Mortes em ação do ICE em Minneapolis aumentam risco de paralisação orçamentária nos EUA
A tensão aumentou ainda mais em Minneapolis, no norte dos Estados Unidos, no sábado (24), quando agentes do ICE mataram a tiros um enfermeiro de 37 anos enquanto ele estava no chão. É o segundo americano morto a bala em menos de um mês pela polícia de imigração na cidade do estado de Minnesota, que se tornou símbolo da resistência à política migratória do governo de Donald Trump.
Parlamentares de Minnesota exigem a retirada do ICE e pedem que a investigação seja transferida para a polícia local. Vários senadores democratas anunciaram que votarão contra o projeto de orçamento, elevando o risco de uma nova paralisação do governo.
Na próxima semana, o Senado deve analisar uma lei orçamentária que pretende evitar o chamado shutdown. Porém, faltam sete votos para que a maioria republicana consiga aprovar o texto — e, segundo a imprensa americana, restam menos de seis dias antes de um possível fechamento do governo. Os acontecimentos em Minneapolis alteraram completamente o cenário político.
O texto inclui um capítulo sobre o financiamento do Departamento de Segurança Interna (DHS) e, portanto, da polícia de imigração (ICE). Diante da extrema brutalidade registrada recentemente em Minneapolis — com as mortes de Renee Good e agora de Alex Pretti, ambos baleados por agentes federais, além das imagens de um menino de cinco anos usado como isca pelo ICE para prender o pai — a liderança democrata anunciou que não votará a favor do orçamento.
Vários senadores democratas, que no passado chegaram a apoiar medidas dos republicanos nessa área, afirmaram que votarão contra o projeto atual.
Para o senador democrata Mark Warner, a "repressão brutal deve cessar": "Não posso e não votarei para financiar o DHS enquanto esta administração continua essas tomadas violentas de poder em nossas cidades." Os parlamentares afirmam recusar-se a aprovar o texto como está, já que ele inclui o financiamento do Departamento de Segurança Interna, responsável por implementar a política migratória defendida por Donald Trump. "Os democratas do Senado não apoiarão qualquer texto que inclua o financiamento do DHS", acrescentou Warner na rede X.
A administração Trump e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, "estão colocando agentes federais mal treinados e beligerantes nas ruas, sem prestar contas", denunciou em comunicado a senadora Catherine Cortez Masto, de Nevada, conhecida por seu perfil moderado, que também ameaçou rejeitar o projeto.
Reações à morte de Alex Pretti
Reações públicas e autoridades locais
Pais, autoridades locais e celebridades de Hollywood reagiram à morte do enfermeiro Alex Pretti, baleado pela polícia em Minneapolis no sábado — a segunda morte semelhante registrada na cidade em menos de um mês.
Agentes de uma unidade da polícia federal mataram Pretti, de 37 anos, menos de três semanas após a morte de Renee Good, também de 37 anos, baleada dentro do carro por agentes do ICE.
O Departamento de Segurança Interna afirma que Pretti estava armado e portava munição, mas vídeos do incidente levantam dúvidas significativas sobre a versão oficial do governo.
Tim Walz, governador de Minnesota, classificou o caso como "horrível" e determinou que a investigação seja conduzida pelo Estado de Minnesota, e não pelo governo federal. "Não podemos confiar no governo federal para conduzir essa investigação. O Estado vai assumir o caso, ponto", declarou em coletiva.
O senador republicano Bill Cassidy afirmou que "os acontecimentos em Minneapolis são incrivelmente perturbadores" e pediu uma investigação conjunta entre autoridades federais e estaduais.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, pediu ao presidente Donald Trump que encerre a operação anti-imigração na cidade, que tem provocado protestos por vezes violentos.
Família e colega de trabalho
Em nota, os pais de Alex Pretti descreveram o filho como "uma pessoa de coração enorme, profundamente dedicada à família e aos amigos".
Eles afirmaram que "as mentiras repugnantes contadas pelo governo são condenáveis e nojentas" e insistiram que Pretti não segurava nenhuma arma quando foi atingido.
Dimitri Drekonja, chefe do setor de Doenças Infecciosas do Hospital de Veteranos de Minneapolis e colega de Pretti, afirmou que ele era "uma pessoa boa e gentil, que vivia para ajudar outros". Seu trabalho consistia em apoiar veteranos gravemente doentes, escreveu no Bluesky.
Hollywood e defensores do porte de armas
Estrelas de Hollywood aproveitaram o tapete vermelho do Festival de Cinema de Sundance, em Utah, para denunciar a morte de Alex Pretti.
Natalie Portman, ao promover o filme The Gallerist, emocionou-se ao chamar o dia de "horrível". "O que está acontecendo em nosso país é simplesmente obsceno", afirmou à AFP.
Durante a exibição de The Invite, a atriz e diretora Olivia Wilde classificou o episódio como "incompreensível". "Esses americanos corajosos que protestam contra a injustiça desses 'agentes' do ICE… vê-los serem assassinados é incompreensível. Não podemos normalizar isso."
Grupos pró-armas — geralmente apoiadores de Donald Trump — criticaram a interpretação imediata do governo de que o porte legal de arma por Pretti indicaria intenção hostil.
A Associação dos Proprietários de Armas da América (GOA) condenou a declaração do procurador Bill Essayli, que havia dito que "se alguém se aproxima de agentes da lei armado, eles provavelmente estarão legalmente justificados em atirar".
A GOA ressaltou que a Segunda Emenda protege o direito de portar armas inclusive durante protestos.
A NRA classificou as declarações de Essayli como "perigosas e falsas" e afirmou que autoridades deveriam aguardar investigação completa antes de generalizar e demonizar cidadãos cumpridores da lei.
Com AFP e agências