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Ásia

Alemanha enfrenta tabu da 2ª Guerra em guerra no Afeganistão

27 out 2009 - 16h22
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Nicholas Kulish
Do New York Times

Forçado a enfrentar a insurgência que vem ganhando cada vez mais força na região norte do Afeganistão, até recentemente pacífica, o exército da Alemanha está envolvido em combates terrestres sangrentos e sustentados pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

Soldados alemães patrulham uma vila nas proximidades da cidade afegã de Kunduz
Soldados alemães patrulham uma vila nas proximidades da cidade afegã de Kunduz
Foto: The New York Times

Soldados posicionados perto de Kunduz, uma cidade no norte do Afeganistão, se viram forçados a contra-atacar seguidas vezes para repelir uma feroz campanha montada por insurgentes ligados ao Talibã, e se tornaram as primeiras tropas alemãs a arcar com o peso de romper o tabu que surgiu no país contra operações militares no exterior, depois da era nazista.

Um dos pontos em disputa é determinar por quanto tempo a oposição política na Alemanha permitirá que os soldados do país permaneçam em combate no Afeganistão, e se haverá alguma atenuação das severas regras de contato sob a qual eles vêm operando, para que possam executar operações de combate a insurgentes sob os novos modelos propostos pelos generais dos Estados Unidos para a campanha afegã. A questão passou a ser se as tropas norte-americanas travarão um tipo de guerra e as unidades aliadas outro.

Para os alemães, a compreensão de que soldados do país estão agora envolvidos em ofensivas terrestres em uma guerra sem conclusão previsível e que vem se intensificando requer uma reconsideração fundamental dos princípios que norteiam o país.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a sociedade alemã passou a rejeitar o poderio militar para quaisquer outras funções que não as de autodefesa, e o pacifismo se tornou uma das causas políticas dominantes no país por muitas gerações, o que sempre resultou no insucesso dos apelos dos aliados da Alemanha por qualquer forma de assistência militar que não missões humanitárias. Os líderes alemães tomaram medidas que resultaram em uma atenuação das restrições, ao longo dos últimos anos, especialmente ao permitir a participação de unidades da força aérea alemã na guerra em Kosovo.

Ainda assim, o legado das normas que proibiam o envolvimento em combates continua a se manifestar na forma de regras de contato severas e de uma mentalidade enraizada de só combater em caso de ataque prévio, e isso desperta tensões significativas com os Estados Unidos, no Afeganistão.

Propelidos pelas necessidades práticas, alguns dos 4.250 soldados alemães estacionados no Afeganistão - o terceiro maior número de soldados entre as forças da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan)- já deixaram bastante para trás a tradição de passividade. Em 20 de outubro, unidades alemãs distribuíram cobertores, bolas de vôlei e lanternas aos moradores da aldeia de Yanghareg, cerca de 35 km ao norte de Kunduz. Menos de uma hora mais tarde, insurgentes armados com metralhadoras e lançadores de granadas propelidas a foguete emboscaram outros soldados da mesma companhia alemã. Os soldados alemães reagiram, matando um dos atacantes, antes que a poeira e a desordem tornassem impossível distinguir entre os combatentes do Talibã e os civis em fuga.

"Eles atiraram contra nós e nós atiramos de volta", disse o primeiro-sargento Erik S., que de acordo com as normas das forças armadas alemãs, não está autorizado a fornecer o seu nome completo. "Vai haver baixas, de ambos os lados. É simples assim. É guerra".

"A palavra 'guerra' começa a ser ouvida em volume muito mais alto na sociedade, e os políticos já não têm como manter o fato em segredo", ele disse.

De fato, os políticos alemães vêm se recusando a empregar a palavra, e tentam em lugar disso retratar a missão no Afeganistão como uma mistura de força de paz e de assistência à reconstrução, em apoio ao governo do país. Mas esse argumento vem se tornando cada vez menos defensável, à medida que a insurgência se expande rapidamente nas regiões oeste e norte do país, onde o comando regional das forças da Otan cabe aos alemães e a maioria das tropas provém do país.

Ou seja, embora os alemães talvez não tenham ido à guerra, a guerra foi até eles. O que está acontecendo serve, em parte, dizem funcionários da Otan e do governo alemão, como prova da astúcia política dos líderes do Talibã e da Al-Qaeda, que estão cientes da oposição à guerra na Alemanha. A esperança deles é explorar esse fator e forçar a retirada dos soldados alemães - o que incidentalmente também racharia a aliança da Otan -, por meio de ataques contra as forças alemãs no Afeganistão e de ameaças em vídeo e áudio sobre possíveis ataques terroristas no país, divulgadas antes das eleições alemãs do mês passado.

O general Stanley McChrystal, o principal comandante norte-americano e aliado no Afeganistão, está pressionando os demais integrantes da Otan para que contribuam com mais reforços para o esforço de guerra, mas países como a Holanda e o Canadá já começaram a discutir planos para a retirada de suas forças. A Alemanha até o momento vem resistindo aos apelos por reforços.

Os elos entre os Estados Unidos e a Alemanha sofreram desgaste no mês passado quando o comando alemão ordenou um bombardeio aéreo contra dois caminhões-tanques roubados. O ataque resultou em vítimas civis, além de entre os combatentes do Talibã. Muitos alemães, dos principais líderes políticos do país aos soldados estacionados na zona de combate, acreditam que McChrystal se precipitou ao condenar o ataque antes de uma investigação completa.

As tropas de combate alemãs ficam sujeitas a pressões vindas de ambos os lados. Em entrevistas concedidas na semana passada, soldados da 3ª companhia do Batalhão de Infantaria Mecanizada 391 afirmaram que sua unidade contava com efetivos insuficientes para a missão cada vez mais complexa que precisa desempenhar no Afeganistão. Dois soldados da companhia foram mortos em junho, o que elevou a 36 o total de militares alemães mortos na guerra do Afeganistão.

Os soldados expressaram frustração diante das críticas sofridas em função do ataque aéreo, vindas não apenas dos aliados mas também de políticos alemães, e sobre a falta de apoio a eles em seu país.

Embora a intensidade da insurgência do Talibã na porção sul do Afeganistão venha recebendo mais atenção, a situação na parte norte do país, onde os alemães estão estacionados, se deteriorou rapidamente. Os soldados disseram que, um ano atrás, podiam conduzir suas patrulhas em veículos não blindados. Agora, existem lugares que eles não podem visitar nem em veículos blindados, a não ser que o efetivo presente seja da ordem de uma companhia ou mais (ou seja, mais de 100 soldados).

Funcionários do governo norte-americano afirmaram que a ênfase em reconstrução, missões de paz e evitar a violência pode ter propiciado um ponto de entrada para o Talibã no norte.

Oficiais alemães estacionados por aqui dizem que as táticas de suas tropas foram ajustadas devidamente, e que elas têm se envolvido em combates contra o Talibã que podem durar horas, e envolver apoio aéreo cerrado. Em julho, 300 soldados alemães reforçaram unidades do exército e da polícia afegãos em uma operação que matou mais de 20 combatentes do Talibã e resultou na detenção de outros seis, na província de Kunduz. O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung definiu a operação como "uma transição clara da defensiva para a ofensiva".

As ações das forças alemãs do país são controladas por uma autorização legislativa, e o prazo desta vence em dezembro. O contingente alemão conta com aeronaves não tripuladas e jatos de ataque Tornado, que estão restritos a missões de reconhecimento e não têm autorização para operações ofensivas.

Os soldados alemães em geral passam uma temporada de serviço de apenas quatro meses no Afeganistão, o que pode dificultar manter a continuidade com seus parceiros afegãos. A autorização também limita o contingente alemão no país a 4,5 mil soldados.

Um funcionário da Otan, que falou sob a condição de que seu nome não fosse mencionado porque não tem autorização para falar em público sobre o assunto, definiu a autorização como "uma camisa-de-força política".

Uma companhia de paraquedistas alemães que opera no distrito de Chahar Darreh, no qual as atividades dos insurgentes são especialmente intensas, teve de repelir uma série de ataques e se manteve na área, conduzindo patrulhas a pé e promovendo reuniões com os líderes das aldeias, por oito dias e sete noites.

"Quanto mais tempo passávamos entre eles, melhor a resposta da população local a nós", disse o capitão Thomas K., o comandante da companhia. Outra companhia substituiu os paraquedistas por três dias, mas terminou abandonando a posição porque os serviços de informações alertaram que havia uma bomba esperando pelo próximo grupo de soldados alemães."Desde que saímos de lá, nenhuma outra companhia retornou", disse o capitão.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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