Conferência secreta do bilionário Thiel em Roma chama a atenção da Igreja
Peter Thiel, bilionário norte-americano e um dos primeiros apoiadores do presidente Donald Trump, abriu neste domingo uma série de palestras a portas fechadas em Roma explorando o conceito do Anticristo, atraindo o escrutínio de comentaristas católicos.
A conferência, apenas para convidados, vai até quarta-feira, não é aberta à imprensa e seu local não foi divulgado publicamente. Organizadores citados na mídia dizem que os participantes são oriundos dos círculos acadêmicos, tecnológicos e religiosos.
Cofundador da Palantir Technologies, empresa de software de IA com laços profundos com as agências de defesa e inteligência norte-americanas, Thiel tem dedicado, nos últimos anos, atenção crescente a ideias religiosas e filosóficas.
No ano passado, ele realizou uma série semelhante de palestras em San Francisco, explorando a possibilidade de o Anticristo -- figura que se opõe ou nega Cristo -- surgir no cenário global.
Em particular, Thiel disse que teme o surgimento de um Anticristo que criará um governo mundial único com a promessa de algo como impedir desastres nucleares, de IA ou induzidos pelo clima.
Thiel, 58 anos, cresceu em uma família cristã evangélica e diz que o cristianismo molda sua visão de mundo.
Sua visita à Itália chamou a atenção da Igreja Católica Romana, que, sob o comando do papa Leão, o primeiro pontífice norte-americano, já criticou abertamente algumas das políticas de direita de Trump. Leão também alertou sobre os perigos representados pela IA.
As universidades católicas de Roma negaram especulação da imprensa de que poderiam sediar o evento e não há nenhuma reunião programada entre Thiel e o papa, de acordo com a agenda oficial do papa.
O padre Paolo Benanti, que aconselha o papa sobre inteligência artificial, escreveu em um ensaio publicado no sábado que Thiel opera como um "teólogo político" dentro do Vale do Silício.
"Toda a ação de Thiel pode... ser lida como um ato prolongado de heresia contra o consenso liberal: um desafio aos próprios fundamentos da coexistência civil, que ele agora considera ultrapassados", escreveu Benanti no site Le Grand Continent em artigo intitulado "Heresia norte-americana: Peter Thiel deveria ser queimado na fogueira?"
Um jornal de propriedade da conferência episcopal italiana, o L'Avvenire, também publicou uma série de artigos na semana passada que criticavam fortemente Thiel.
Um artigo advertia que os líderes tecnológicos não deveriam ter permissão para definir seus próprios limites éticos, argumentando que os governos deveriam defender a supervisão democrática das plataformas digitais e resistir à disseminação da desinformação.
Thiel mantém laços estreitos com figuras em Washington, incluindo o vice-presidente JD Vance, ele próprio um católico convertido. A presença de Thiel em Roma segue uma série de visitas à Itália de figuras proeminentes ligadas ao movimento conservador norte-americano, incluindo Steve Bannon, Elon Musk e o próprio Vance.
Não há nenhuma reunião programada entre Thiel e a primeira-ministra Giorgia Meloni, de acordo com a agenda de Meloni.