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Como Donald Trump poderia 'tomar' a Groenlândia?

A Casa Branca declarou que está analisando diversas opções para assumir o controle da ilha, incluindo a via militar. Quais seriam essas alternativas e qual a possibilidade de sucesso de cada uma?

8 jan 2026 - 18h22
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Pesquisas indicam que muitos moradores da Groenlândia apoiam a independência da Dinamarca, mas poucos querem fazer parte dos Estados Unidos
Pesquisas indicam que muitos moradores da Groenlândia apoiam a independência da Dinamarca, mas poucos querem fazer parte dos Estados Unidos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer tomar posse da Groenlândia. E a Casa Branca confirmou que todas as opções estão na mesa, incluindo o uso da força.

Uma eventual operação militar é apenas uma dentre diversas opções políticas e econômicas em consideração.

O ataque de um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra outro representaria um pesadelo para a aliança militar formada por 32 países — e, provavelmente, uma ameaça à sua própria existência.

Trump vem declarando repetidamente que a Groenlândia é fundamental para a segurança nacional americana. Ele afirmou, sem mostrar evidências, que a ilha está "coberta de navios russos e chineses por toda parte".

Com o auxílio de especialistas americanos, britânicos e dinamarqueses, a BBC examinou as diversas opções que o presidente pode vir a buscar e as possíveis justificativas para cada uma delas.

Mapa mostrando a localização da Groenlândia e da sua capital Nuuk, em relação à Dinamarca, ao Canadá e aos Estados Unidos e sua capital, Washington.
Mapa mostrando a localização da Groenlândia e da sua capital Nuuk, em relação à Dinamarca, ao Canadá e aos Estados Unidos e sua capital, Washington.
Foto: BBC News Brasil

Ação militar

Analistas do setor de defesa afirmam que uma operação relâmpago para ocupar a Groenlândia poderia ser relativamente fácil, mas suas consequências seriam monumentais.

Geograficamente, a ilha é imensa, mas sua população é de apenas cerca de 58 mil pessoas. Um terço delas mora na capital, Nuuk, e o restante se concentra principalmente na costa oeste.

O território não tem forças armadas próprias e a Dinamarca é responsável pela sua defesa. Mas seu poderio aéreo e naval é limitado para cobrir um território tão extenso.

Grandes partes da ilha são fiscalizadas apenas pela Patrulha Sirius, uma unidade de operações especiais da Dinamarca que emprega principalmente trenós puxados por cães.

Mas, no ano passado, a Dinamarca aumentou significativamente seus gastos com a defesa do Ártico e do Atlântico Norte, incluindo a Groenlândia.

Mapa da Groenlândia mostrando a localização das bases militares dinamarquesas e americanas e as principais cidades da ilha. A Base Espacial americana de Pituffik está marcada no extremo noroeste, com um ponto vermelho. O Comando Conjunto Dinamarquês do Ártico em Nuuk está assinalado na costa sudoeste, com um ponto azul. Diversos pontos azuis adicionais mostram outros locais de presença militar dinamarquesa ao longo do litoral leste e oeste. Pontos verdes assinalam cidades com mais de 1 mil habitantes, principalmente ao longo da costa oeste e sudoeste. Um pequeno mapa inserido destaca a localização da Groenlândia no Ártico, entre a Europa e a América do Norte.
Mapa da Groenlândia mostrando a localização das bases militares dinamarquesas e americanas e as principais cidades da ilha. A Base Espacial americana de Pituffik está marcada no extremo noroeste, com um ponto vermelho. O Comando Conjunto Dinamarquês do Ártico em Nuuk está assinalado na costa sudoeste, com um ponto azul. Diversos pontos azuis adicionais mostram outros locais de presença militar dinamarquesa ao longo do litoral leste e oeste. Pontos verdes assinalam cidades com mais de 1 mil habitantes, principalmente ao longo da costa oeste e sudoeste. Um pequeno mapa inserido destaca a localização da Groenlândia no Ártico, entre a Europa e a América do Norte.
Foto: BBC News Brasil

Suas vastas dimensões, pequena população e a ausência de forças armadas fariam da Groenlândia um alvo fácil para os EUA, que já possuem mais de 100 militares permanentemente baseados na base de Pituffik, no extremo noroeste da ilha.

Teoricamente, aquela instalação poderia servir de base logística para operações futuras.

A base de Pituffik existe desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tropas americanas se deslocaram para a ilha para estabelecer estações de rádio e postos militares, quando os nazistas ocuparam a Dinamarca durante o conflito.

O especialista em segurança dinamarquês Hans Tito Hansen é o diretor-executivo da empresa Risk Intelligence. Ele descreve como poderá ser uma eventual operação militar americana para a tomada da Groenlândia.

Para Hansen, a 11ª Divisão Aérea, com base no Alasca, ofereceria a "capacidade primária" para uma eventual invasão, "apoiada pela força aérea e pela marinha".

A base inclui duas brigadas do Ártico, capazes de missões lideradas por helicópteros ou paraquedistas.

O oficial da reserva do exército britânico Justin Crump concorda com esta avaliação. Ele dirige a empresa de risco e inteligência Sibylline.

"Os Estados Unidos detêm poderio naval extraordinário e a capacidade de transportar grande número de soldados", explica Crump.

"Você poderia facilmente levar soldados em quantidade suficiente para ter um para cada poucos habitantes em um único voo."

Ele destaca que esta seria uma opção cruel, mas possivelmente não derramaria sangue, pois é provável que haveria pouca resistência.

O território da Groenlândia é imenso, mas sua população é escassa. Por isso, uma eventual operação militar seria rápida
O território da Groenlândia é imenso, mas sua população é escassa. Por isso, uma eventual operação militar seria rápida
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Nos Estados Unidos, diversas ex-autoridades e analistas de defesa declararam que uma eventual operação militar é extremamente improvável, considerando suas abrangentes implicações para as alianças entre os Estados Unidos e a Europa.

"Seria claramente contra todas as leis internacionais", afirma o ex-fuzileiro naval Mick Mulroy, que já foi oficial paramilitar da CIA (serviço americano de inteligência estrangeira) e secretário adjunto de Defesa dos Estados Unidos.

"Além de não representarem ameaça para os Estados Unidos, eles também são aliados em tratados internacionais."

Se a Casa Branca começar a preparar uma operação militar, Mulroy acredita que haveria resistência dos legisladores americanos.

Eles poderiam evitar as ações usando a Lei dos Poderes de Guerra, criada para limitar a capacidade do presidente de ir à guerra sem aprovação do Congresso.

"Não acredito que haveria apoio no Congresso para destruir a Otan", declarou ele.

Comprar a Groenlândia

Os Estados Unidos têm muito dinheiro no bolso, mas tanto Nuuk quanto Copenhague afirmam que a Groenlândia não está à venda.

Mencionando um legislador e uma fonte familiar com as discussões, a rede de TV CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, noticiou que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou aos congressistas que a compra é a opção preferida do governo Trump.

Mas, mesmo se a Groenlândia quisesse ser vendida, essa transação seria muito complicada.

O Congresso americano precisaria provisionar os fundos e comprar a Groenlândia por tratado exigiria a aprovação de dois terços do Senado, o que seria muito difícil de conseguir, segundo os especialistas.

A União Europeia também precisaria aprovar o acordo.

A base americana de Pituffik, na Groenlândia, foi criada para estabelecer estações de rádio e postos militares, quando os nazistas ocuparam a Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial
A base americana de Pituffik, na Groenlândia, foi criada para estabelecer estações de rádio e postos militares, quando os nazistas ocuparam a Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial
Foto: AFP / BBC News Brasil

Trump poderia teoricamente tentar firmar um acordo unilateralmente, sem envolver a Groenlândia ou o Congresso. Mas os especialistas acreditam que é extremamente improvável.

A professora Monica Hakimi, especialista em direito internacional da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, declarou que "é possível imaginar uma situação" em que a Dinamarca, os Estados Unidos e a Groenlândia concordam com os termos de transferência do território.

"Mas, para ser totalmente consistente com o direito internacional, esse tratado provavelmente também precisaria envolver a participação dos groenlandeses para sua autodeterminação", destacou ela.

Não está claro quanto custaria a compra da ilha. Este fator poderia complicar o processo para Trump, que baseou sua campanha presidencial no lema "América em primeiro lugar".

A perspectiva de gastar bilhões ou até trilhões de dólares de impostos em uma ilha coberta de gelo poderá cair muito mal na sua base Maga ("Make America Great Again" — tornar a América grande novamente, em tradução livre).

Crump, da Sibylline, acredita que o eventual fracasso na compra da ilha poderia tornar a opção militar mais atraente para Trump, talvez impulsionado pelo recente sucesso da operação americana na Venezuela, que levou Nicolás Maduro à prisão.

"Ele dirá 'bem, vamos então tomá-la'."

Rubio se reunirá com autoridades dinamarquesas na semana que vem, para discutir sobre a Groenlândia. Ele declarou que Trump "não é o primeiro presidente americano a examinar ou observar como poderíamos adquirir" o território.

Ele se refere ao ex-presidente Harry Truman (1884-1972). Em 1946, ele levantou a ideia de pagar US$ 100 milhões (cerca de R$ 540 milhões, pelo câmbio atual) em ouro pela compra da Groenlândia.

Uma campanha para conquistar os groenlandeses

As pesquisas de opinião indicam que a maioria dos groenlandeses deseja a independência da Dinamarca. Mas elas também sugerem que eles não querem fazer parte dos Estados Unidos.

Ainda assim, os Estados Unidos poderiam concentrar esforços para convencer a população local com incentivos financeiros de curto prazo ou com a perspectiva de benefícios econômicos no futuro.

Notícias veiculadas na imprensa americana indicam que agências de inteligência dos Estados Unidos já passaram a acompanhar mais de perto o movimento pela independência da Groenlândia, tentando identificar figuras que possam apoiar os objetivos do governo americano.

O especialista em geoestratégia Imran Bayoumi, do Conselho do Atlântico em Washington DC, é ex-consultor político do Departamento de Defesa dos EUA.

Ele declarou à BBC que é muito mais viável uma "campanha de influência" do que qualquer ação militar. Bayoumi explica que essa campanha poderá ajudar a incentivar a Groenlândia rumo à independência.

"E, depois que a Groenlândia declarar independência, você poderá ter o governo americano como parceiro", explica ele. "Os custos de uma ação militar são altos demais."

Este tipo de parceria tem precedentes.

Os Estados Unidos firmaram, por exemplo, um acordo similar com Palau, a Micronésia e as ilhas Marshall, três nações independentes do Pacífico que concederam aos americanos acesso a direitos de defesa. Em troca, os cidadãos dos três países têm a oportunidade de morar e trabalhar nos Estados Unidos.

Mas esta solução pode não satisfazer Trump, que já detém o poder de trazer quantas tropas quiser para a Groenlândia, com base nos acordos existentes.

E um acordo desta natureza não ofereceria aos Estados Unidos o direito de propriedade das vastas reservas minerais da Groenlândia, enterradas em solo profundo, embaixo do gelo do Ártico.

Hansen defende que uma eventual campanha para "ter" a Groenlândia, sem ações militares, não terá sucesso enquanto a população da ilha se opuser à ideia.

E, por enquanto, nenhum partido político local defende que o território passe a fazer parte dos Estados Unidos.

"É mais provável que a Groenlândia [independente] volte a fazer parte da União Europeia", afirma ele. "E o governo atual dos Estados Unidos tem apenas três anos restantes de mandato, enquanto o povo da Groenlândia talvez tenha um horizonte de 1 mil anos pela frente."

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