Por urbanização, China investe em infraestrutura de cidades do interior
Sonho chinês de rejuvenescimento do país aposta em construção e melhorias na malha de transporte nacional, que irá fomentar a migração da população rural para as cidades, escoar produtos e facilitar o trânsito de turistas. O projeto terá um aporte de US$ 1 trilhão (R$ 2,1 trilhão) anualmente até 2030 – 28% da projeção mundial.
A maior parte das metas deliberadas no Plano Quinquenal atual (que norteia as políticas nacionais de 2011 a 2015) depende da eficiência do transporte e do fluxo de capital, população e produtos dentro e fora da China. Com isso, serão construídos 8,7 mil quilômetros de trilhos para trens rápidos, 300 mil quilômetros de estradas, 50 novos aeroportos e 440 portos até 2015.
"A maior parte disso é resultado de uma corrida para se igualar às demais grandes potências mundiais", explica o cientista político Wang Zhengxu, da Universidade do Povo, de Pequim.
Um estudo feito pela consultoria KPMG publicado neste mês revela que o país, casa de 20% da população mundial, tem apenas 5,6% das estradas construídas globalmente. Hoje, a China tem 78 mil quilômetros de highways, 4,1 milhões de quilômetros de ruas pavimentadas e deverá ter 300 mil quilômetros de estradas e ruas até 2015.
"Todos os países hoje desenvolvidos passaram pelo mesmo processo de urbanização e desenvolvimento de infraestrutura. Só que a China, com seu tamanho e peso, transforma suas necessidades em um processo de construção quase megalomaníaco", aponta Wang.
Sonho da urbanização
Desde a abertura econômica iniciada em 1979, Pequim vem lutando para tirar a população do campo e construir um país urbano. Somente no ano passado, o programa atingiu a meta e, pela primeira vez na história, a China pode se chamar um país urbano, com 51,27% da sua população habitando as grandes cidades.
"Tirar as pessoas do campo não quer dizer acabar com a agricultura ou a população rural, e sim desenvolver uma imagem que é condizente ao lugar de segunda maior economia mundial", explica o especialista Zhang Bing, da Academia de Planejamento Urbano e Design de Pequim.
O sonho de urbanização é mundial. O Relatório de Monitoramento Global, publicado pelo Banco Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em abril, revela que a melhoria em assistência e serviços sociais garantida em cidades aumenta a expectativa de vida de recém nascidos em até 8%, melhora as condições de vida da população e é condição essencial para que as nações consigam atingir o plano Metas do Milênio, criado pelo BM.
O processo de urbanização experimentado com a globalização é alavancado, em especial, pela China: o país asiático conseguiu diminuir sua população pobre de 43% em 1981 para 13% em 2010 – a maior taxa de resgate da população pobre na história.
Cidades maiores, mais metrôs
Para evitar que novos grandes centros urbanos se tornem congestionados e poluídos como Pequim, Xangai e Guangzhou (as mais prestigiadas metrópoles nacionais), o investimento será feito no subsolo. Cidades como Hangzhou, Suzhou e Kunming, que contam com uma população acima de 7 milhões de habitantes, abriram uma primeira linha de metrô no ano passado. Outras oito prefeituras estão construindo seus trilhos e, ao todo, 38 cidades chinesas terão pelo menos uma linha de metrô até o final da década. Somados, os trilhos representam uma malha de 6.200 quilômetros (Londres tem 400 quilômetros) que custarão US$ 1 trilhão (sem contar custos operacionais).
Pequim, o grande exemplo para todas as políticas anunciadas pelo Partido Comunista, é parte da causa da urgência da implantação de um sistema de transporte subterrâneo: a capital mandarim tem 442 quilômetros de trilhos espalhados por 16 linhas e que transportam parte dos seus 20,69 milhões de habitantes por apenas 2 yuans (R$ 0,70) qualquer trajeto, independendemente da distância ou tempo percorrido. Ainda assim, o centro político chinês figura no topo da lista dos piores trânsitos do mundo.
O congestionamento, somado à poluição, torna cidades como Pequim “inabitáveis” para os chineses, como revelou o estudo feito pela Academia de Estratégia Nacional, braço de pesquisa da Academia Nacional de Ciências Sociais, a maior think tank para assuntos civis do país. Segundo o relatório, tais centros figuram nas dez primeiras posições em termos de oportunidades econômicas e acesso à educação, mas caem para as últimas posições do ranking em termos de ambiente para viver. "Criar metrôs não só significa modernizar o país, mas livrar as metrópoles de inconvenientes como trânsito e degradação ambiental", diz Zhang.
O especialista, contudo, não acredita que todas as 38 cidades previstas no plano de transporte subterrâneo realmente necessitem o investimento. Para ele, menos de 20 delas têm necessidades reais. "Construir metrôs em zonas com menos de 3 milhões de habitantes é desnecessário, e a melhor opção seria investir em trens de superfície, que são muito mais baratos."
Ainda Made in China
Apesar do aumento do salário mínimo, que expulsou indústrias baratas, como a têxtil, para outros países do Sudeste Asiático, a China se mantém como o principal destino de investimento da cadeia industrial do globo, revelou o Conselho de Competitividade dos Estados Unidos em janeiro deste ano.
E para distribuir a produção mandarim para o mundo, a modernização do sistema de transporte aéreo e fluvial se faz hoje essencial. O Ministério dos Transportes anunciou a construção de portos ao longo do rio Yangtze no valor de US$ 32 bilhões (R$ 68,4 bilhões) até 2015 – o dobro do montante aplicado entre 2006 e 2010. Com isso, o governo central espera industrializar as margens do rio, que atravessa o país de leste a oeste, e fomentar o comércio interno.
Só na cidade de Wuhan, capital de Hubei, um novo porto interno será construído nos próximos anos e receberá 70% dos fundos destinados a construções do tipo – o que representa um investimento de US$ 27 bilhões. A importância da cidade é vital; Wuhan está separada de Xangai, Pequim e Guangzhou pela mesma distância.
O mesmo acontece com o transporte aéreo. O aumento de passageiros registrado entre 2011 e o ano passado foi de 14% e o governo espera que esse número dobre com a industrialização e desenvolvimento do oeste do país. "Com um maior número de fábricas e empresas espalhados por todo o território nacional, é claro que mais pessoas precisarão percorrer longas distâncias em menos tempo para fazer negócios", aponta Zhang.
A medida é fomentada pelo número inflacionado de turistas locais, que somou 570 milhões de pessoas percorrendo os 180 aeroportos chineses em 2011. Em 2007, menos da metade desses passageiros passaram por um dos 147 aeroportos existentes até então. A ideia é garantir que o número de passageiros chegue aos 700 milhões ao ano até 2015, quando mais 50 aeroportos estarão em operação, elevando a receita do transporte aéreo do país de 49 bilhões de yuans (R$ 17 bilhões) para 100 bilhões de yuans (R$ 34,8 milhões).
Sonho moderno
Para o pesquisador Wang Zhengxu, a China tem capacidade intelectual e econômica para financiar o seu sonho de modernização, subsidiado pela mudança infraestrutural do país. Até o final da década, os chineses deverão ter mais cidades representadas por uma silhueta moderna e funcional como a de Pudong, em Xangai, o cartão postal escolhido pelo então presidente Deng Xiaoping, em 1979, quando da abertura econômica chinesa.
"Esse sonho de uma China moderna já tem 30 anos. Ele sobreviveu à política de filho único, que criou o medo de empobrecer o país com a falta de mão de obra, e se revigora a cada ano com a possibilidade de o país ultrapassar os EUA e se tornar a maior economia mundial", diz Wang.
Para Pan Linhua, da província de Anhui, Xangai representa o futuro de seu país. "A gente sempre ouve falar pela televisão da economia crescendo, mas só quando visitamos uma cidade como essa que entendemos o que isso significa", conta a mãe de Bobo, de 5 anos, na saída do Museu de Planejamento Urbano de Xangai. "Eu mostrei as fotos pro meu filho no museu e disse: olha como a mamãe cresceu, e olha o país que você tem para você agora. É uma outra perspectiva de futuro."
Era a primeira vez que Bobo visitava Xangai. "Viajamos de avião até aqui. Isso era mesmo um sonho quando eu tinha a idade dele. Poder dar isso ao meu filho não tem mesmo preço", revela.