Brasileiros vão decidir nas urnas 'entre democracia e negacionismo', diz Lula em tribuna da ONU
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22), em Nova York, o debate de líderes da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas com duras críticas ao funcionamento da organização e uma defesa da soberania brasileira. Em discurso na tribuna da ONU, criticou interferências externas, e mandou recado direto para os eleitores brasileiros, a menos de duas semanas das eleições no país.
Na ONU, Lula defendeu a soberania brasileira e o multilateralismo, criticando a paralisia do Conselho de Segurança nas guerras de Gaza e Ucrânia. Rejeitou interferências externas, tarifas coercitivas e pressões sobre o PIX e recursos minerais. O presidente também alertou contra a desinformação nas eleições do país, defendeu a regulação das Big Techs, a cooperação contra o crime organizado e pautas sociais internas, como o fim da escala 6x1 e a proteção aos trabalhadores.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Na parte final do pronunciamento, Lula alertou sobre a importância do pleito de 4 de outubro. Segundo o presidente, os brasileiros vão decidir "entre democracia e negacionismo", mas também se o país seguirá "rumo a um futuro de mais oportunidades" ou voltará a "um passado de exclusão".
Lula afirmou que o Brasil terá eleições "transparentes e competitivas", mas acusou, sem citar nomes, alguns atores políticos de se associarem a interesses estrangeiros contrários ao país. "Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto", afirmou.
"Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém... Ninguém nos afastará desse caminho", martelou.
"O Brasil não cabe no quintal de ninguém"
Sem citar diretamente o presidente norte-americano, Donald Trump, Lula fez várias referências à atuação dos Estados Unidos e à relação de Washington com a América Latina. Ao falar da região, afirmou que a proximidade geográfica com "a maior potência militar do mundo é inescapável", sobretudo em um contexto que classificou como de "recrudescimento de tentações hegemônicas".
"O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento", declarou.
Lula também criticou interferências estrangeiras em eleições e o que chamou de "investidas neocoloniais" em busca de recursos estratégicos. "A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse.
Combate ao crime organizado
Outro dos principais trechos do discurso foi dedicado ao combate ao crime organizado. Lula afirmou que o Brasil não subestima a ameaça representada pelas organizações criminosas, mas rejeitou a possibilidade de transferir para outros países a responsabilidade pela segurança brasileira.
"Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", afirmou.
O líder brasileiro revelou ainda ter apresentado pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. Lula também citou a Lei Antifacção e afirmou que a legislação impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.
"Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei", declarou.
Tarifas como "armas de coerção e chantagem"
As divergências comerciais com os Estados Unidos também apareceram no pronunciamento, novamente sem uma menção nominal a Trump. Lula afirmou que "os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos" e criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão. "Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas."
Mais adiante, ao falar da economia brasileira, Lula fez uma referência direta às taxas impostas: "Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações."
PIX, Big Techs e "tecno-oligarcas"
A regulação das empresas de tecnologia também ganhou espaço no discurso. Lula defendeu regras para as Big Techs e para a Inteligência Artificial e acusou um "punhado de tecno-oligarcas" de tentar ressuscitar uma versão do "neoliberalismo digital, sem regras nem transparência".
O presidente também mencionou diretamente o PIX, um dos pontos de atrito entre Brasil e Estados Unidos. "Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros."
Lula também criticou a indústria das apostas online, as chamadas bets, afirmando que sua expansão está endividando famílias e "transforma o vício em lucro".
Minerais críticos pertencem "ao povo brasileiro"
Ao tratar da transição energética, Lula também defendeu a soberania do Brasil sobre seus recursos naturais. O presidente destacou que o país possui minerais críticos e terras raras necessários para a transição energética mundial, mas afirmou que o acesso a esses recursos terá contrapartidas. "Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro - e é em benefício dele que serão exploradas", declarou.
Segundo Lula, o acesso aos minerais brasileiros terá como contrapartida obrigatória a geração de valor dentro do país, a transferência de tecnologia e o abastecimento de setores estratégicos nacionais.
Lula leva debate sobre escala 6x1 à ONU
Sobre a agenda interna, Lula defendeu na tribuna da ONU o fim da escala de trabalho 6x1 e afirmou que os trabalhadores precisam ter mais tempo para descanso, qualificação e convivência familiar. "No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana", afirmou.
O presidente relacionou a mudança à redução da sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres e também mencionou o combate ao feminicídio.
Ao longo do discurso, Lula apresentou o momento atual como uma escolha sobre o futuro da ordem internacional. Segundo o presidente, os países são chamados a optar entre "multilateralismo ou unilateralismo", "democracia ou extremismo" e "soberania ou subordinação".
Lula afirmou que uma nova corrida armamentista e o aumento das tensões geopolíticas elevam o risco de que confrontos regionais se transformem em conflitos de proporções globais. "Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo", declarou.
No encerramento, Lula voltou a defender a recuperação do papel das Nações Unidas. "Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz."
Lula diz que ONU vive seu momento mais crítico
Em sua décima participação na abertura do debate geral, Lula afirmou, no início de seu discurso, que as Nações Unidas atravessam o momento mais crítico desde que ele se pronunciou pela primeira vez na tribuna, em 2003. "A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis - que não têm exército, nem arsenais - nunca foi tão pequena."
O chefe de Estado voltou a criticar a estrutura do Conselho de Segurança, especialmente o poder de veto dos cinco membros permanentes, e afirmou que o órgão está imobilizado diante dos conflitos atuais.
Gaza, Ucrânia e a "falência da política"
Os conflitos internacionais ocuparam uma parcela importante do pronunciamento, com alertas e denúncias sobre a situação no Oriente Médio e na Ucrânia.
"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", afirmou. O presidente também criticou os assentamentos israelenses na Cisjordânia e defendeu novamente a solução de dois Estados.
Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula afirmou que, depois de cinco anos de conflito, "não haverá vencedores no campo de batalha" e defendeu uma saída negociada. "A diplomacia é a única opção", declarou, antes de citar o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, como exemplo de iniciativa voltada à busca de uma solução diplomática para o conflito.
Em uma das frases que sintetizaram sua defesa do multilateralismo, afirmou: "A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política."
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