'São 30 anos de trabalho perdidos': comerciantes relatam saques após terremoto na Venezuela
Lojas e mercados de La Guaira, a região mais devastada pelo duplo terremoto na Venezuela, foram alvo de saques desde as primeiras horas após a tragédia. Em entrevista à RFI, comerciantes descrevem os prejuízos, a falta de segurança e o descaso das autoridades.
Alice Campaignolle, correspondente da RFI na Venezuela, e AFP
Na esquina de uma rua da localidade Catia La Mar, diante de um pequeno centro comercial cujo último andar foi o único a desabar, um homem está com os olhos marejados ao descobrir sua loja saqueada. Ele conta que os roubos no local acabaram com 30 anos de trabalho.
"O que o terremoto não quebrou, eles saquearam ou destruíram. Até a cadeira do meu escritório eles destruíram", lamenta o comerciante, que preferiu não revelar seu nome. "É pura maldade. Eu não pude vir aqui antes porque meu sogro e minha sogra morreram, e eu passei cinco dias entre escombros e cadáveres", diz.
Já Anna, a gerente de uma padaria no local, presenciou os primeiros roubos. "Logo após o terremoto, quando começou a escurecer, as pessoas entraram e começaram a levar tudo", relembra. "Se você tivesse visto minha padaria antes… Ela era bonita, realmente bonita. Era toda a minha vida", diz.
Segundo ela, as cenas se repetiram em toda a região devido à falta de policiamento. "Posso garantir: não havia absolutamente nenhuma segurança naquela noite. Depois do terremoto, fiquei sentada aqui a noite inteira, e ninguém passou", denuncia.
Cenário lúgrube
Escuridão macabra, ruídos de geradores e britadeiras, cheiro de corpos em decomposição: mais de uma semana após o duplo terremoto na Venezuela, as noites do que antes era uma animada estação balneária, transformaram‑se em um cenário lúgubre.
A maior parte das mais das 2.645 mortes e das dezenas de milhares de desaparecidos da tragédia de 24 de junho se concentra na costa de La Guaira. Bairros inteiros foram arrasados e cerca de 200 edifícios desabaram totalmente, segundo números oficiais, uma estimativa "bem abaixo da realidade", afirmam moradores. Cerca de 15 mil desabrigados dormem em tendas nas ruas, em instalações esportivas, parques e terrenos baldios.
Nos últimos dias, policiais e militares vêm circulando nas ruas para evitar saques. É o caso do sargento Yonder Maita, de 24 anos, que trabalha em uma patrulha para impedir furtos. "Há pessoas que entram nas casas para roubar. Às vezes, se passam por parentes. Eles se aproveitam", diz.
A dimensão dos danos materiais mergulhou parte do país no caos. Em muitos muros da região, leem‑se mensagens pintadas : "já saqueado".
Na semana passada, quatro policiais venezuelanos foram detidos por realizarem roubos na área atingida pelo duplo terremoto, segundo o Ministério da Justiça do país. O caso foi revelado após a divulgação nas redes sociais de agentes flagrados por moradores revoltados.
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