Escudo das Américas: tropas americanas participam de operação antidrogas no Equador
Dezenas de militares e agentes antidrogas dos Estados Unidos participaram de uma operação contra integrantes do Cartel Jalisco Nova Geração, uma das maiores organizações criminosas do México, na cidade de Samborondón, região metropolitana de Guayaquil, no Equador. A ação ocorreu poucos dias após o presidente equatoriano, Daniel Noboa, defender na Assembleia Geral da ONU uma maior cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional, e o presidente americano, Donald Trump, anunciar uma ampliação do Escudo das Américas.
Em sua primeira aparição pública no Equador, cerca de 50 agentes dos EUA apoiaram a polícia local na prisão de 39 suspeitos ligados ao Cartel Jalisco Nova Geração. A ação reflete a expansão do Escudo das Américas, aliança regional liderada por Washington contra o crime transnacional que já conta com 14 países latinos e visa 24 grupos, incluindo o PCC e o Comando Vermelho. O Brasil não aderiu à iniciativa, rejeitando a classificação de facções como terroristas e a ingerência militar externa.
Eric Samson, correspondente da RFI no Equador
A polícia equatoriana mobilizou um forte aparato para a operação. Ao todo, 320 agentes participaram das buscas em duas mansões de luxo nos arredores de Guayaquil, principal porto de exportação do país e uma das rotas do narcotráfico na região. Eles contaram com o apoio de cerca de 50 militares e agentes antidrogas americanos. Apesar de usarem máscaras para preservar suas identidades, os agentes exibiam bandeiras dos Estados Unidos nos uniformes.
A operação resultou na prisão de 39 pessoas nas províncias de Guayas, Manabí e Los Ríos. Entre os detidos estão o suposto líder e o responsável pelas finanças de uma rede ligada diretamente ao Cartel Jalisco Nova Geração.
Embora o governo de Daniel Noboa já tivesse anunciado a presença de tropas americanas no país, esta foi a primeira aparição pública desses agentes em território equatoriano. Segundo o ministro do Interior, John Reimberg, o apoio dos Estados Unidos foi decisivo para uma investigação que durou oito meses, incluindo o fornecimento de drones e equipamentos de inteligência.
Com base em um decreto assinado por Noboa em junho, militares americanos podem permanecer no Equador por até 180 dias sob um regime migratório especial e com garantias de imunidade durante suas atividades no país.
Escudo das Américas
A ação contra o braço equatoriano do Cartel Jalisco Nova Geração ocorreu dias após a ampliação do Escudo das Américas, aliança regional de segurança criada por Trump para reforçar a cooperação entre os países do continente no combate ao crime organizado transnacional.
Durante uma reunião realizada esta semana em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU, 14 países latino-americanos aderiram a uma nova etapa da estratégia liderada por Washington. O grupo reúne Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos.
O encontro também marcou a adoção de uma declaração conjunta que classifica 24 organizações criminosas como ameaças regionais e prevê instrumentos como congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização de pessoas que ofereçam apoio financeiro ou logístico a esses grupos. Entre os alvos estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do Brasil.
O governo brasileiro ficou fora da iniciativa e resiste à classificação de facções do narcotráfico como organizações terroristas. Brasília argumenta que PCC e Comando Vermelho têm objetivos essencialmente econômicos e não se enquadram na definição de terrorismo adotada pela legislação nacional. Integrantes do governo e especialistas também veem o risco de que esse enquadramento abra caminho para uma participação mais direta dos Estados Unidos em operações de segurança na região.
A operação em Samborondón dá uma dimensão concreta a esse debate. Com a presença ostensiva de agentes americanos em território equatoriano, a ação exemplifica o tipo de cooperação em segurança que Washington pretende fortalecer por meio do Escudo das Américas.
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