Após protestos que deixaram mais de 50 mortos, Nepal tem governo interino
A capital do Nepal, Katmandu, é patrulhada por um grande efetivo do Exército nesta sexta-feira (12). A calma aparente retornou ao país, mas o futuro permanece incerto. Pelo menos 51 pessoas morreram e 12.500 prisioneiros escaparam durante os protestos que levaram à queda do governo.
A capital do Nepal, Katmandu, é patrulhada por um grande efetivo do Exército nesta sexta-feira (12). A calma aparente retornou ao país, mas o futuro permanece incerto. Pelo menos 51 pessoas morreram e 12.500 prisioneiros escaparam durante os protestos que levaram à queda do governo.
Com informações de Côme Bastin, enviado especial da RFI ao Nepal
Em várias grandes cidades, milhões de nepaleses estão atualmente autorizados a sair apenas duas horas pela manhã e duas horas à noite. Katmandu ganha vida repentinamente, antes de mergulhar novamente em um silêncio semelhante ao dos lockdowns da época da pandemia de Covid-19. Essa situação pode perdurar até a nomeação de um novo primeiro-ministro.
Pouco se sabe sobre as discussões em curso entre o presidente e a chamada "Geração Z" — um termo genérico para os jovens que expressaram massivamente sua indignação contra a classe política do Nepal, nesta semana, em protestos antigovernamentais que deixaram pelo menos 51 mortos.
Aos 76 anos, Dhruba Shreshta já viu muitos protestos e tumultos se tornarem violentos. Mas ele nunca assistiu a tanta violência e raiva como as que irromperam esta semana nas ruas da capital nepalesa. "É a primeira vez que algo assim acontece no Nepal", disse esta manhã o funcionário público aposentado. "Qualquer um ficaria assustado nessa situação. Se você visse o estado de destruição que vi em alguns prédios do governo", explica ele, ainda chocado. "Esperei dois dias antes de sair..."
Somente nesta sexta-feira, ele criou coragem para se aventurar nas barracas de um mercado na capital. Com alguns vizinhos, ele se abasteceu de vegetais, carne e laticínios antes de voltar para casa o mais rápido possível.
Parlamento incendiado
As cicatrizes dessa revolta são bem visíveis. O Supremo Tribunal, o Parlamento, os Ministérios da Saúde e dos Transportes — a maioria dos prédios está queimada e abandonada. Muitos veículos também foram incendiados.
O Parlamento foi incendiado, assim como a residência do primeiro-ministro, que não teve escolha a não ser renunciar.
O líder de 73 anos do Partido Comunista Nepalês (Maoísta), que esteve à frente do governo em quatro ocasiões desde 2015, liderava uma coalizão com um partido de centro-esquerda desde 2024. Ele personificava a elite cuja saída a juventude do país — em grande parte desempregada e farta da corrupção — exigia.
Agora, os jovens que protestavam nas ruas desapareceram diante da presença ostensiva dos militares.
Negociações políticas se aceleram
As negociações políticas em torno do chefe do Exército se aceleraram nesta sexta-feira, na tentativa de nomear um novo primeiro-ministro.
Desde quarta-feira, o general Ashok Raj Sigdel tem se reunido com diversas figuras para encontrar um sucessor para o premiê KP Sharma Oli, que foi forçado a renunciar pelos protestos.
Raj Sigdel se reúne, nesta tarde, com o presidente Ramchandra Paudel, a ex-chefe da Suprema Corte, Sushila Karki, e um dos manifestantes, Sudan Gurung, informou à AFP o porta-voz dos manifestantes, Nimesh Shresth.
"Sushila Karki será nomeada primeira-ministra interina", disse um especialista constitucional consultado pelo presidente Ramchandra Paudel e pelo chefe do Exército, Ashok Raj Sigdel, que pediu anonimato.
Conhecida por sua independência, Sushila Karki, de 73 anos, foi nomeada para liderar a transição. Porém, seu nome não é unanimidade no país, especialmente entre os jovens manifestantes.
A crise — a mais mortal no Nepal desde a abolição da monarquia, em 2008 — começou na segunda-feira (8), quando a polícia abriu fogo contra jovens manifestantes que denunciavam o bloqueio das redes sociais e a corrupção da elite nepalesa.