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Ásia

Após gerações, minoria hazara busca ascensão no Afeganistão

4 jan 2010 - 14h33
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Richard A. Oppel Jr. e Abdul Waheed Wafa
Do New York Times, em Cabul, Afeganistão

Por boa parte da história do país, os hazaras costumavam ser funcionários públicos humildes, carregadores e pouco mais - uma minoria em larga medida xiita que ficou excluída da elite por gerações, e em alguns casos sofreu massacres promovidos pelos governantes do país, membros da etnia pashtun.

Garotos afegãos estudam em uma escola de Marefat, uma localidade pobre a oeste de Cabul onde predomina a minoria Hazara
Garotos afegãos estudam em uma escola de Marefat, uma localidade pobre a oeste de Cabul onde predomina a minoria Hazara
Foto: The New York Times

Mas agora os hazaras são mais como o adolescente Mustafa, que apesar das dificuldades parece a caminho de um futuro brilhante neste país dilacerado pela guerra. O caminho tomado por ele reflete o esforço coletivo dos hazaras, que respondem por 10% a 15% da população do país, a fim de mudar suas circunstâncias, e de uma maneira tão rápida que, de acordo com alguns indicadores, eles já começam a superar alguns outros grupos.

Como muitos dos hazaras de sua geração, Mustafa, 16 anos, fugiu do Afeganistão com sua família na metade dos anos 90. Eles se assentaram em Quetta, Paquistão, morando em companhia de outros refugiados hazaras fora do alcance do Talibã, e aprendendo a aproveitar oportunidades anteriormente fora de seu alcance.

Depois da invasão liderada pelos Estados Unidos em 2001, sua família retornou, não ao lar original na empobrecida província de Daykondi mas à capital, Cabul, onde os pais do adolescente, que não estudaram, achavam que Mustafa e seus irmão poderiam encontrar uma educação melhor. "Não havia oportunidade de estudo em Daykondi", ele afirmou.

Mustafa é um dos melhores alunos na escola de segundo grau Marefat, em Dasht-i-Barchi, um vasto e pobre bairro xiita na região oeste de Cabul, com ruas esburacadas, casas sem aquecimento e pequenas lojas. Quase todos os seus colegas de escola seguirão de lá para a universidade. Mustafa, que cursa a 11ª série e gosta de Física e matemática, quer estudar Física nuclear em uma universidade ocidental.

"Os pashtun tiveram oportunidades no passado, mas agora são os hazaras que têm essa oportunidade", disse Mustafa, cujo sobrenome não será revelado a pedido do diretor de sua escola. "Podemos conquistar os nossos direitos por meio da educação".

A escola Marefat é um refúgio para 2,5 mil hazaras, muitos dos quais membros de famílias como a de Mustafa, que deixaram sua terra de origem no centro do Afeganistão e fugiram para o Irã e Paquistão nos anos 90, retornando depois da queda do Talibã, que havia massacrado milhares de hazaras, e fixaram residência em Cabul.

Desde a invasão de 2001, um influxo de hazaras alterou a composição étnica da capital. Hoje, há mais de um milhão de hazaras aqui, ou mais de um quarto da população da capital.

Com uma nova geração de hazaras capazes de estudar em relativa segurança, e motivados pela situação precária de seus pais, o sucesso dos jovens da etnia pode alterar o balanço de poder étnico no país.

"Os hazaras sempre desejaram uma atmosfera aberta que lhes permitisse respirar, e agora é isso que temos", disse Mohammed Sarwar Jawadi, hazara e membro do Legislativo pela província de Bamyan.

Se existe um paralelo recente para a situação dos hazaras são os curdos do norte do Iraque. Anteriormente excluídos e vítimas de abusos, os curdos criaram uma sociedade próspera depois da imposição de zonas de restrição de voo em seu território, anos 90, e da derrubada de Saddam Hussein, quase sete anos atrás.

A recuperação dos hazara não tem limitações geográficas. As principais províncias dos hazaras, embora relativamente seguras, continuam empobrecidas e, queixam-se os líderes da etnia, não se beneficiam da assistência internacional enviada às áreas ocupadas pelos pashtun, na esperança de alijar a base da insurgência.

A recuperação dos hazaras tem por base fundamental a educação, uma vantagem que os hazaras puderam carregar com eles durante seus anos como refugiados.

"Com a educação, você pode conquistar tudo que deseja", disse Qasim, 15 anos, um colega hazara de Mustafa, que chegou a Cabul vindo de Kunduz, uma cidade no norte do país, cinco anos atrás, porque seus pais desejavam melhor educação para as crianças.

Os velhos governantes do Afeganistão "queriam explorar o povo hazara, e não desejavam que nos tornássemos líderes do país ou que melhorássemos", disse ele. "Mas isso vai mudar. Se estudarmos, podemos ditar o nosso futuro".

Os avanços dos hazaras vêm sendo rápidos. Duas das províncias dominadas por eles, Bamyan e Daykondi, têm os mais elevados índices de aprovação para as principais universidades do país, de acordo com funcionários do Ministério do Ensino Superior. Para os estudantes de segundo grau formados em 2008, três de cada quatro alunos foram aprovados no teste em Daykondi, em 2008; em Bamyan, a proporção foi de dois terços, ante uma média nacional de 22%.

O número total de estudantes matriculados em Daykondi subiu em cerca de 40%, para 156 mil, ao longo dos dois últimos anos, e as meninas são 43% dos alunos na província, disse Mohammad Ali Wasiq, diretor de educação na província. Mais mulheres de Bamyan e Daykondi conseguiram aprovação para as principais universidades do país, em 2008, do que o total combinado das 10 principais províncias pashtun.

A ênfase dos hazaras em educar as meninas com tanto capricho quanto os meninos, acompanhada por uma crença mais forte na igualdade entre os sexos do que é comum no país, contraria as percepções geradas no ano passado sobre os xiitas do Afeganistão pela aprovação de uma lei que permite o estupro conjugal entre os xiitas. A aprovação foi vista como um esforço do presidente Hamid Karzai para conseguir apoio dos líderes religiosos xiitas antes das eleições.

Mas muitos dos homens hazaras se opuseram à lei, entre os quais os dirigentes da escola Marefat. Um poderoso aiatolá xiita em Cabul condenou a escola por sua oposição à lei, o que resultou em manifestações violentas que incluíram pedras jogadas no edifício, mas apenas 22 alunos foram retirados da escola devido à pressão, dizem os administradores.

Os hazaras com educação universitária, entre os quais mulheres que usam véus brancos, são uma presença crescente nos escritórios ocidentais em Cabul. E os hazaras também encontraram posições numerosas nas forças de segurança e respondem por proporção elevada dos soldados do exército, enquanto a representação dos pashtun continua inferior à sua parcela na população.

Os líderes dos pashtun se preocupam com o desempenho deficiente de suas crianças nas escolas, diante do brilho dos hazaras, e alguns até se preocupam com a possibilidade de que a crescente influência dos hazaras possa dar aos xiitas iranianos maior influência no país.

"O governo deveria trabalhar com afinco para criar oportunidades de progresso também em outras áreas do país", disse Khalid Pashtoon, membro do Legislativo por Candahar. Ele disse que os avanços dos hazaras na educação não o incomodam, mas acrescentou que "o único medo que tenho é que países como o Irã usem essa tendência politicamente em seu benefício".

A manutenção dos avanços dos hazaras depende, claro, de o Talibã jamais retomar o poder oficial. Aziz Royesh, diretor da escola Marefat, diz se preocupar com a forma pela qual os grupos que detiveram o poder no Afeganistão por muito tempo se adaptarão ao ganho de representação pelos hazaras no governo, nas forças armadas e em outras profissões influentes.

"Será difícil para eles ver que uma nova geração está chegando", disse Royesh, 40 anos, que combateu a ocupação soviética do país e só estudou até a quinta série. "Agora eles não podem usar a força do governo para impedir que determinadas pessoas conquistem seus direitos humanos e direitos civis".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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