Visita do papa Leão XIV à Argentina deve expor profundas divergências com Javier Milei
O papa Leão XIV chega neste domingo (8) à Argentina, onde ficará até quarta-feira (11) com uma agenda que deve evidenciar as diferenças entre as posições da Igreja e as do governo do presidente Javier Milei em questões sociais, políticas e econômicas. Ao longo da visita, o pontífice deve fazer críticas implícitas ao ajuste fiscal e à falta de sensibilidade social do governo argentino.
A primeira visita papal à Argentina em 39 anos evidencia profundas divergências entre o papa Leão XIV e o presidente Javier Milei. O pontífice defende a justiça social, o papel do Estado, a regulação da IA, a imprensa livre e o acolhimento a imigrantes, temas que colidem com a postura ultraliberal e polarizadora do líder argentino. Apesar do alinhamento apenas contra o aborto e a eutanásia, Milei busca despolitizar o encontro para desviar a atenção de recentes reveses políticos de seus aliados.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
O papa começa a viagem - que ficou pendente nos 12 anos de pontificado de Francisco - pela capital, Buenos Aires, onde se reunirá com o presidente argentino na Casa Rosada. Tanto Leão XIV quanto Javier Milei vão tentar despolitizar a visita, mas, por trás dos gestos conciliadores, estarão sob tensão duas visões de mundo diametralmente opostas, que ficarão evidentes nos discursos do papa, nas missas populares e em outros compromissos da agenda.
O governo argentino trabalha para que a visita não se transforme em contraponto político. O temor é que os discursos do papa sejam aproveitados politicamente pela oposição e tenham impacto no eleitorado.
A lista de divergências entre Leão XIV e Milei é longa: justiça social, papel do Estado, combate à pobreza, emprego, violência verbal, liberdade econômica, imigração, política externa, regulação da inteligência artificial, liberdade de imprensa, mudanças climáticas e polarização política. Os dois líderes só coincidem em dois pontos: são contra o aborto e contra a eutanásia.
Estado e justiça social no centro das divergências
O pontífice desenvolveu, na sua primeira encíclica Magnífica humanitas, um discurso que aprofunda o legado do papa Francisco e reposiciona em primeiro plano a doutrina social da Igreja, marcada pelo magistério de Leão XIII, no fim do século XIX, primórdios da Revolução Industrial.
Leão XIV defende que o Estado é fundamental para uma sociedade equilibrada e justa, enquanto Milei classifica o Estado como "pior do que a máfia" e se diz "o infiltrado para destruir o Estado por dentro".
Para o papa, a justiça social permite garantir a dignidade humana e reduzir a desigualdade. O presidente argentino a considera uma "aberração do ponto de vista moral" porque é "um trato desigual perante a lei".
Sobre a inteligência artificial, o pontífice prega a prudência, a regulação e até a necessidade de frear o avanço descontrolado da IA em defesa do ser humano. Defende ser necessário um controle humano eficaz e responsável e questiona a possibilidade de sistemas de IA se tornarem pessoas jurídicas.
Já para Milei, não deve haver nenhuma regulação nem limite ao desenvolvimento da tecnologia. Ele inclusive é a favor de empresas sem nenhum ser humano.
Política e liberdade de imprensa
No exercício da política, Milei polariza a sociedade, com insultos diários a opositores, jornalistas e economistas, enquanto o papa propaga a pluralidade política sem ofensas aos adversários.
Leão XIV é a favor do multilateralismo e da paz. No caso do Oriente Médio, defende a solução de dois Estados, Israel e Palestina. Já Milei mantém um alinhamento irrestrito a Israel, sem questionar a ação militar de Benjamin Netanyahu.
Os dois se opõem ainda sobre ao papel da imprensa: o papa diz que silenciar um jornalista significa enfraquecer a democracia, mas Milei considera que 95% dos jornalistas são "delinquentes que envenenam as pessoas em troca de subornos" e verbas de publicidade.
Na questão da imigração, Leão XIV destaca que os imigrantes devem ser tratados com humanidade e ter seus direitos respeitados. Milei afirma que os imigrantes devem se adaptar à nova cultura, abandonando a própria; caso contrário, sua presença seria "uma invasão".
Recentemente, o presidente argentino publicou um decreto segundo o qual o estrangeiro que divulgar mensagens de ódio será impedido de entrar na Argentina e, se já residir no país, perderá o direito de residência. Milei orgulha-se de ter impedido a entrada ou deportado 10 mil turistas e imigrantes, a quem classificou como "terroristas".
Mudar o foco
Apesar de tanta discórdia, o governo argentino vê na visita do pontífice a chance de mudar o foco das notícias das últimas semanas: as derrotas eleitorais dos aliados Flávio Bolsonaro e Donald Trump, a destituição do presidente paraguaio Santiago Peña e o enfraquecimento do israelense Benjamin Netanyahu.
Esta é a primeira visita de um papa à Argentina em 39 anos, depois da viagem de João Paulo II em abril de 1987. Mas não é a primeira viagem de Robert Prevost à Argentina.
A anterior, em março de 2013, aconteceu seis dias antes de Jorge Bergoglio tornar-se papa Francisco. Na primeira, em agosto de 2004, Robert Prevost participou de uma missa com o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio. Mais tarde, os dois se tornariam.
Leão XIV definiu esta viagem ao país como uma homenagem a Francisco. "Venho com muita alegria cumprir com a viagem que Francisco não pôde", disse ele aos jornalistas argentinos presentes no voo entre Roma e Montevidéu, na sexta-feira (6).
Primeiro dia na Argentina
Ao descer do avião em Buenos Aires, o papa será recebido por Javier Milei ainda na pista. Pouco depois, vai prestar homenagem ao herói argentino, o general José de San Martín, que também participou da independência do Peru, o país seguinte a ser visitado pelo papa.
Os pontos da capital por onde o pontífice vai passar estão decorados com bandeiras da Argentina e do Vaticano.
Leão XIV e Milei terão uma reunião na Casa Rosada, sede do governo argentino. Na sequência, os dois estarão novamente juntos em um evento com lideranças políticas e judiciais da Argentina, representantes da sociedade civil e diplomatas.
Milei não queria incluir a oposição na agenda, mas foi vencido pela Igreja e procurou mostrar boa convivência política, algo inédito em quase três anos de mandato).
Nesse encontro, na noite deste domingo, o papa fará o seu primeiro discurso. Nos próximos dias, nas missas populares e nas reuniões com sindicalistas, empresários, trabalhadores, aposentados, movimentos sociais, presidiários e portadores de deficiência, esperam-se discursos com base na doutrina social da Igreja, em franca colisão com a política econômica e a visão de mundo de Javier Milei.
Calcula-se que sete milhões de pessoas participem dos eventos, especialmente das missas populares em Buenos Aires, Córdoba e Luján. Cerca de 50 mil agentes de segurança estão envolvidos nos eventos).
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