Kast e Milei se encontram em meio a crises e forte queda de popularidade
O presidente do Chile, José Antonio Kast, é recebido na manhã desta segunda-feira (6) pelo presidente argentino, Javier Milei. As duas referências regionais da nova direita enfrentam uma forte queda na popularidade. O chileno Kast ainda nem completou um mês de mandato, mas tem a sua primeira crise logo na segunda semana. Milei começou o seu terceiro ano de governo com escândalos de corrupção e piora na economia. Por isso, o abraço dos dois líderes de extrema direita é também o abraço de dois presidentes desgastados pela impopularidade.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
É uma tradição chilena que um novo presidente faça da Argentina o seu primeiro destino internacional. Basta vermos a extensão da fronteira entre Chile e Argentina para entendermos essa importância. Porém, é a primeira vez, no período democrático recente, que os dois países têm líderes da extrema direita no poder.
Os dois pretendem traçar ações comuns a partir da sintonia de visões em assuntos regionais e internacionais. Kast veio com três ministros - Relações Exteriores, Segurança Pública e Obras Públicas - para uma agenda de colaboração econômica, energética e judiciária, além do combate à imigração ilegal.
Na agenda judiciária, aparece o pedido de extradição do ex-guerrilheiro chileno Galvarino Apablaza, de 75 anos, refugiado na Argentina desde 1993 e atualmente foragido. Na quinta-feira passada, a polícia argentina não encontrou Apablaza na sua residência.
O procurado é acusado de ser o autor intelectual do crime, em 1991, em Santiago, do ex-senador chileno Jaime Guzmán, fundador da Unidade Democrática Independente (UDI), o único partido criado durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
Guzmán é o principal autor da Constituição neoliberal de 1980, imposta por Pinochet e considerada a gênese da desigualdade social chilena. Kast é o primeiro presidente chileno a defender abertamente o legado de Pinochet e a ter fortes ligações com a família de Guzmán.
Encontro marcado pela queda de popularidade
Para além da afinidade ideológica, Kast e Milei estão também em sintonia com a perda de popularidade. Nesse sentido, abordar assuntos internacionais ajuda cada um a ganhar tempo e a desviar o foco da agenda doméstica.
José Antonio Kast assumiu o cargo em 11 de março passado e já na segunda semana enfrentava uma crise. A aprovação do seu governo caiu entre 10 e 17 pontos, dependendo da medição. Segundo a consultora Cadem, que avalia os índices semanalmente, a popularidade de Kast caiu de 57 a 47%, logo na segunda semana. São dez pontos de queda. A Pulso Cidadão viu uma queda de 12,8 pontos ao baixar a aprovação do governo Kast de 47,5 a 34,7%. Já a sondagem da Painel Cidadão calculou que o apoio social a Kast caiu de 59 a 42%. Neste caso, são 17 pontos a menos. Esse cenário político em menos de um mês de mandato é inédito na história do Chile.
Crise precoce abala Kast no Chile
Há vários motivos para a queda abrupta e precoce, como um corte de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) no orçamento público, tendo a Educação como foco. Mas o principal motivo é o chamado "gasolinaço", um aumento exponencial do preço da gasolina e do óleo diesel. A gasolina aumentou 32%, enquanto o diesel subiu 62,4%.
O governo Kast atribui o reajuste aos efeitos da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Mas especialistas afirmam que o aumento não precisava ser tão alto nem tão imediato — e apontam que a decisão de extinguir o Mecanismo de Estabilização dos Preços dos Combustíveis, que amortecia oscilações e evitava repasses bruscos ao consumidor, agravou o impacto.
Segundo a pesquisa Cadem, 59% dos entrevistados acham que o aumento poderia ter sido evitado. A consultora indica ainda impacto na alta geral da inflação e na queda do crescimento econômico.
Para justificar o aumento, o governo afirma ter herdado um déficit fiscal de 4% do PIB e diz que não há recursos suficientes no Tesouro. No entanto, o déficit real é de 2,8% e a relação entre dívida pública e PIB é de 41%, a mais baixa da América Latina e quase um terço da observada em países desenvolvidos.
O governo Kast precisou retirar dos meios de comunicação uma campanha que alertava que "o Estado chileno está falido" e o presidente anunciou uma série de medidas paliativas para atenuar o impacto no bolso das famílias e o desgaste político.
Milei sob pressões internas e denúncias de corrupção
Em março, Milei teve a maior queda de imagem entre 18 presidentes latino-americanos medidos pela consultora CB Global Data. Foram 4,5 pontos abaixo, ficando agora com 42,3%, um número que poderia continuar em queda, já que a situação política e econômica piorou desde a avaliação.
O Atlas Intel, instituto brasileiro de pesquisa, calculou que a reprovação de Milei chega a 61,6%, a maior em 27 meses de governo. A aprovação é de 36,4%, cinco pontos a menos do que em fevereiro. Tanto a CB quanto o AtlasIntel são os que mais têm acertado nas medições na Argentina.
Segundo o Atlas Intel, de cada dez argentinos, seis reprovam o governo Milei. Para 74%, a situação do mercado de trabalho é ruim e 65% ampliam essa consideração a toda a economia. A corrupção no governo Milei é o pior problema para 43,3%; o desemprego, para 42,2%; e a inflação para 35,3%.
O governo do presidente Javier Milei tem sido acusado de, pelo menos, três casos de corrupção. Dois envolvem diretamente a Presidência em desvio de fundos da Agência para Deficientes e fraude com uma criptomoeda. O outro caso tem como alvo o atual chefe do gabinete de ministros e porta-voz, Manuel Adorni. Ele é investigado por crimes de corrupção. Milei se afunda porque se nega a demitir o seu braço-direito. Esses casos irritam mais quando o bolso dói mais.
A economia argentina tem vivido um aumento do desemprego (+1,1 pontos entre 2024 e 2025) e do trabalho informal e precário (aplicativos de transporte e de entregas a domicílio), um aumento da inflação há nove meses consecutivos (de 1,5% a 3% mensais), uma perda do poder de compra e uma recessão nos setores que mais empregam, como o comércio e a indústria.
Caso ANDIS
Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, é investigada por ser a suposta beneficiária de um esquema que retinha 3% das compras de medicamentos e do gasto com tratamentos pela Agência Nacional para portadores de Deficiência (ANDIS), desviando dinheiro de um dos setores mais castigados pela serra elétrica de Milei no setor público. Segundo a denúncia, enquanto cortava o orçamento, também roubava os deficientes.
Caso $Libra
Novos detalhes vieram à tona em fevereiro e em março sobre a suposta participação de Milei no esquema de fraude que provocou uma perda entre US$ 200 e US$ 300 milhões em cerca de 86 mil pessoas pelo mundo.
A criptomoeda $Libra, lançada em fevereiro de 2025, foi uma das maiores fraudes. Documentos e evidências obtidas do celular de um dos empresários envolvidos revelaram que tanto Javier Milei quanto a irmã, Karina, participaram de reuniões e mantiveram contato com os empresários ligados ao projeto, durante e depois de lançada a moeda, promovida publicamente pelo presidente.
As informações também indicam que Milei tinha um contrato para receber US$ 5 milhões em três parcelas em troca de promover a moeda. Do mesmo empresário, cada irmão Milei teria recebido um salário mensal desde 2021, quando o atual presidente já era deputado.
Caso Adorni
Manuel Adorni, porta-voz, chefe de gabinete e braço-direito de Milei, é investigado desde o começo de março. A esposa de Adorni foi incluída no voo presidencial que levou membros do governo a Nova Iorque. Quando o caso foi descoberto, apareceu uma segunda viagem, durante as férias familiares, num jato privado ao Uruguai, cujos custosos voos foram pagos por um jornalista, com um programa na TV Pública, administrada por Adorni. Quando os dois casos se acumularam, surgiu uma casa num condomínio. E quando os três casos eram o centro das atenções, surgiu um apartamento. Os imóveis têm elevados valores, incompatíveis com o salário do acusado.
Para complicar, foi descoberto que a esposa de Adorni tem três únicos clientes como prestadora de serviços oncológicos. Os três clientes são empresas estatais ou privadas interessadas em licitações do Estado, administradas por Adorni.