público em Washington e ensaísta.
O governo Trump também estabeleceu metas de detenções. O assessor de Segurança Interna pressionou as agências de imigração a prenderem 3 mil imigrantes em situação irregular por dia, com o objetivo de aumentar o número de deportações.
A morte de uma cidadã norte-americana em Minneapolis indica que a violência dos métodos empregados pelos agentes federais de imigração atingiu um novo patamar, ainda que o uso de armas de fogo pela agência não seja algo inédito.
Segundo o veículo norte-americano The Trace, que monitora incidentes envolvendo armas de fogo ligados à repressão migratória promovida por Donald Trump, agentes de imigração dispararam em pelo menos 16 episódios desde o início de 2025.
Esses casos envolvem tanto agentes do ICE, responsáveis pela aplicação das leis dentro do território dos Estados Unidos, quanto da Customs and Border Protection (CBP), a agência encarregada do controle de fronteiras. Em pelo menos outros 15 incidentes, agentes chegaram a apontar armas de fogo contra pessoas.
Trata-se de números provavelmente subestimados, reconhece o próprio veículo, lembrando que "tiroteios envolvendo agentes de imigração nem sempre são divulgados publicamente".
A ONG Human Rights Watch denuncia uma "militarização violenta das operações de controle migratório nos Estados Unidos sob o governo atual". Em comunicado, a diretora do programa da organização para os Estados Unidos, Tanya Greene, pediu que "o governo Trump redirecione sua energia e os recursos dos contribuintes para operações de imigração conduzidas de forma pacífica e segura, em conformidade com a lei e com respeito aos direitos das pessoas, incluindo o direito fundamental à vida".
Além das pessoas mortas por disparos, 32 indivíduos perderam a vida em centros de detenção do ICE em 2025, segundo o jornal The Guardian. Foi o ano mais letal para a agência em mais de duas décadas.
Trump ameaça recorrer a uma lei de exceção
Em uma mensagem publicada na rede Truth Social, Donald Trump reagiu na quinta-feira ameaçando recorrer à Insurrection Act caso "os políticos corruptos de Minnesota não respeitem a lei e não trabalhem para impedir que agitadores profissionais e insurgentes ataquem" agentes do ICE.
O presidente dos Estados Unidos tem ameaçado diversas vezes, nos últimos meses, recorrer a essa legislação, que permitiria a instauração de uma forma de estado de emergência, autorizando o emprego das Forças Armadas para fins de manutenção da ordem pública.
A Insurrection Act foi acionada pela última vez em 1992, pelo então presidente George Bush pai, a pedido do governador republicano da Califórnia, diante de distúrbios sem precedentes em Los Angeles após a absolvição dos policiais que haviam espancado Rodney King, um motorista negro, no ano anterior.
No dia de seu retorno à Casa Branca, Donald Trump colocou o combate à imigração irregular como um dos principais eixos de seu segundo mandato. Por meio de uma série de decretos, lançou uma verdadeira caça a imigrantes em situação ilegal, no contexto de uma ampla campanha de expulsões, apoiando-se fortemente na Immigration and Customs Enforcement (ICE).
Trata-se de uma agência federal vinculada ao Departamento de Segurança Interna, uma polícia de imigração criada em 2003, cujos poderes foram ampliados de maneira significativa desde o início do novo governo Trump. Logo no começo de seu segundo mandato, Donald Trump alterou drasticamente o papel dessa força.
De uma agência responsável por fiscalizar a imigração irregular, mas também por investigar redes de exploração sexual infantil, tráfico de pessoas ou de antiguidades, o ICE passou, por decreto, a ter como prioridade a aplicação das leis migratórias e de "outras normas relacionadas à entrada e à permanência ilegal de estrangeiros" nos Estados Unidos.