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Como os rebeldes houthis do Iêmen, aliados do Irã, conquistaram as principais cidades do país

No Iêmen, o confronto entre os houthis e as forças governamentais apoiadas por uma coalizão internacional continua. Mas quem são os houthis? Quais são suas origens e sua ideologia? Como conquistaram o controle das principais cidades do país? E como exercem o poder nas áreas sob seu domínio?

28 set 2026 - 12h30
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Resumo
Surgidos nos anos 1990 como movimento da minoria xiita zaidita, os rebeldes houthis expandiram seu poder no Iêmen ao se aliarem taticamente ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh, tomando a capital Sanaa em 2014. Aliados ao Irã, eles hoje governam com forte repressão as áreas mais populosas do país, onde vivem dois terços dos habitantes. Essa ascensão consolidou-se devido ao colapso do governo local, às divisões internas da coalizão árabe rival e ao controle de rotas estratégicas no Mar Vermelho.

Guilhem Delteil, da redação da RFI em Paris

O ex-presidente do Iêmen Ali Abdullah Saleh era conhecido por sua habilidade estratégica, que lhe permitiu permanecer no poder por 34 anos. Sua relação com os houthis ilustra o oportunismo político que marcou seu governo. Ele foi um dos principais adversários do grupo e depois tornou-se um dos arquitetos de suas conquistas territoriais. Mas isso não impediu que o ex-chefe de Estado fosse morto em um ataque realizado pelos rebeldes.

Os houthis surgiram nos anos 1990 no extremo norte do Iêmen, em torno da cidade de Saada, reduto histórico da comunidade zaidita. Essa minoria religiosa ligada ao islamismo xiita governou o país durante séculos, até 1962, quando uma revolução derrubou o imamato e instituiu uma república.

O movimento houthi "faz parte de uma redescoberta da identidade zaidita, marginalizada pela República. Uma nova geração, chamada de 'juventude crente', procurou trazer essa identidade para o centro do debate", explica Laurent Bonnefoy, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e do CERI-Sciences Po.

"Os houthis difundiram o mito de que teriam sido marginalizados pelo governo central. Na realidade, foram eles que decidiram se afastar da autoridade estatal após o fim da guerra civil", explica Abdulghani Al-Iryani, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos de Sanaa, relativiza essa interpretação

A partir de 2004, o movimento entrou em conflito aberto com o governo. Ali Abdullah Saleh, então presidente, visitou Saada e participou da tradicional oração de sexta-feira, mas foi interrompido por slogans que criticavam seu alinhamento com os Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001. "Morte à América, morte a Israel. Vitória para o islamismo e maldição sobre os judeus".

Após a prisão de manifestantes, libertados à força por simpatizantes houthis, começou a série de confrontos conhecida como Guerras de Saada. Durante seis anos, os rebeldes, liderados por Hussein al-Houthi, enfrentaram as forças governamentais.

Descendentes do profeta

A família Al-Houthi, em torno da qual o movimento foi estruturado, afirma descender do profeta Maomé e, por isso, reivindica um direito divino ao poder.

"Eles acreditam que apenas os descendentes de Fátima, filha do profeta Maomé, e de seu marido Ali, primo do profeta, possuem o direito divino de governar. Todos os demais teriam sido criados por Deus para apoiar os descendentes do profeta", afirma Abdulghani Al-Iryani.

Em 2011, a Primavera Árabe chegou ao Iêmen e desencadeou protestos contra o regime autoritário. Ali Abdullah Saleh deixou o poder no ano seguinte. Em 2014, já como ex-presidente, Saleh formou uma aliança com os houthis contra um inimigo comum: o partido islamista sunita Al Islah, então predominante no movimento de contestação.

A parceria beneficiou amplamente os rebeldes. "Ao apoiar os houthis, o antigo regime de Ali Abdullah Saleh forneceu capacidade de mobilização militar, estrutura organizacional e acesso ao Estado e aos seus recursos. Isso deu aos houthis um poder repentino, que eles usaram para derrubar o governo encarregado da transição", destaca Laurent Bonnefoy.

Fortalecidos por esse apoio, os houthis avançaram rapidamente e tomaram a capital, Sanaa, em 21 de setembro de 2014.

Em 2017, surgiram tensões com Saleh, que foi morto em 4 de dezembro daquele ano. Ainda assim, a correlação de forças permaneceu favorável aos rebeldes. O governo reconhecido internacionalmente, apesar do apoio militar da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, perdeu cada vez mais território.

Embora controlem apenas uma parte minoritária do território iemenita, os houthis dominam as regiões mais populosas do país. Cerca de dois terços da população vivem nas áreas administradas pelo grupo.

Repressão

Os houthis passaram a atuar como governo de fato em parte do Iêmen, sendo reconhecidos internacionalmente apenas pelo Irã. Segundo especialistas, exercem seu poder por meio da força. "Eles recorreram ao método testado pelos imãs zaiditas ao longo dos últimos mil anos: repressão extrema. Se você se rebela, morre. Eles mataram milhares de pessoas e prenderam dezenas de milhares", afirma Abdulghani Al-Iryani.

Laurent Bonnefoy acrescenta que o grupo implementou sistemas de vigilância da população. "Há numerosas violações de direitos humanos, perseguição a minorias religiosas e a situação das mulheres foi claramente afetada pelo poder dos houthis." O movimento também é acusado de prender funcionários de organizações humanitárias e internacionais, acusando-os de espionagem.

A partir de 2019, os combates diminuíram. Uma mediação das Nações Unidas obteve um cessar-fogo em 2023, mas o processo político não conseguiu produzir um acordo de paz. "Conscientes de seu fracasso desde 2015, os sauditas desejavam encontrar uma forma de sair do atoleiro iemenita", observa Laurent Bonnefoy. "Entre 2022 e hoje, os houthis elevaram suas exigências e procuraram aproveitar a disposição saudita de abandonar o cenário iemenita."

Retomada das hostilidades

Em julho passado, um avião iraniano enviado para buscar uma delegação houthi para o funeral do líder supremo Ali Khamenei pousou no aeroporto de Sanaa.O episódio foi visto como uma provocação pelo governo iemenita e pela Arábia Saudita. Alguns dias depois, o aeroporto foi bombardeado antes da chegada do voo de retorno.

O incidente marcou a retomada dos confrontos em várias frentes. Em setembro, os houthis alcançaram um novo sucesso estratégico ao assumir o controle do estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do mar Vermelho.

De grupo rebelde regional, os houthis transformaram-se em uma força militar relevante. Seus efetivos cresceram consideravelmente. Os bombardeios sauditas alimentaram um sentimento de agressão externa que foi explorado pelo movimento. Para muitos iemenitas, a prioridade passou a ser resistir à influência saudita.

Além disso, em um país que enfrenta uma das mais graves crises humanitárias do mundo, ingressar nas forças houthis tornou-se uma das poucas formas de obter alguma renda. O grupo também conta com apoio de Teerã, que lhe fornece drones e mísseis baseados em tecnologia iraniana. Mas, segundo Laurent Bonnefoy, outro fator ajuda a explicar seus sucessos militares: a fragmentação do campo anti-houthi.

As forças adversárias estão divididas entre grupos ligados à Irmandade Muçulmana e movimentos separatistas do sul do país. Além disso, os principais aliados externos do governo, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, têm objetivos distintos.

Enquanto os sauditas priorizam o combate aos houthis, os Emirados parecem interessados principalmente em garantir presença estratégica no golfo de Áden, rota marítima fundamental para seus interesses. Esses objetivos divergentes contribuíram para o fortalecimento gradual dos houthis e para sua consolidação como ator central no conflito iemenita.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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