Plano de Trump para deportar afegãos expõe refugiados a risco de vida, alerta ONG
A situação parece tão absurda quanto incerta. Os talibãs cobram dos Estados Unidos respeito aos direitos de cidadãos afegãos após revelações do The New York Times de que o governo Trump pretende expulsar dezenas de migrantes do país. ONGs ouvidas pela RFI criticam a decisão e afirmam que os refugiados correm risco de vida caso retornem ao Afeganistão.
A ONG AfghanEvac alerta que um plano dos EUA para deportar mais de 150 afegãos via Paquistão põe vidas em risco. O grupo inclui antigos colaboradores das forças americanas e familiares que temem represálias do Talibã, apesar de promessas de anistia. Sem confirmação oficial de Washington, a rota também preocupa pela guerra entre afegãos e paquistaneses, além do temor de abrir um precedente que ameace mais de mil refugiados retidos no Catar sob ordens de repatriação semelhantes.
Com informações de Nicolas Rocca, da RFI em Paris, e AFP
De acordo com o jornal americano, mais de 150 afegãos poderiam ser enviados ao Afeganistão, atualmente controlado pelas autoridades talibãs. Entre eles estão pessoas que colaboraram com as forças americanas antes da retirada dos Estados Unidos do país, em 2021, assim como seus familiares.
Os Estados Unidos não podem realizar deportações diretas para o Afeganistão. Por isso, os migrantes expulsos seriam enviados inicialmente ao Paquistão antes de seguir viagem. O problema é que os dois países vizinhos estão em guerra e mantêm praticamente toda a fronteira fechada.
Até o momento, nenhum dos governos, americano ou paquistanês, confirmou oficialmente a informação, mas os talibãs manifestaram preocupação nesta segunda-feira. Eles afirmaram não ter sido informados sobre qualquer plano.
"O Emirado Islâmico do Afeganistão expressa sua profunda preocupação diante das informações segundo as quais os Estados Unidos pretendem expulsar para o Paquistão alguns refugiados afegãos que ainda não conseguiram obter um status legal de residência naquele país", declarou Abdul Qahar Balkhi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores afegão, em comunicado.
Afegãos expulsos correm risco de vida
A possível expulsão é criticada pela organização AfghanEvac, que trabalha na proteção e reintegração dos antigos aliados afegãos de Washington durante as duas décadas de guerra que opuseram os Estados Unidos e as forças da antiga República Afegã aos insurgentes talibãs.
Segundo a ONG e a imprensa americana, os migrantes seriam expulsos ainda esta semana. "O voo está previsto para decolar por volta das 19h no dia da eleição (3 de novembro)", afirma Shawn VanDiver, veterano do Exército americano e presidente da AfghanEvac.
"Ninguém pensou em discutir essa deportação com as pessoas que governam o Afeganistão", criticou, ao comentar o comunicado divulgado nesta segunda-feira (2) pela diplomacia talibã.
Cabul garante que não perseguirá seus cidadãos após o retorno ao país. Mas, segundo Shawn VanDiver, essas pessoas correm perigo. "Os talibãs dizem que os Estados Unidos devem respeitar os direitos humanos, mas são eles próprios que cometem assassinatos", lembra. Ele cita o caso de três mulheres e de pessoas que ajudaram o Exército americano que serão expulsas, embora suas ordens de deportação tivessem sido suspensas.
Outra preocupação da ONG é que essa rota de deportação via Paquistão abra um precedente. "Eles também podem passar a enviar por esse caminho as pessoas que estão retidas no Catar."
Mais de mil afegãos, ex-colaboradores das Forças Armadas dos Estados Unidos e seus familiares, permanecem em um campo de acolhimento no Catar. Em sua grande maioria, são mulheres e crianças que vivem há um ano em alojamentos temporários, sob o medo constante de serem enviadas de volta ao Afeganistão.
Guerra entre Afeganistão e Paquistão
Afeganistão e Paquistão vivem um conflito aberto desde outubro de 2025, quando confrontos deixaram dezenas de mortos e levaram ao fechamento quase total da fronteira terrestre entre os dois países.
Após várias tentativas de mediação, os confrontos diminuíram, mas nunca cessaram completamente. No fim de fevereiro, a situação evoluiu para uma guerra aberta.
O Paquistão acusa as autoridades talibãs afegãs de abrigar e apoiar o grupo jihadista Tehreek-i-Taliban Pakistan (TTP), criado em 2005 e responsável por ataques mortais em território paquistanês, acusação que Cabul nega.
Expulsão de migrantes afegãos de outros países
Nos últimos anos, Alemanha e Turquia também deportaram cidadãos afegãos diretamente para o Afeganistão, apesar das preocupações manifestadas por organizações de defesa dos direitos humanos sobre os riscos enfrentados pelos repatriados. A França e outros países europeus também negociam com Cabul a repatriação de migrantes afegãos em situação irregular.
O governo talibã decretou anistia para pessoas que serviram nas instituições da antiga República Afegã, mas a ONU documentou diversas detenções desses ex-funcionários nos últimos anos.
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