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América Latina

Entenda como a Tríplice Fronteira se tornou uma das maiores rotas de cocaína do hemisfério Sul para a Europa

Esta quinta-feira (26) marca o dia Internacional sobre o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas. Uma das rotas mais importantes para a entrada de entorpecentes na Europa passa pela Tríplice Fronteira formada por Brasil, Paraguai e Argentina. Distante dos centros de decisão política, desigual e pouco povoada, a região era, até recentemente, ignorada pelas autoridades públicas, apesar de já estar no cruzamento de inúmeras rotas de tráfico: trabalho, prostituição, lavagem de dinheiro, armas e drogas.

25 jun 2025 - 16h49
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Esta quinta-feira (26) marca o dia Internacional sobre o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas. Uma das rotas mais importantes para a entrada de entorpecentes na Europa passa pela Tríplice Fronteira formada por Brasil, Paraguai e Argentina. Distante dos centros de decisão política, desigual e pouco povoada, a região era, até recentemente, ignorada pelas autoridades públicas, apesar de já estar no cruzamento de inúmeras rotas de tráfico: trabalho, prostituição, lavagem de dinheiro, armas e drogas.

Contêineres no porto de Hamburgo, Alemanha. As apreensões de cocaína aumentaram drasticamente na Alemanha (+750% entre 2018 e 2023).
Contêineres no porto de Hamburgo, Alemanha. As apreensões de cocaína aumentaram drasticamente na Alemanha (+750% entre 2018 e 2023).
Foto: AFP - FABIAN BIMMER / RFI

Menos conhecida que as rotas do norte - do Caribe, México e da Amazônia - para a exportação de cocaína, a Tríplice Fronteira é composta por uma densa rede de rios, três cidades, incluindo uma Zona Franca e pontes internacionais por onde transitam mercadorias e seres humanos.

Ciudad del Este, a segunda maior cidade do Paraguai depois de sua capital, Assunção, é uma zona de livre comércio onde milhares de consumidores, principalmente brasileiros, compram eletrônicos, roupas e eletrodomésticos, muitos deles falsificados da Ásia. Por lá também circulam, segundo as autoridades policiais, dinheiro e documentos falsos, carros roubados e armas. O comércio é estimado em cerca de US$ 15 bilhões por ano, ficando atrás apenas de Hong Kong e Miami.

A construção da grande barragem e usina hidrelétrica de Itaipu, na década de 1970, trouxe muitas pessoas de regiões pobres vizinhas do Paraguai e de países mais ao norte, como Bolívia e Peru, para a cidade em busca de trabalho. As oportunidades, no entanto, terminaram em 1984, na inauguração da usina.

Na confluência do rio Paraná, que deságua no oceano Atlântico, e seu afluente, o Rio Iguaçu, Ciudad del Este foi fundada em 1957 pelo ditador Alfredo Stroessner e foi chamada de Puerto Flor de Lis, antes de adotar o nome do ditador (Puerto Stroessner) e, posteriormente, Ciudad del Este. Um território esquecido pelos colonizadores espanhóis e, posteriormente, pelas autoridades paraguaias, onde tribos indígenas como os guaranis e os bandoleiros, assediavam os poucos postos comerciais e assentamentos jesuítas do lado brasileiro.

Ela se conecta com Foz do Iguaçu, do outro lado da Ponte da Amizade sobre o Rio Paraná, construída em 1965, e pela Ponte da Integração, ainda em fase de conclusão. Outra ponte, sobre o Rio Iguaçu, a Ponte Tancredes Neves, liga Foz do Iguaçu à sua vizinha argentina, Puerto Iguazu.

As duas cidades foram fundadas no fim do século XIX e início do século XX, impulsionadas pelo cultivo da erva-mate, pelo comércio, tanto legal quanto ilegal, pela explosão populacional causada por grandes obras fluviais, e pela exploração turística das famosas Cataratas do Iguaçu, a maior cachoeira do mundo.

É nesse caldeirão obscuro (também chamada de "Nações Unidas do Crime") que o tráfico de drogas floresceu. Todas as organizações criminosas estão representadas lá: cartéis colombianos, brasileiros e mexicanos, bem como membros de organizações criminosas italianas, turcas, ucranianas, japonesas e chinesas.

De acordo com uma pesquisa de 2021 do site Insight Crime, as principais fontes ilegais de renda na Tríplice Fronteira são cocaína, maconha, opiáceos, tráfico de pessoas, roubo, tráfico de armas, crimes ambientais e mineração ilegal. Além das pontes, o comércio entre as margens dos rios e os países também ocorre por barcaças. E bem no final dessas rotas estão os portos do Brasil, Argentina e Uruguai, que se conectam ao Oceano Atlântico.

A cocaína, cultivada no Peru ou na Bolívia chega à região da Tríplice Fronteira por via rodoviária ou aérea em pequenas aeronaves que pousam em aeroportos clandestinos ou em hidrovias. Na maioria das vezes, o carregamento sai de barco, em enormes navios porta-contêineres que se dirigem para o mar.

Um mercado rentável na Europa

Enquanto os cartéis mexicanos têm como alvo a América do Norte, os que operam nessa região têm como alvo o outro lado do Atlântico: um mercado menor, mas onde as drogas podem alcançar preços mais altos. Na edição de 2023 do seu Relatório Mundial da Cocaína, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) apresenta essa hidrovia como o principal canal de exportação de drogas para o mercado europeu. De uma tonelada de folha de coca, extrai-se um quilo de cocaína, que será vendida por US$ 2.000 na Bolívia, US$ 5.500 em Buenos Aires e US$ 35.000 na Europa, segundo investigação do jornal argentino La Nación.

Entre diversas redes que operam para controlar esse comércio lucrativo, a organização mais conhecida é o PCC brasileiro, o Primeiro Comando da Capital, que se acredita estar por trás do "tsunami" de cocaína que invadiu a Europa nos últimos anos. Seus pontos de entrada são portos na Espanha, Portugal e Bélgica e, mais recentemente, na Holanda, graças à cooperação com redes marroquinas e holandesas, revela a investigação. Essa organização, que conta com mais de 100.000 "membros", também estabeleceu ligações com a Ndrangheta calabresa, máfias do Leste Europeu e a máfia nigeriana Black Axe.

Segundo os serviços antiterrorismo dos EUA, o PCC também mantém laços estreitos com o Hezbollah libanês, que supostamente usa os criminosos brasileiros para lavar dinheiro e fornecer armas. 

Nascido nas prisões de São Paulo, o PCC tem fama de ser extremamente violento. Desde 2002, é liderado por Marcos Willians Herbas Camacho, também conhecido como Marcola ou Playboy. Nascido em 1968 e condenado a cerca de 340 anos de prisão, ele comanda sua rede com mão de ferro da penitenciária de segurança máxima. O tráfico de drogas supostamente lhe rende quase $ 4,9 bilhões segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado. 

Outras redes brasileiras envolvidas no tráfico da Tríplice Fronteira incluem a Família do Norte (FDN) e o CV (Comando Vermelho), fundado como um coletivo de defesa dos direitos dos presos (de direito comum e presos políticos), no Rio de Janeiro. O CV é a facção criminosa mais antiga do Brasil. Esses clãs controlam a rota da cocaína boliviana.

No Paraguai, o aumento do tráfico transfronteiriço está ligado ao PCC, que controla, além dos estados de São Paulo e Paraná, a extensa fronteira com o Mato Grosso do Sul, onde confrontos mortais com o submundo criminoso paraguaio ocorrem desde 2019. Na Argentina, as redes operam de forma mais tradicional, "semelhante a um clã", segundo a Insight Crimes: a família Cantero (Los Monos), em Rosário, que antes exportava carne e trigo para o Velho Continente e agora exporta cocaína; o clã Castedo, em Salta, etc.

Combate a essas redes custa caro

O combate ao crime organizado enfrenta dificuldades como a falta de recursos e a corrupção de muitos políticos, agentes alfandegários e policiais, além da escassez de efetivo. "Com pouco mais de 5.000 agentes em 24 aeroportos, 63 alfândegas, 10 zonas francas e 154 postos de fronteira, a falta de recursos humanos é uma das limitações que a administração enfrenta", observou um alto funcionário da alfândega argentina.

Aqueles que enfrentam o tráfico de forma direta às vezes pagam caro: o assassinato do promotor paraguaio Marcelo Pecci, na Colômbia, em maio de 2022, é um exemplo disso. Ele foi uma das figuras-chave de uma operação para desmantelar redes criminosas no Paraguai. Outra morte suspeita foi a de Alberto Nisman, o promotor argentino que investigava os atentados em Buenos Aires.

Nenhum mercado está imune à globalização, segundo Michel Gandilhon, que investigou extensivamente a criminalidade marítima. O pesquisador aponta o forte crescimento do transporte de contêineres: entre 1970 e 2023, o volume de mercadorias transportadas por mar aumentou de 2,605 bilhões de toneladas para quase 11 bilhões de toneladas. "Estima-se agora que, dos 90 milhões de contêineres que convergem anualmente para os principais portos europeus, apenas de 2% a 10% são efetivamente verificados", explica. Em janeiro de 2024, a União Europeia lançou a Aliança Portuária Europeia para coordenar o combate ao tráfico.

Brasil é o principal mercado de cocaína da América Latina

Os dois maiores mercados da América Latina seja para cocaína ou seus derivados são o Brasil e a Argentina. Os países da Tríplice Fronteira não são apenas locais de trânsito, mas também produtores (pasta base de cocaína no caso da Argentina e cannabis no Paraguai). O tráfico, porém, também significa consumo, com os problemas de saúde e segurança pública que ele gera. "Hoje, os produtos de cocaína atendem todas as classes sociais, então os pobres e muito pobres consomem crack, e pasta base de cocaína, e as classes média e alta consomem cocaína. Não me surpreenderia se, em termos de faturamento, a América Latina fosse hoje o 1º ou 2º maior mercado do mundo", insiste Michel Gandilhon.

O Brasil é o principal mercado de cocaína da América Latina e um dos maiores do mundo. O consumo interno cresceu significativamente, principalmente nos estados mais ricos do sul, destaca Gandilhon. O Uruguai, país vizinho que não faz parte da Tríplice Fronteira mas compartilha fronteiras com seus vizinhos, tornou-se um ponto de exportação de drogas e tem enfrentado problemas de segurança nos últimos anos. Nos últimos meses, a polícia europeia descobriu várias toneladas de drogas em navios vindos de Montevidéu, escondidas em farinha de soja ou sacos de arroz. Soja, frutas, madeira... as cargas que provavelmente contêm a droga são numerosas.

A Luta Contra o Narcotráfico

Em 1996, os países vizinhos estabeleceram um mecanismo de coordenação aduaneira e policial para combater o crime organizado (Acordo de Porto Iguaçu). Os Estados Unidos aderiram ao mecanismo em 2002, após os atentados de setembro de 2001, sob o pretexto de combater o terrorismo internacional. Mas essa coordenação rapidamente se tornou inadequada diante dos recursos de organizações criminosas, e Washington passou a atuar em outros territórios. O Mercosul também estabeleceu ferramentas de cooperação e vigilância e, em 2018, o Brasil propôs — sem sucesso — a criação de um órgão policial conjunto, o Mercopol, nos moldes da Europol.

Em janeiro de 2024, Patricia Bullrich, a nova Ministra da Segurança do novo governo do argentino Javier Milei, visitou a Tríplice Fronteira para inaugurar um centro de inteligência e análise de atividades criminosas. O fortalecimento da ação contra o tráfico de pessoas, bem como o combate ao terrorismo internacional, estão no cerne das missões deste centro. Dois meses depois, a mídia noticiou que Milei havia assinado um acordo autorizando uma unidade de engenheiros do Exército dos EUA a estabelecer presença na hidrovia Paraná-Paraguai para uma missão de "intercâmbio de inteligência e gestão". Os Estados Unidos também estão recuperando uma posição militar no Equador, onde o presidente Daniel Noboa autorizou tropas do Exército americano a estabelecerem presença nas Ilhas Galápagos, onde os Estados Unidos tinham anteriormente uma base, La Roca, desmantelada em 1946. Em fevereiro de 2025, Argentina e Paraguai relançaram sua cooperação em segurança com a assinatura da chamada Declaração de Clorinda.

De acordo com o pesquisador argentino Lucas Paulinovich, a pressão de Washington — e a proximidade entre os presidentes Trump, Milei e Noboa — favorecem esse desejo de fortalecer a cooperação. Michel Gandilhon também aponta para a rivalidade entre os Estados Unidos e a China: os investimentos significativos da China em portos latino-americanos são uma fonte de preocupação para Washington — ele diz, destacando a recente crise em torno do Canal do Panamá. Para o crime organizado chinês, "a cocaína está se tornando uma questão muito importante porque a China é provavelmente o futuro mercado", explica Michel Gandilhon.

A Tríplice Fronteira e suas múltiplas redes internacionais são um laboratório para o crime organizado, que está constantemente inventando novos métodos de ação para aumentar seus lucros. É também um desafio para os Estados vizinhos, que devem coordenar suas ações para coibir o tráfico, por um lado, erradicar a pobreza e a corrupção, garantir o acesso à educação e à saúde, e secar o terreno fértil que alimenta as redes de drogas.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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