Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Publicidade

Argentina: radiografia do país com mais votos brasileiros na América Latina

Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais eleitores brasileiros. O perfil majoritário do voto brasileiro na Argentina é jovem, feminino e de alta escolaridade. Uma consultoria local divulgou uma pesquisa sobre o eleitorado brasileiro e aponta a tendência de votos.

30 set 2026 - 11h47
(atualizado às 12h26)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A Argentina reúne o maior colégio eleitoral brasileiro na América Latina, concentrado sobretudo em Buenos Aires e composto majoritariamente por mulheres jovens e universitárias. Apesar do peso político, o eleitorado encolheu devido ao aumento do custo de vida no país vizinho, que reduziu a comunidade brasileira. Além do esvaziamento recente, o pleito enfrenta desafios logísticos pelas longas distâncias até as urnas, fator que impulsiona altas taxas históricas de abstenção entre os votantes.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O Centro Cultural do Palácio Pereda, residência do embaixador brasileiro, será o centro de votação em Buenos Aires.
O Centro Cultural do Palácio Pereda, residência do embaixador brasileiro, será o centro de votação em Buenos Aires.
Foto: © Márcio Resende / RFI / RFI

A maior quantidade de brasileiros na América Latina fica no Paraguai (270 mil), deixando a Argentina (70 mil) em segundo lugar. Mas no que se refere a eleitores, as posições se invertem: Buenos Aires é a cidade latino-americana com mais brasileiros votantes (11.873 eleitores), enquanto, em segundo lugar, com menos da metade, vem a paraguaia Cidade do Leste (5.102), na fronteira com o Brasil.

México (3.975), Bolívia (3.627), Chile (3.569) e Uruguai (3175) completam a lista dos países, mas bem longe do Paraguai (9.225) e da Argentina (13.138), segundo o TSE.

Buenos Aires concentra 90,4% desses votos, mas também representa 12 províncias que vão desde a fronteira com o Brasil até a Terra do Fogo, no extremo Sul do continente.

As mulheres representam dois de cada três eleitores na Argentina (66%).

Os jovens, de 25 a 29 anos de idade, são os mais numerosos, contabilizando 22,5% do total. Somadas faixas etárias até 39 anos, eles atingem 60% do eleitorado na Argentina.

Esse perfil é mais jovem do que o voto brasileiro no exterior em geral e está associado à grande quantidade de universitários e a profissionais no âmbito do Mercosul. Essa juventude explica que 75,6% seja solteiro.

Entre universitários e formados, há 56,7% dos eleitores. Somados aos que tem o ensino médio completo, são quase 90%, uma proporção de escolaridade superior à média do voto brasileiro no exterior.

Além de Buenos Aires, haverá zonas eleitorais em outras quatro cidades: Córdoba, Mendoza, Paso de los Libres e Puerto Iguazú, essas duas últimas na fronteira com o Brasil.

A sede da votação em Buenos Aires abrange doze províncias, enquanto a de Mendoza, três; a de Puerto Iguazú, duas e a de Córdoba, sete.

Em Buenos Aires, são 15 seções, com 30 urnas. Nas demais cidades, apenas uma urna.

Queda de eleitores

Entre 2018 e 2022, o número de eleitores aumentou em 78%, graças à uma campanha do Núcleo do PT na Argentina para transferência do título de eleitor. Nenhum outro partido tem representação no país.

Em 2018, Jair Bolsonaro ganhou as eleições no primeiro turno com os votos dos universitários, mas, no segundo turno, perdeu para Fernando Haddad, quem obteve 53,4% dos votos válidos.

A chegada de Bolsonaro ao poder levou os militantes do PT na Argentina a se dedicarem a reverter aquela derrota, mapeando a comunidade brasileira e fazendo uma campanha de conscientização sobre a importância da participação popular.

"Essas contribuições fortalecem o trabalho da Secretaria de Relações Internacionais e ampliam a capacidade do partido de formular estratégias de integração e participação que correspondam às necessidades reais de brasileiras e brasileiros no exterior", explica um relatório produzido pelas coordenadoras do Núcleo Danielle Santana e Renata Codas.

"O princípio orientador permanece claro: migrar não significa abrir mão de direitos", aponta o trabalho intitulado "Características Demográficas da População Brasileira Residente na Argentina", de agosto de 2025.

Entre 2022 e agora, o número de eleitores inscritos na Argentina aumentou em apenas 392 pessoas, embora a campanha tenha continuado até o prazo de 6 de maio para a transferência do título.

"Em 2026, temos 5,28% eleitores a menos em Buenos Aires do que em 2022", observa o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno.

A população brasileira tem se reduzido devido ao aumento do custo de vida na Argentina, identificam tanto no Consulado do Brasil em Buenos Aires quanto no Núcleo do PT.

Números do Registro Nacional das Pessoas (RENAPER) da Argentina mostram que, se em 2022, 12.255 brasileiros deram entrada no documento argentino, em 2024, esse número tinha caído a 6.644 e, no ano passado, ficou abaixo de dois mil (os dados mais recentes disponíveis são até julho de 2025).

É uma desaceleração inédita, só comparável ao período de pandemia, quando a Argentina teve a quarentena mais prolongada e estrita do mundo, fazendo com que muitos brasileiros fossem embora e ninguém pudesse entrar. Em 2020, foram apenas 3.173 pedidos de documento e, em 2021, 2.736 registros.

Com isso, se em 2022 havia cerca de 89.020 brasileiros, esse número em julho de 2025 era de 69.538 brasileiros, uma queda de quase 20 mil em três anos.

Em 2024, o TSE registrava 14.590 eleitores brasileiros na Argentina; agora, 13.138. A queda sugere que, pelo menos, 1.452 eleitores chegaram a transferir o título para a Argentina, mas foram embora antes das eleições dois anos depois.

Na cidade de Buenos Aires, moram 24.701, equivalentes a 35,5% do total, bem acima de Rosario, em segundo lugar, com 5.969 brasileiros (8,6%) ou de La Plata, em terceiro, com 3.195 (4,6%). Rosario e La Plata atraem muitos estudantes brasileiros, sobretudo de Medicina.

O voto de 2022 e os desafios de 2026

Em 2022, Lula ganhou com 63,5% dos votos. A abstenção de 43% na Argentina, mais do que duplica a média do Brasil. E esse é um grande desafio que requer informação, mobilização e presença territorial, segundo o relatório "Brasileiros no exterior: dados para compreender o eleitorado de 2026", publicado pelo Núcleo do PT na Argentina.

A importância da participação popular é justamente o fortalecimento de direitos e de vínculos com a Democracia.

As razões para uma abstenção tão alta são a falta de informação para a transferência do título de eleitor e a distância dos locais de votação.

As distâncias entre as províncias e a Embaixada do Brasil em Buenos Aires são significativas. Podem ser 400 Km, 1.700 Km e até 2.500 Km.

Se pegarmos apenas as cidades onde há forte presença de estudantes brasileiros, Mar del Plata e Rosario, por exemplo, ficam a 400 quilômetros de Buenos Aires.

"A distância até a sede de votação não se mede apenas em quilômetros: envolve tempo, custos e ajustes de rotina. Aos domingos, a redução da oferta de transporte amplia esperas e exige combinações de trajetos, o que pode impedir a realização de ida e volta no mesmo dia e elevar os gastos. Condições climáticas e horas de luz também influenciam o planejamento, reforçando a ideia de que a localização das sedes eleitorais, somada à ausência de alternativas próximas, funciona como desestímulo à transferência de título e como barreira prática ao exercício do voto", observa o estudo.

Segundo o cônsul-geral do Brasil em Buenos Aires, Raymundo Magno, o grande desafio de 2026 é a organização para evitar as cenas de 2022, quando uma fila serpenteante de eleitores dava voltas nos quarteirões e demorava mais de quatro horas até as urnas.

Desta vez, serão cinco filas, 60 mesários e um total de 100 pessoas na organização apenas no Centro Cultural do Palácio Pereda, residência do Embaixador, onde será a votação em Buenos Aires.

Sondagem Argentina

A Argentina vive o pleito brasileiro com muita atenção e expectativa. O resultado terá impacto direto na relação de Buenos Aires com o seu principal sócio estratégico e efeitos políticos, domésticos e internacionais.

A consultora argentina CB fez uma sondagem sobre as eleições, entrevistando de forma online 4.275 brasileiros de todo o Brasil. A pesquisa, realizada entre os dias 7 e 11 de setembro, não alcançou os anúncios do presidente Lula sobre aumento do Bolsa Família, implementação das canetas emagrecedoras no SUS e proibição das BETS.

A pesquisa foi difundida na segunda-feira (28), de forma restrita a um limitado grupo de jornalistas, entre os quais a RFI.

Lula ganharia no primeiro turno com 43,5%, enquanto Flávio Bolsonaro ficaria com 36,1%.

Os que dizem que nunca votariam em Lula somam 50,4%, mas os que nunca votariam em Flávio Bolsonaro chegam a 52,9%.

A margem de erro é de 1,5% e o nível de confiança, de 95%.

"Na contramão do que dizem todos, acredito que, se Lula ganhar o primeiro turno com uma diferença ampla de oito pontos, isso possa provocar um acomodamento da militância do PT e uma reação dos eleitores opositores que projete Bolsonaro à vitória. Vimos isso em recentes eleições na região. Se, no entanto, Lula ganhar com uma diferença de cinco pontos no primeiro turno, então a tendência é que ganhe também no segundo turno", aponta para a RFI o diretor da CB, Cristian Buttié, autor da pesquisa.

Segundo o consultor argentino, se fosse hoje, a projeção indica que Lula ganharia no segundo turno com 52%, enquanto Bolsonaro ficaria com 48%.

"Devido à rejeição a Bolsonaro, maior do que a de Lula, vejo mais possibilidades para Lula. Uma eleição disputadíssima, mas com mais possibilidades para Lula", aposta Buttié.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra