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Remédio proibido nos anos 80 vira "droga dos jihadistas"

25 nov 2015 - 08h00
(atualizado às 09h54)
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Ela é conhecida como a "droga dos jihadistas" na Síria. Tida como fonte de coragem e artifício para superar medo e dor, a droga tem sido amplamente usada por combatentes que lutam na guerra civil do país.

A droga, bastante popular no Oriente Médio, é fabricada em grandes quantidades na Síria e no Líbano. Segundo especialistas, sua produção tem ajudado a alimentar o conflito sírio, gerando milhões de dólares em lucro para fabricantes no país.

As pílulas contêm anfetamina e cafeína e se tornaram uma das favoritas entre combatentes. "(Ela) proporciona aos soldados uma energia sobre-humana e coragem", disse um ex-combatente sírio à BBC.

O captagon era a marca comercial do cloridrato de fenetilina. Sua produção teve início em 1963 para tratar narcolepsia (sonolência) e depressão. Mas a substância foi proibida na década de 1980 por ser altamente viciante.

As duas famílias foram barradas quando foram acusadas de estarem fugindo para regiões controladas pelo EI na Síria
As duas famílias foram barradas quando foram acusadas de estarem fugindo para regiões controladas pelo EI na Síria
Foto: Divulgação/BBC Brasil

Essa dependência também pôde ser observada na Síria."Alguns ficaram viciados, esse é o problema", disse um outro ex-combatente, que fazia parte de um grupo de cerca de 350 pessoas que receberam os comprimidos sem saber exatamente do que se trava.

Seu uso alivia dor, cansaço, sono e fome, e prolonga o estado de atenção. "Me sentia o dono do mundo, como se tivesse um poder que ninguém tem", disse um consumidor à BBC no documentário A Droga da Guerra da Síria, transmitido em setembro.

Outro disse: "Eu não sentia mais medo depois de tomar o captagon".

Além da dependência, os efeitos colaterais podem incluir um estímulo excessivo do sistema nervoso central e psicose, segundo especialistas.

Droga que financia combate

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) já apontava em 2010 que a "frequência e o tamanho" das apreensões de captagon estavam "aumentando", e que elas ocorriam, cada vez mais, no Oriente Médio.

Fatos recentes contribuem com esse diagnóstico. Na sexta-feira, autoridades turcas apreenderam 10,9 milhões de unidades da droga perto da fronteira com a Síria, um recorde, segundo o Ministério do Interior do país, citado pela imprensa local.

Em outubro, duas toneladas de pílulas foram apreendidas no aeroporto de Beirute, Líbano. A droga estava dentro de malas que eram colocadas em um avião particular. Dez pessoas estão sendo processadas, inclusive um príncipe saudita, que não foi identificado.

A Síria foi, por muito tempo, rota de trânsito das drogas procedentes de Europa, Turquia e Líbano rumo a países ricos do Golfo Pérsico, disse o UNODC. Agora, o país testemunha o crescimento da popularidade do captagon em seu próprio território.

"Desde os extremistas do grupo autodenominado Estado Islâmico até membros do grupo rebelde Al-Nusra e também soldados do Exército Livre da Síria (usam a droga)", disse um traficante em reportagem do canal de TV franco-alemão Arte, em maio de 2015.

EI promete vingar bombardeios franceses contra seu reduto na Síria:

"Os combatentes a utilizam para controlar seus nervos e também aumentar seu rendimento sexual", contou, com o rosto coberto.

Rawdan Mortada, jornalista libanês que cobre a guerra na Síria, disse que o consumo do captagon se tornou popular com o início do conflito, em 2011, e que a droga serve, também, como financiamento das operações militares.

"As milícias na Síria consumem uma parte e exportam outra, especialmente aos países do Golfo. O lucro permite que elas financiem a compra de armas e operações militares".

O consumo de drogas em conflitos, no entanto, não é novidade.

"O uso de anfetaminas tem uma grande tradição em contextos bélicos", disse Claudio Vidal, integrante do Energy Control, da Associação de Bem Estar e Desenvolvimento, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

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