'Tiraram tudo de mim': investigação revela deportações em massa para o México promovidas pelo governo Trump
Uma investigação conduzida pela Forbidden Stories e por 26 veículos de comunicação parceiros, entre eles a RFI, lança luz sobre as deportações em massa realizadas pelo governo de Donald Trump desde seu retorno à Casa Branca, em janeiro de 2025. Intitulada The Deportation Project (Projeto Deportação), a apuração examina o destino de migrantes enviados para países terceiros, com foco especial no México, principal destino dessas deportações.
Entre 2025 e 2026, mais de 20 mil migrantes foram deportados dos EUA para o México por meio de uma cooperação informal entre os dois países. A maioria é de cubanos, cujas repatriações para a ilha foram recusadas, deixando-os em situação de rua, sem dinheiro e desprovidos de documentos. Especialistas denunciam a falta de transparência e de políticas de acolhimento mexicanas, o que gerou uma grave crise humanitária e empurrou milhares de pessoas para um limbo jurídico e total desamparo social.
Achim Lippold, da RFI
Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, mais de 25 mil migrantes foram deportados dos Estados Unidos para outros países. Desse total, cerca de 20 mil foram enviados ao México, que se tornou o principal destino dessas medidas. Os cubanos formam o maior grupo e frequentemente acabam presos em um limbo jurídico e humanitário.
José Alejandro Aponte Delgado, de 66 anos, é um dos deportados. O cubano viveu por 31 anos nos Estados Unidos antes de ser detido pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) devido a uma condenação relacionada a drogas ocorrida há três décadas. Após uma viagem de ônibus de 30 horas, ele foi deixado em Villahermosa, no estado mexicano de Tabasco, sem dinheiro nem contatos.
"Não recebo mais minha aposentadoria americana. Também levaram minha carteira de motorista e meu cartão do Seguro Social, que servia como documento de identidade. Levaram tudo", relatou à Forbidden Stories.
Assim como cerca de 4.300 outros cubanos expulsos desde 2025, José se encontra em uma situação de extrema vulnerabilidade, já que Cuba se recusa a receber de volta parte de seus cidadãos deportados. Em Villahermosa, a equipe da Forbidden Stories encontrou vários desses exilados forçados. Sem abrigo, alguns dormem nas ruas.
Todos descrevem uma realidade brutal: essas deportações ocorrem graças a uma cooperação informal entre os governos dos Estados Unidos e do México, sem que exista um acordo oficial que regule esse processo.
Presos em um limbo jurídico: a falta de uma política de acolhimento
Salvador Guerrero, coordenador da Clínica Jurídica Alaide Foppa, um serviço gratuito de assistência jurídica para refugiados na Cidade do México, denuncia a falta de transparência em torno dessas deportações.
"As deportações de estrangeiros para o México têm ocorrido longe dos holofotes", afirma. "Praticamente não há declarações das autoridades sobre as condições desses retornos." Segundo ele, também é quase impossível obter dados sobre deportados que não sejam cidadãos mexicanos.
Na avaliação de Guerrero, não existe uma política de acolhimento para esses migrantes. Mais grave ainda, não há uma base legal que lhes permita permanecer de forma regular no país.
"As únicas regras em vigor são voltadas para quem entrou ilegalmente no México. A lei prevê a detenção dessas pessoas e, caso não apresentem justificativas para permanecer no país, sua deportação", explica.
"Com isso, os estrangeiros deportados dos Estados Unidos acabam presos em uma espécie de limbo jurídico. Eles não têm acesso ao mercado de trabalho, não sabem se poderão retornar aos seus países de origem, não possuem documentos mexicanos e perderam seus vínculos com os Estados Unidos."
Segundo Guerrero, as autoridades mexicanas não têm condições de responder ao que se tornou uma verdadeira crise humanitária.
Após 45 anos nos Estados Unidos, Lorenzo vive nas ruas no México
A história de Lorenzo, outro cubano deportado, ilustra o drama enfrentado por muitos migrantes. Preso em Miami por consumir cerveja em um espaço público, ele foi enviado ao México devido a uma antiga ordem de deportação.
Depois de passar 45 anos nos Estados Unidos, Lorenzo se viu sem-teto e obrigado a dormir nas ruas.
"Eu moro na rua, durmo nas calçadas", contou à Forbidden Stories.
Lorenzo obteve recentemente o status de refugiado no México, mas continua sem recursos financeiros. Agora, tenta reconstruir a vida longe do país que considerava seu lar.
Procurado pela Forbidden Stories, o governo mexicano se recusou a comentar as revelações sobre a deportação de estrangeiros dos Estados Unidos para o México.
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