Confrontos entre governo sírio e forças curdas deslocam milhares em Aleppo
Nos últimos dias, Aleppo, no norte da Síria, voltou ao centro da instabilidade no país. Confrontos armados entre forças do novo governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS) — coalizão militar liderada por curdos — já duram três dias e provocaram o deslocamento de milhares de civis.
Giovanna Vial, correspondente da RFI no Líbano
Nos últimos dias, Aleppo, no norte da Síria, voltou ao centro da instabilidade no país. Confrontos armados entre forças do novo governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS) — coalizão militar liderada por curdos — já duram três dias e provocaram o deslocamento de milhares de civis.
Desde terça-feira, 6 de janeiro, os combates se concentraram em Ashrafieh e Sheikh Maqsoud, bairros em Aleppo que são historicamente habitados por uma população majoritariamente curda.
No terceiro dia dos enfrentamentos, as autoridades sírias anunciaram toque de recolher em seis bairros, incluindo esses dois de maioria curda. Até o momento, pelo menos 22 pessoas foram mortas e outras 173 ficaram feridas. Cerca de 100 mil civis deixaram suas casas à medida que os confrontos se intensificaram.
Novas frentes de conflito
As Forças Democráticas Sírias controlam grande parte do norte e nordeste da Síria, região conhecida como Curdistão sírio ou Administração Autônoma do Norte e do Leste da Síria. A área possui fronteiras próprias, além de forças de segurança e autoridades civis independentes do restante do país. Durante a guerra civil síria, as FDS receberam apoio norte-americano no combate ao Estado Islâmico e consolidaram controle militar e administrativo sobre o território.
Com a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 e a consolidação de um novo governo em Damasco, esta região curda passou a ser vista pelo governo sírio como um território que deveria ser reincorporado à autoridade central do Estado sírio.
Em março de 2025, foi anunciado um acordo de integração entre o governo sírio e as SDF, que previa a incorporação das forças curdas às instituições civis e militares do Estado sírio. Na prática, no entanto, a implementação desse acordo tem sido marcada por desconfiança e impasses, já que os curdos, que combateram o Estado Islâmico (EI) durante a guerra civil, agora se veem diante de um governo formado por ex-combatentes de grupos jihadistas, incluindo o próprio EI e a Al Qaeda.
Desde a queda do regime de Assad, novas frentes de conflito surgiram na Síria, desta vez envolvendo minorias sectárias no país. Desde então, minorias como alauítas, drusos e curdos têm sido alvo de perseguição e ataques.