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América Latina

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Dois milhões de novos pobres na Argentina em seis meses expõem um revés no plano econômico de Milei

A pobreza na Argentina aumentou 4,1 pontos percentuais no primeiro semestre de 2026, atingindo 32,3% da população, equivalentes a 15,5 milhões de pessoas. A indigência também aumentou 1,2 pontos, afetando 7,5% da população, equivalentes a 3,6 milhões de pessoas. O primeiro aumento no número de pobres é fruto de uma combinação de aumento da inflação, da perda do poder aquisitivo, da perda do emprego formal e queda da atividade econômica nos setores que mais postos de trabalho geram.

25 set 2026 - 06h07
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Resumo
O plano econômico de Javier Milei enfrenta forte revés com o aumento de dois milhões de novos pobres no primeiro semestre de 2026, elevando a pobreza para 32,3% e a indigência para 7,5% na Argentina. O avanço decorre da inflação persistente — que encarece a cesta básica acima dos salários —, dos cortes em programas sociais e do fechamento diário de 490 empregos formais. O quadro agrava-se com a retração econômica de 2,9% em julho, que aproxima o país da recessão sob críticas à metodologia oficial.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, pessoas fazem trocas de bens, cozinham juntas para diminuir os gastos. Famílias contraem empréstimos de curto prazo para comprar mantimentos mostram as tensões sociais que surgem sob o programa de austeridade do presidente argentino Javier Milei
Em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, pessoas fazem trocas de bens, cozinham juntas para diminuir os gastos. Famílias contraem empréstimos de curto prazo para comprar mantimentos mostram as tensões sociais que surgem sob o programa de austeridade do presidente argentino Javier Milei
Foto: REUTERS - Agustin Marcarian / RFI

Nos primeiros seis meses de 2026, a Argentina passou a ter dois milhões de novos pobres ao ver subir o índice de pobreza em 32,3% da população, 4,1 pontos percentuais a mais do que o segundo semestre de 2025 (28,2%) e 0,7 pontos a mais do que o primeiro semestre do ano passado (31,6%), segundo o Instituto de Estatísticas e Censos do país (Indec).

Os dados oficiais indicam ainda que, dos novos pobres, 595 mil estão na indigência. Representam 7,5% da população, um número 1,2 ponto porcentual superior ao segundo semestre de 2025 (6,3%) e 0,6 ponto ao semestre anterior (6,9%).

O aumento da pobreza põe em questão o plano econômico do presidente Javier Milei, que convive com uma destruição diária de 490 postos de trabalho desde que assumiu em dezembro de 2023.

A pobreza atinge 24,4% dos lares argentinos, onde vivem 44,5% de todas as crianças e adolescentes até 14 anos do país, o segmento mais afetado.

Essa parcela significativa da população não ganha o suficiente para cobrir a Cesta Básica Total Familiar que inclui alimentos básicos, serviços como energia e água, além de bens essenciais como roupa e transporte para uma família com dois filhos. Os considerados indigentes não conseguem cobrir a Cesta Básica de Alimentos.

Alta da inflação

Na pobreza, impacta diretamente a evolução mensal dos preços que entre maio de 2025 e março de 2026 passou, gradativamente, de 1,5% a 3,4% e, desde então, ronda os 2% ao mês, persistentemente.

A Cesta Básica Total aumentou 19,6% no primeiro semestre do ano, acima da inflação acumulada no período em 16,8%. A tendência nos primeiros meses do segundo semestre se mantém, indicando que o problema social continua a crescer.

Nos últimos 12 meses, a Cesta Básica Total subiu 34,7%, enquanto o aumento salarial foi de 25%.

O salário mínimo teve perda real de 39,1% se comparado com o valor em dezembro de 2023, quando começou o governo Milei.

Os programas sociais também sofreram um impacto nos últimos seis meses. Alguns foram eliminados, enquanto outros tiveram perdas face ao aumento de preços.

"Cerca de 30% da população depende cada vez mais dos programas sociais. Sem isso, a pobreza extrema de 7,5% seria o dobro", calcula Agustín Salvia, diretor do Observatório da Dívida Social Argentina, da Universidade Católica.

Destruição de empregos

O mercado de trabalho atravessa um período de acelerada destruição do emprego formal desde o começo do governo Milei. Em média, são eliminados 460 postos de trabalho diariamente em unidades produtivas. Somados aos 30 empregos domésticos perdidos diariamente em média, a cada quatro minutos uma pessoa fica sem emprego formal no país.

"A inflação, a deterioração do mercado de trabalho, a menor atividade econômica e o menor consumo empurram ao aumento da pobreza. Estamos num ponto complexo do ponto de vista social. As pequenas e médias empresas, as que mais empregam, não estão criando emprego", indica Agustín Salvia, uma referência na matéria.

Em paralelo à publicação do índice de pobreza, o Indec divulgou que a atividade econômica encolheu 2,9% em julho, a maior queda mensal dos últimos seis anos. Nos últimos 12 meses, o recuo é de 1,4%.

É necessário voltar a abril de 2020 (-15,8%), no auge da pandemia, para encontrar um número tão negativo. Sem considerar esse mês atípico, é preciso recuar a abril de 2018 (-3,2%). Desde que a medição começou em 2004, apenas cinco meses foram mais negativos nos últimos 22 anos.

Desabam os setores que mais empregam na economia (comércio, indústria e construção). O mercado se prepara para entrar em recessão técnica ao terminar setembro e somar dois trimestres consecutivos de uma economia que encolhe e que vê o investimento externo direto (IED) diminuir a mínimos históricos há 13 meses.

"O cenário futuro apresenta riscos significativos e poderia manter a pobreza em alta", aponta o relatório "Evolução da Incidência da Pobreza e da Indigência" do Centro de Economia Política Argentina (CEPA) publicado nesta sexta-feira (25).

"As cestas básicas continuam num nível elevado (acima da inflação). Estima-se um aprofundamento das perdas do poder aquisitivo do salário mínimo e dos planos sociais (cujo montante permanece congelado). A aposentadoria mínima também continuará a perder poder de compra", prevê o estudo.

Números contraditórios

O CEPA também ressalta que a queda do índice de pobreza registrada até o ano passado foi fruto de uma mudança na metodologia do estudo no começo do governo Milei.

"Essa melhora estatística — e não uma melhora real no bem-estar dos lares — explica uma parte significativa da diminuição registrada da pobreza", conclui a análise.

O governo Milei passou a medir com mais detalhe a receita gerada pelo trabalho informal, o único que tem crescido no país devido à destruição do emprego formal. Os dados oficiais indicam que esse segmento informal teve aumento real do salário, quando outras medições indicam que, quem sai do sistema formal ao informal, tem uma perda de, pelo menos, 35% na remuneração.

Além disso, Milei impediu a aplicação da nova fórmula para o cálculo do aumento de preços, acertada com o FMI. Na nova metodologia, os serviços têm mais peso, justamente o item que teria mais aumento em 2026. A atual inflação mede itens como DVD e fitas VHS, distorcendo o verdadeiro valor da inflação mensal.

"Ao analisar a evolução do salário do emprego não-registrado (informal) publicada mensalmente pelo Indec, observa-se que, entre a posse de Milei e março de 2026, esse segmento salarial cresceu 36,3% em termos reais, desvinculando-se significativamente do resto dos trabalhadores. Os salários do emprego não-registrado ganharam quase 37 pontos acima da inflação?", questiona o relatório para logo afirmar: "Isso entra em contradição com o contexto econômico e com o próprio relatório do mercado de trabalho, publicado pelo Indec, no qual o mercado se contrai, as taxas de emprego caem e o desemprego aumenta".

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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