As cinco condições para revolução no Irã estão postas, afirma especialista a revista francesa
O movimento de contestação ao regime iraniano e a violenta repressão aos protestos, nas últimas três semanas, ocupam as capas das principais revistas semanais francesas. As reportagens analisam as chances de queda do aiatolá Ali Khamenei, que comanda o país com mãos de ferro desde a Revolução Iraniana, em 1979.
Em entrevista à revista Le Point, um dos especialistas mais respeitados do mundo em mudanças sociais, o americano Jack A. Goldstone, da George Mason University, afirmou que "as cinco condições para o sucesso de uma revolução estão postas" no Irã. Situação econômica preocupante, protestos generalizados pelo país, apoio crescente da elite, descrença na capacidade do governo de superar as dificuldades e ambiente internacional favorável fazem com que, pela primeira vez desde que assumiram o poder, os mulás iranianos possam ser derrubados, indicou o pesquisador.
Não foi o que ocorreu no Irã em 2009, 2018 ou 2022, quando o regime conseguiu sufocar grandes protestos nas ruas. Nas três ocasiões precedentes, os manifestantes visavam reivindicações sociais precisas, mas não o fim do governo islamita, como agora.
A possibilidade de retorno do exílio do príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do último xá deposto pela Revolução Iraniana, é outro foco das reportagens. Um opositor de longa data do regime relata à L'Express que é a primeira vez que vê retratos de Pahlavi e gritos pedindo o seu retorno nas manifestações. "Ele parece ser a nossa única chance de voltarmos a um sistema político centrado na modernidade, que priorize os interesses nacionais dos iranianos, e não os ideológicos da República Islâmica", disse a testemunha.
L'Express salienta que, conforme o último levantamento do Grupo de Análise e Medição das Atitudes no Irã, baseado na Holanda, Reza Pahlavi seria a personalidade política preferida dos iranianos, com 31% dos votos em 2024, e 21% dos entrevistados defendiam a volta da monarquia no país. A confiabilidade da pesquisa em um país onde elas são proibidas, entretanto, é questionável.
Reza Pahlavi e a extrema direita
Em Teerã, muitos defendem um Irã "sem mulás, nem xás". "O problema é que a oposição nunca conseguiu se estruturar no país, em meio à forte repressão", frisou o pesquisador iraniano Amir Kianpour, à revista Nouvel Obs.
"O filho xá sonha em retomar o poder, ao mesmo tempo em que cultiva laços com a extrema direita do mundo inteiro", afirma a publicação. Nas redes sociais, ele exalta Donald Trump e, sempre que pode, participa de eventos da ultradireita, como a Conferência de Ação Política Conservadora, grande encontro do qual já discursaram o britânico Nigel Farage, o argentino Javier Milei, a italiana Giorgia Meloni ou o empresário Elon Musk, além do próprio presidente americano. Em 2023, ele chegou a se encontrar com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com quem posou para fotos.
"Muitos iranianos que nasceram depois revolução sequer sabem que Pahlavi não apoia a democracia, como diz. Ele é um oportunista", criticou a refugiada política iraniana Mahtab Ghorbani, que vive na França, em entrevista à Nouvel Obs.