Crimes contra jornalistas: 'ameaça evolui e impunidade persiste', alerta campanha da Unesco
No Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, celebrado neste 2 de novembro, organizações de defesa da liberdade de imprensa alertam que assassinatos, agressões, ameaças e casos de assédio contra profissionais da mídia continuam, em sua maioria, sem punição judicial. A data foi instituída em homenagem aos jornalistas da RFI Ghislaine Dupont e Claude Verlon, mortos no Mali em 2 de novembro de 2013, e reforça a preocupação com a persistente impunidade desses crimes no mundo.
Segundo a Unesco, os assassinatos de jornalistas subiram 20% em três anos, impulsionados por conflitos armados no Oriente Médio, Ucrânia e Sudão, além do avanço de ataques com drones. Com mais de 1.600 mortes em duas décadas — 31 no Brasil —, a taxa global de impunidade atingiu 86%. Profissionais locais e mulheres são os mais vulneráveis, estas enfrentando aumento no assédio e na violência física gerada por ameaças virtuais, enquanto a identificação de imprensa deixa de garantir proteção.
Neste ano, a campanha da Unesco tem como lema "As ameaças evoluem. A impunidade persiste", buscando chamar a atenção para as novas formas de violência enfrentadas pelos jornalistas, especialmente em zonas de conflito, e para a persistência da impunidade dos crimes cometidos contra eles.
Segundo o Observatório de Jornalistas Assassinados da Unesco, mais de 1.600 jornalistas foram assassinados no mundo nos últimos 20 anos, uma média de uma morte a cada quatro dias. Neste ano, "a taxa global de impunidade pelos assassinatos de jornalistas aumentou um ponto percentual, a 86%", aponta o relatório, o que significa que seis em cada sete autores dos crimes escapam da Justiça.
Além disso, a Unesco aponta uma tendência preocupante: o número de assassinatos de profissionais da imprensa aumentou 20% no mundo nos últimos três anos. Nove em cada dez vítimas são jornalistas locais, que frequentemente cobrem temas sensíveis em suas próprias comunidades e estão mais expostos a ameaças e represálias.
Jornalistas brasileiros assassinados
Sobre o Brasil, o relatório destaca que 31 jornalistas foram assassinados no período analisado.
O documento indica que o país informou à entidade a adoção do Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril deste ano pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A iniciativa passou a integrar o repositório de mecanismos nacionais de proteção da Unesco.
Conflitos armados
Em entrevista à RFI, Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, destaca que o aumento dos assassinatos de jornalistas está diretamente ligado aos conflitos armados.
"A situação se agrava sobretudo para os jornalistas em zonas de combate, e infelizmente há cada vez mais zonas de combate. Observamos uma certa redução dos assassinatos de jornalistas em países que não estão em guerra. Mas, desde 2006, mais de 1.600 jornalistas foram mortos. Esses são os dados da Unesco. E é provável que os números reais sejam muito mais altos."
Com a guerra na Faixa de Gaza, o território palestino tornou-se o maior número de profissionais da imprensa mortos, ao menos 32. A Ucrânia, a Somália e o Sudão também figuram entre os locais mais perigosos para jornalistas nos últimos três anos. O Oriente Médio permanece, de longe, a região mais arriscada do mundo para o exercício da profissão: segundo a Unesco, 97 jornalistas foram mortos nessa parte do mundo nos últimos dois anos.
"O que é terrível é que os jornalistas continuam pagando um preço exorbitante por dizer a verdade e por fazer seu trabalho. E o trabalho deles é nos trazer informações para que estejamos informados, para que saibamos o que está acontecendo ao redor do mundo", diz. "Nada deve impedir a capacidade dos jornalistas de exercer sua profissão. Porque esse trabalho é fundamental para todos nós, para a nossa liberdade, para os direitos humanos e para o direito à informação", reitera Dujarric.
Nesses cenários de guerra, usar coletes ou capacetes identificados com a palavra "imprensa" já não garante proteção. Jornalistas são mortos não apenas nas linhas de frente, durante a cobertura dos combates, mas também dentro das redações e até em suas próprias casas.
Ataques com drones contra jornalistas
A Organização das Nações Unidas alerta ainda para uma nova e preocupante tendência. Profissionais da mídia passaram a ser alvo de ataques realizados com drones. Entre os territórios e países onde o fenômeno é mais recorrente estão a Faixa de Gaza, a Ucrânia e o Sudão, aponta Dujarric, que evidencia o fato de esse tipo de equipamento "não custar caro e ser fácil de usar".
"Isso também é um reflexo do aumento do uso de drones em todos os conflitos e, agora, frequentemente de drones autônomos, operados por inteligência artificial. Portanto, eu diria que, infelizmente, não é surpreendente ver um uso muito maior de drones no assassinato de jornalistas ao redor do mundo. E esse é um perigo que, infelizmente, só tende a crescer", lamenta.
Mulheres jornalistas enfrentam riscos específicos
Das 14 jornalistas mortas entre 2024 e 2025, 93% perderam a vida enquanto cobriam conflitos, aponta a Unesco. Embora representem uma parcela relativamente pequena dos jornalistas assassinados, as mulheres continuam sendo alvo de níveis desproporcionais de abusos e assédio, tanto online quanto offline.
Um estudo publicado em 2025 pela ONU Mulheres e pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês) revelou que 75% das mulheres jornalistas já foram expostas a algum tipo de violência.
A pesquisa também constatou que a proporção de profissionais que relataram ter sofrido violência física ou presencial como consequência de ataques recebidos na internet mais que dobrou desde o último levantamento realizado pela Unesco, em 2020, passando de 20% para mais de 40% em 2025.
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