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Compartilhamento de inteligência nos EUA sofreu rupturas sob Trump, dizem autoridades

3 nov 2026 - 10h12
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Resumo
Durante o segundo mandato de Donald Trump, o compartilhamento de inteligência dos EUA com o governo e o Congresso sofreu graves rupturas devido a atritos entre a CIA e o ODNI, antes chefiado por Tulsi Gabbard. Tensões internas, cortes de pessoal e o temor de retaliações políticas por discordâncias com a Casa Branca reduziram análises conjuntas e o fluxo de dados sobre ameaças globais como o Irã, gerando receios de falhas estratégicas semelhantes às observadas antes do 11 de Setembro.

O compartilhamento de informações de inteligência dos EUA sobre o ‌Irã e outras ameaças globais com o Congresso e em todo o governo federal diminuiu e, em alguns casos, foi temporariamente interrompido durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, segundo oito autoridades atuais e antigas, além de pessoas a par do assunto.

Ex-funcionários e especialistas externos afirmaram que essas interrupções correm o risco de deixar os formuladores de políticas com uma visão incompleta das ameaças que o país enfrenta, repetindo as falhas de inteligência expostas após os ataques da Al-Qaeda em 11 de setembro de 2001. A desaceleração ocorre no momento em que o ⁠governo avalia se deve retomar os ataques ao Irã após as eleições de meio de mandato na terça-feira.

Os problemas surgiram durante o mandato de Tulsi ‌Gabbard como diretora de inteligência nacional, em meio a profundas tensões entre seu gabinete e a CIA. Embora essas tensões tenham diminuído desde sua renúncia em junho, os problemas decorrentes do conflito persistem, segundo duas autoridades dos EUA familiarizadas com o assunto.

A CIA deixou de elaborar ‌avaliações em conjunto com o Conselho Nacional de Inteligência (NIC), um grupo analítico dentro do Gabinete ‌do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI), afirmaram as autoridades, reduzindo o número de relatórios que reúnem as opiniões da comunidade de inteligência ⁠para os tomadores de decisão sobre assuntos que incluem o Irã.

Parlamentares e suas equipes também deixaram de receber, por um breve período, relatórios de inteligência do gabinete de Gabbard nos dias seguintes à intervenção militar dos EUA no Irã, em junho de 2025, e novamente após a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, segundo duas pessoas a par do assunto. A equipe de Gabbard havia acusado os parlamentares de vazar informações para a imprensa.

A interrupção no compartilhamento de informações de inteligência não havia sido relatada anteriormente.

A porta-voz da CIA Liz Lyons ‌afirmou que a CIA "participa plenamente" do processo de fornecimento de avaliações de inteligência por meio do Resumo Diário Presidencial, liderado pelo ODNI, e por meio ‌do NIC.

Atualmente, alguns ex-funcionários estão trabalhando de forma ⁠bipartidária na Hoover Institution, da Universidade ⁠de Stanford, para elaborar planos de reconstrução da comunidade de inteligência no próximo governo, afirmaram quatro ex-autoridades dos EUA.

"Todas essas questões se somam em um mundo ⁠realmente complexo, no qual os formuladores de políticas precisam ter uma visão mais sofisticada, ‌matizada e integrada do mundo, e estão recebendo ‌cada vez menos", disse Beth Sanner, ex-diretora adjunta de inteligência nacional durante o primeiro mandato de Trump.

DISPUTAS DE JURISDIÇÃO E COOPERAÇÃO REDUZIDA

Os problemas dentro da comunidade de inteligência começaram no ano passado, em meio a cortes significativos nas agências de segurança nacional, incluindo o ODNI e a CIA, à medida que Trump passava a destituir ou marginalizar autoridades que considerava desleais.

Alguns analistas que permanecem nas ⁠agências de inteligência agora tomam cuidado para não redigir avaliações que contrariem as visões da Casa Branca, por medo de retaliação política, afirmaram dois ex-funcionários e um funcionário atual dos EUA. Eles não especificaram quais temas os analistas estavam evitando.

"Os analistas ainda fazem o trabalho, mas esta Casa Branca os tornou irrelevantes porque o presidente trata informações indesejáveis como deslealdade", disse Julia Curlee, ex-analista da CIA que afirmou ter sido demitida do Conselho de Segurança Nacional de Trump no ano passado por ser ‌transgênero.

A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário.

A situação foi agravada pelo que as autoridades descreveram como uma das maiores disputas de jurisdição das últimas três décadas entre duas das agências mais importantes: a CIA e o ODNI, que foi criado após os ataques ⁠de 11 de setembro.

A Reuters já havia detalhado anteriormente a disputa entre as agências.

A disputa interna entre as agências — desencadeada quando o gabinete de Gabbard revogou as autorizações de segurança de funcionários atuais e antigos da inteligência há um ano — chegou a um ponto em que a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, teve que intervir várias vezes para acalmar os ânimos, segundo três ex-funcionários.

O Conselho Nacional de Inteligência, que há décadas tem sido um recurso fundamental para autoridades e parlamentares na tomada de decisões de política externa, perdeu seu principal autor quando a CIA deixou de contribuir com as avaliações no ano passado.

As avaliações têm como objetivo consolidar as visões das 18 agências de inteligência do país, e o conselho dependia fortemente da CIA para análises sobre temas como o Irã e a Rússia.

Embora a CIA siga compartilhando informações de inteligência com o NIC e colaborando com ele em alguns relatórios, seus analistas se concentraram em suas próprias avaliações.

Desde essa mudança, o conselho de inteligência, que também foi afetado por cortes de pessoal, desacelerou a produção de suas avaliações, disseram duas pessoas a par do assunto. Nenhuma delas se concentrou na guerra no Irã, afirmaram cinco autoridades atuais e antigas.

Em resposta a um pedido de comentário, um funcionário do ODNI afirmou que o grupo manteve os níveis de avaliação próximos às "linhas de tendência históricas".

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