Assassino de ex-primeiro-ministro japonês é condenado à prisão perpétua
O homem acusado de matar o ex‑primeiro‑ministro japonês Shinzo Abe foi considerado culpado nesta quarta‑feira (21) e condenado à prisão perpétua, três anos depois do crime. A sentença foi proferida pelo juiz Shinichi Tanaka em um tribunal de Nara, perto de Kyoto.
O crime, que ocorreu em plena luz do dia, provocou profunda comoção no país asiático, pouco acostumado à violência armada, e expôs os vínculos entre parlamentares conservadores e a Igreja da Unificação, também conhecida como seita Moon.
O réu Tetsuya Yamagami, de 45 anos, teria se revoltado contra Abe por acreditar que ele tinha vínculos com esse culto, originário da Coreia do Sul.
Grandes filas se formaram na manhã desta quarta-feira para conseguir acesso ao tribunal, refletindo o grande interesse público no julgamento. O homem foi acusado de assassinato e violação das leis de controle de armas por usar uma pistola caseira para matar o ex-premiê, durante um comício em julho de 2022.
Yamagami confessou o assassinato no início de seu julgamento, em outubro, embora tenha negado algumas das outras acusações, segundo a mídia japonesa.
Crime marcou os japoneses
Manabu Kawashima, um funcionário da área de logística que aguardava do lado de fora do tribunal, disse que queria "saber a verdade sobre Yamagami".
"O que aconteceu com o primeiro-ministro Abe foi o acontecimento do século. Eu gostava dele quando estava vivo; sua morte foi devastadora", disse o homem de 31 anos à AFP.
Outro homem segurava uma faixa do lado de fora do tribunal, pedindo ao juiz que "considerasse com a máxima atenção" as difíceis circunstâncias de vida de Yamagami.
Essas condições, detalhadas no julgamento, incluíram a ruína financeira da família após sua mãe doar cerca de 100 milhões de ienes à Igreja da Unificação - contribuição que desestruturou completamente o lar e marcou profundamente o réu. O processo também revelou que o irmão mais velho de Yamagami, que nutria o mesmo ressentimento contra a seita, morreu por suicídio, amplificando o impacto emocional desse histórico familiar conturbado.
Igreja da Unificação
Os promotores pediram prisão perpétua para Yamagami, classificando o assassinato como "sem precedentes" na história do "pós-guerra", e citaram as "consequências extremamente graves" para a sociedade, segundo a mídia local.
A prisão perpétua no Japão permite a possibilidade de liberdade sob fiança, embora especialistas acreditem que Yamagami morrerá na prisão.
Os promotores argumentaram no julgamento que a motivação do réu para matar Abe foi o desejo de desacreditar a Igreja da Unificação.
O julgamento revelou como as grandes doações da mãe de Yamagami para a igreja levaram sua família à falência, e ele passou a acreditar que "políticos influentes" colaboravam com a seita. Abe havia discursado em eventos organizados por grupos da igreja.
Yamagami "pensou que, se matasse alguém influente, como o primeiro-ministro Abe, poderia atrair a atenção pública para a igreja e provocar críticas a ela", disse um promotor do caso no tribunal de Nara em outubro.
A Igreja da Unificação foi fundada na Coreia do Sul em 1954 e seus membros são chamados de "moonies", em referência ao seu fundador Sun Myung Moon.
Com AFP